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Bréhier (HF) – Platão, filosofia e política inseparáveis

segunda-feira 19 de setembro de 2022

    

Sucupira Filho

Só por abstração   é possível separar a política de Platão   de sua filosofia. Suas grandes obras são, ao mesmo tempo, filosóficas e políticas: o Górgias  , em que mostra os perigos de uma política não baseada na razão  ; a República  , onde a filosofia é utilizada como o único meio de chegar a uma política viável. A trilogia Sofista  , Político e Filósofo (Cf. indicação do plano de conjunto  . Sofista  , 217 a), de que o último diálogo   ficou em projeto, tendia, sem dúvida, a mostrar as capacidades políticas do filósofo. A trilogia Timeu  , Crítias, Hermocrates, dos quais não escreveu senão o primeiro diálogo e o começo do segundo, devia, após a formação do mundo, descrito no Timeu, tratar da revolução das cidades, de sua ruína e restabelecimento. As Leis, enfim, são verdadeiro manual de legislação. Não menos legítimo é separar a filosofia da política, em Platão como em Augusto   Comte. Como esquecer que o impulso para a filosofia lhe vem de Sócrates  , que insiste com veemência, na Apologia  , sobre sua missão social?

Platão, como Sócrates, crê firmemente na missão social do filósofo. Após haver retratado, na República, o tipo de cidade ideal, ele pergunta sob que condições poder-se-á realizar um regime semelhante. Seria suficiente uma só transformação  , «mas que não é pequena nem fácil, embora seja possível..., que os filósofos sejam reis na cidade, ou que os reis e dinastas sejam bons filósofos; isto é, que autoridade   política e filosofia coincidam» (473 b). É preciso conceder a essa exigência um sentido inteiramente prático. No momento mesmo em que Platão passa da teoria   à prática, faz intervir a autoridade política do filósofo. Platão não deixa de insistir sobre o papel ativo que convém ao filósofo: é necessário forçá-lo a descer da contemplação das coisas inteligíveis para ocupar-se   dos negócios da cidade (519 d). E, igualmente, preparar para essa reforma a opinião   do vulgo, que, em virtude mesmo dos vícios   do governo, considera a filosofia como inútil para a cidade (500 b). A filosofia procederá, em relação à cidade, como o pintor sobre a muralha que está ornamentando. De início, deve limpá-la cuidadosamente; depois, desenhará a forma da cidade, comparando-a, a cada instante  , com o modelo do justo que ele é capaz de contemplar (501 a).

Como chegou Platão a esse célebre ponto de vista, que parece ser a utopia   social por excelência? De onde provém a ideia de uma reconstrução racional da cidade? Qual a significação exata?

Original

C’est seulement par abstraction que l’on peut séparer la politique de Platon de sa philosophie. Ses plus grandes œuvres sont du même coup des œuvres philosophiques et politiques. Le Gorgias, où il montre les dangers d’une politique non fondée en raison, la République, où la philosophie est utilisée comme le seul moyen d’arriver à une politique viable. La trilogie Sophiste, Politique et Philosophe , dont le dernier dialogue est resté en projet, tendait sans doute à montrer les capacités politiques du philosophe. La trilogie Timée, Critias, Hermocrate, dont Platon n’a écrit que le premier dialogue et le début du deuxième, devait, après la formation du monde, décrite dans le Timée, traiter des révolutions des cités, de leur ruine et de leur rétablissement. Les Lois enfin sont un véritable manuel du législateur. Il n’est pas plus légitime de séparer la philosophie de la politique chez Platon que chez un Auguste Comte  . Comment oublier que l’élan vers la philosophie lui vient de Socrate, qui insiste avec une telle force dans l’Apologie sur sa mission sociale ?

Platon, comme Socrate, croit fermement à la mission sociale du philosophe. Après avoir dépeint, dans la République, le régime de la cité idéale, il se demande à quelle condition un régime approchant pourra passer dans les faits ; il suffirait d’un seul changement « mais qui n’est point petit, ni facile, quoiqu’il soit possible..., c’est que les philosophes soient rois dans les cités, ou que les rois et les dynastes soient de bons philosophes, c’est que autorité politique et philosophie coïncident » (473b). Il faut donner à cette exigence un sens tout à fait pratique ; c’est au moment même où Platon passe de la théorie à la pratique, qu’il fait intervenir l’autorité politique du philosophe. Platon ne se lasse pas d’insister sur le rôle actif qui convient au philosophe : il faut le forcer à descendre de la contemplation des choses intelligibles pour s’occuper des affaires de la cité (519d) ; il faut aussi préparer à cette réforme l’opinion du vulgaire, porté, à cause même des vices du gouvernement, à considérer la philosophie comme inutile à la cité (500b). La philosophie procédera sur la cité comme le peintre sur la muraille qu’il orne ; il la nettoiera d’abord soigneusement, puis il y dessinera la forme de la cité, en comparant à chaque instant son dessin au modèle du juste qu’il est capable de contempler (501a).

Comment Platon est il arrivé à cette vue célèbre, qui paraît être l’utopie sociale par excellence ? D’où vient cette idée d’une reconstruction rationnelle de la cité ? Quelle en est la signification exacte ?


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