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BQT 196b-197b: A excelência ou as virtudes do amor

quinta-feira 24 de março de 2022

      

Sobre a beleza do deus   já é isso bastante, e no entanto ainda muita coisa resta; sobre a virtude   de Amor devo depois disso falar, principalmente que Amor não comete nem sofre injustiça  , nem de um deus ou contra um deus, nem de um homem   ou contra um homem. À força, com efeito, nem ele cede, se algo cede — pois violência não toca em Amor — nem, quando age, age, pois todo homem de bom grado serve em tudo ao Amor, e o que de bom grado reconhece uma parte a outra, dizem “as leis, rainhas da cidade", é justo. Além da justiça, da máxima temperança ele compartilha. É com efeito a temperança, reconhecidamente, o domínio sobre prazeres e desejos; ora, o Amor, nenhum prazer lhe é predominante; e se inferiores, seriam dominados por Amor, e ele os dominaria, e dominando prazeres e desejos seria o Amor excepcionalmente temperante. E também quanto à coragem  , ao Amor “nem Ares se lhe opõe”. Com efeito, a Amor não pega Ares, mas Amor a Ares — o de Afrodite, segundo a lenda — e é mais forte   o que pega do que é pegado: dominando assim o mais corajoso de todos, seria então ele o mais corajoso. Da justiça portanto, da temperança e da coragem do deus, está dito; da sua sabedoria porém resta dizer; o quanto possível então deve-se procurar não ser omisso. E em primeiro lugar  , para que também eu por minha vez honre a minha arte como Erixímaco a dele, é um poeta o deus, e sábio, tanto que também a outro ele o faz; qualquer um em todo caso torna-se poeta, “mesmo que antes seja estranho às Musas  ”, desde que lhe toque o Amor. E o que nos cabe utilizar como testemunho de que é um bom poeta o Amor, em geral em toda criação artística pois o que não se tem ou o que não se sabe, também a outro não se poderia dar ou ensinar  . E em verdade  , a criação dos animais todos, quem contestará que não é sabedoria do Amor, pela qual nascem e crescem todos os animais? Mas, no exercício das artes, não sabemos que aquele de quem este deus se toma mestre acaba cé1ebre e ilustre, enquanto aquele em quem Amor não toque, acaba obscuro  ? E quanto à arte do arqueiro, à medicina  , à adivinhação  , inventou-as Apolo guiado pelo desejo e pelo amor, de modo que também Apolo seria discípulo do Amor. Assim como também as Musas nas belas-artes, Hefesto   na metalurgia, Atena na tecelagem, e Zeus   na arte “de governar os deuses e os homens”. E dai é que até as questões dos deuses foram regradas, quando entre eles surgiu Amor, evidentemente da beleza — pois no feio   não se firma Amor -, enquanto que antes, como a princípio disse, muitos casos terríveis se davam entre os deuses, ao que se diz, porque entre eles a Necessidade   reinava; desde porém que este deus existiu, de se amarem as belas coisas toda espécie de bem surgiu para deuses e homens.