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ouranos

quinta-feira 24 de março de 2022

    

1. O céu é um princípio gerador nas antigas cosmogonias (ver Platão, Timeu   40d-e; Aristóteles  , Metafísica 1091b). Aparece primeiro num contexto estritamente filosófico num passo difícil de Anaxímenes   (Diels 12A17) onde é representado como pressupondo «inúmeros ouranoi que são deuses». A partir daí a opinião   grega sobre o céu como simples entidade é pelo menos parcialmente substituída pela de uma multiplicidade de esferas celestes que envolvem a terra   e transportam o sol  , a lua   e os planetas, enquanto a última esfera   exterior   transporta as estrelas fixas (ver Aristóteles, De coelo I, 278b). Neste mesmo passo do De coelo Aristóteles salienta que ouranos   é também usado no sentido do universo   total, e, na verdade  , Platão ainda tinha usado os termos ouranos e kosmos   indiferentemente (Fedro   247b, Político 269d, Timeu 28b); ver também kosmos.

2. A juntar   à crença na divindade   dos corpos celestes (ouranioi), o céu teve outra ligação com a religião: ligada à crescente sofisticação astronômica e à consequente identificação do céu como uma «ordem» extraordinária (ver kosmos) havia a crença de que o papel do filósofo era a contemplação   das eternas verdades do alto. Mais conhecidas a este respeito são as anedotas acerca de Anaxágoras   (ver Diógenes Laércio II, 2 e 7; Jâmblico  , Protrept. 51, 6-15; talvez o comentário de Aristóteles acerca de Xenófanes na Metafísica 986b deva   ser compreendido no mesmo sentido). O mesmo motivo encontra-se em Fílon, De opif. 17, 53-54, agora combinado com uma criação providencial; Deus   criou os céus para que o homem  , ao contemplar a sua harmonia  , pudesse ser atraído para as alturas, para o estudo da filosofia.

3. Também para Platão o espetáculo   dos céus tem um efeito educativo diferente: na Rep.   528e-530c a astronomia   serve de introdução à dialektike   (confrontar Leis 820a-822d, 967a-968a); uma visão   da ordem dos céus é uma característica   do mito   do destino da alma   tanto no Fedro 246d-247c como na República 616c-617d. O matiz é ligeiramente diferente no Timeu 47a-c; aqui a contemplação dos céus dirige-se para uma restauração   da harmonia (q. v.; ver kinoun 5) na alma. Por altura da tardia Epinomis   acadêmica 980a-988e estas considerações foram incorporadas na (e subjugados pela) prevalecente teologia astral (ver ouranioi 7). O céu torna-se então a residência destes deuses celestes, o Olimpo (assim Epinomis 977b; ver Timeu 30e-40b e o notável fragmento de Crítias preservado em Sexto Empírico, Adv. Math. IX, 54).