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BQT 206b-207a: Objeto verdadeiro do amor

quinta-feira 24 de março de 2022

      

— Quando então — continuou ela — é sempre isso o amor, de que modo, nos que o perseguem, e em que ação, o seu zelo   e esforço se chamaria amor? Que vem a ser essa atividade  ? Podes dizer-me?

— Eu não te admiraria então, ó Diotima  , por tua sabedoria, nem te frequentaria para aprender   isso mesmo.

— Mas eu te direi — tornou-me. -É isso, com efeito, um parto em beleza, tanto no corpo como na alma  .

— É um adivinho — disse-lhe eu — que requer o que estás dizendo: não entendo.

— Pois eu te falarei mais claramente, Sócrates, disse-me ela. Com efeito, todos os homens concebem, não só no corpo como também na alma, e quando chegam a certa idade, é dar à luz que deseja a nossa natureza. Mas ocorrer isso no que é inadequado é impossível. E o feio   é inadequado a tudo o que é divino, enquanto o belo é adequado. Moira   então e Ilitia do nascimento é a Beleza. Por isso, quando do belo se aproxima o que está em concepção, acalma-se, e de júbilo transborda, e dá à luz e gera; quando porém é do feio que se aproxima, sombrio e aflito contrai-se, afasta-se, recolhe-se e não gera, mas, retendo o que concebeu, penosamente o carrega. Daí é que ao que está prenhe e já intumescido é grande o alvoroço que lhe vem à vista do belo, que de uma grande dor   liberta o que está prenhe. É com efeito, Sócrates, dizia-me ela, não do belo o amor, como pensas.

— Mas de que é enfim?

— Da geração e da parturição no belo.

— Seja — disse-lhe eu.

— Perfeitamente — continuou. — E por que assim da geração? Porque é algo de perpétuo e mortal   para um mortal, a geração. E é a imortalidade que, com o bem, necessariamente se deseja, pelo que foi admitido, se é que o amor é amor de sempre ter consigo o bem. É de fato forçoso por esse argumento   que também da imortalidade seja o amor.