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Bréhier (HF) – Mito do Político

quarta-feira 27 de julho de 2022

    

Sucupira Filho

O constante perigo de decadência que ameaça as cidades é o meio indireto de provar a necessidade   do governo de filósofos, capazes de deter a sua queda. A visão   social pessimista, que se origina dessa espécie de lei de degradação das cidades, não é contrabalançada, em Platão  , pela crença de que a técnica   política pode realizar algum progresso em sentido inverso. Não é equilibrada senão por uma crença não racional, mas inteiramente viva, em relação à forma cíclica do devenir. O devenir, retroagindo sobre si mesmo  , conduz ao estado   primitivo. Mas, a essa crença, Platão não deu qualquer forma filosófica e científica, como a que deu à descrição do fato, diretamente comprovado, da decadência dos governantes. Empresta-lhe a forma de mito  , que expõe no Político, destinado, sem dúvida, a melhor evidenciar o sítio exato e delimitado da arte política em uma evolução, cujo conjunto   escapa plenamente aos critérios da arte racional. Platão imagina,, com efeito/que na idade feliz de Cronos, o sol   e os astros caminhavam em sentido inverso ao do atual, e que todo o desenvolvimento dos seres ocorria, igualmente, em sentido inverso, isto é, que ia da morte ao renascimento, em lugar de ir do nascimento à morte. Isso significava que a terra   produzia, espontaneamente e sem o trabalho   humano, todos os frutos úteis ao homem  ; e, em geral, que cada ser chegava, sem esforço, a seu ponto de perfeição. Como não havia nenhum trabalho técnico, não era necessária qualquer união   política. Mas, quando o sol modifica o sentido de seu curso, e simultaneamente, os seres, lenta e dificilmente, em meio a obstáculos de toda sorte, alcançam sua maturidade, é então que se fazem necessárias as técnicas de toda classe, principalmente a técnica social. A maior parte das artes são dons qué os deuses propiciam aos homens para ampará-los em suas dificuldades (268 e - 275 b).

Eis porque a arte social assume, no Político, fisionomia tão peculiar e inovadora; toda arte humana manipula coisas mutantes, diversas, e, desde logo, procede menos por meio de regras gerais do que por recursos que se adaptem às circunstâncias. Acontece o mesmo com a arte política; “as dessemelhanças entre os homens e suas ações, a completa ausência   de imobilidade nos assuntos humanos opõem-se a toda regra   simples que sirva para todos os casos e todos os tempos” (294 b), tanto em matéria de arte política como nas demais artes. Disso se conclui que o homem de Estado, o técnico político, é uma lei viva e soberano absoluto da cidade, como o pastor   o é de seu rebanho. Platão chega, assim, a dar ao político um caráter providencial e sobre-humano, como germes longínquos da teoria   do poder no império romano e no papado. Aqui, menos ainda, se vislumbra qualquer esperança  , baseada na razão  , de progresso natural, e o mito substituirá, regularmente, o conhecimento em todos os casos em que se trate de retornar a um estado superior ao nosso (293-300).

Original

Le danger constant de décadence qui menace les cités, est un moyen indirect de prouver la nécessité du gouvernement des philosophes qui les arrête sur la pente  . La vue sociale très pessimiste, qui se dégage de cette sorte de loi de dégradation des cités, n’est pas contre balancée chez Platon par la croyance que la technique politique pourrait réaliser un progrès en sens inverse. Elle n’est équilibrée que par une croyance non raisonnée, mais tout à fait vivante, à la forme cyclique du devenir ; le devenir, en revenant sur lui-même, ramène à l’état primitif. Mais à cette croyance, Platon n’a nullement donné la forme philosophique et scientifique qu’il donne à la description du fait directement constaté de la décadence des gouvernements. Il lui donne la forme d’un mythe, celui qu’il expose dans le Politique  , mythe destiné sans doute à mieux faire saisir la place précise et limitée de l’art politique dans une évolution dont l’ensemble échappe pleinement aux prises de l’art rationnel. Platon imagine en effet que, dans l’âge heureux de Cronos, le soleil et les astres allant en sens inverse de leur sens actuel, tout le devenir des êtres était également de sens inverse, c’est à dire qu’il allait de la mort à la naissance au lieu d’aller de la naissance à la mort ; c’est dire que la terre produisait spontanément et sans le travail humain tous les fruits utiles à l’homme, et, en général, que chaque être arrivait sans effort à son point de perfection ; nul travail technique, donc nulle union politique ne sont alors nécessaires. Mais lorsque le soleil change le sens de son cours, lorsque, simultanément, les êtres arrivent lentement et difficilement, au milieu d’obstacles de toute sorte à leur achèvement, c’est alors que les techniques de tout genre et notamment la technique sociale sont nécessaires ; la plupart des arts sont des dons que les dieux font aux hommes pour les soutenir dans ces difficultés (268e 275b [‘15’]).

De là, la physionomie, assez particulière et nouvelle, que prend l’art social dans le Politique ; tout art humain manipule des choses changeantes, diverses, et dès lors, procède moins par règles générales que par des tours de main qui s’adaptent aux circonstances. Il en est de même de l’art politique ; « les dissemblances entre les hommes et entre leurs actions, la complète absence d’immobilité dans les choses humaines se refusent à toute règle simple portant sur tous les cas et valables pour tous les temps » (294b), aussi bien en mati  ère d’art politique que dans les autres arts. Il s’ensuit que l’homme d’État, le technicien politique est une loi vivante ; et qu’il est souverain absolu de la cité, comme le pâtre de son troupeau. Platon arrive ainsi à donner au politique un caractère providentiel et surhumain, germes lointains de la théorie du pouvoir dans l’empire romain et dans la papauté. Ici donc encore, on le voit, aucun espoir, fondé en raison, de progrès naturel, et le mythe substitué régulièrement à la science partout où il est question du retour à un état supérieur au nôtre (293 300).


Ver online : Émile Bréhier