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Fernando Pessoa: A Filosofia de Platão

quarta-feira 23 de março de 2022

      

Dizemos que os actos (coisas) são justos e bons, e que a justiça e a verdade   não existem?

Poderão os actos justos, as boas acções preceder a justiça, a bondade?

— Vejamos agora que ou estes actos são assim em si próprios, justos e bons; ou apenas são justos e bons relativamente, apenas enquanto como tal são apercebidos, quer dizer, ou é a humana mente   ou a humana organização que os produz (pelo menos em colaboração com o objecto). Se os actos forem em si próprios justos e bons, visto que não são eles os únicos a possuírem bondade e justiça, como são eles bons e justos?

Se estes actos forem apenas relativamente justos e bons como são eles relativamente justos e relativamente bons? Porque temos em nós qualquer coisa para assim julgar as coisas. Agora, já que um acto é mais justo do que outro, já que uma coisa é mais extensa do que outra, se isto é o produto da nossa mente   mais o objecto, qual a parte do objecto e qual a parte da mente?

Observemos agora que nos objectos deste modo percebidos há 2 elementos  : justiça e quantidade de justiça, num caso; no outro, extensão  , espaço e uma certa quantidade de espaço.

Qual destas partes é a do sujeito, qual tem origem   no objecto? Notamos que uma é constante; a outra varia.


As coisas não são sombras de ideias, nem as ideias mais reais do que as coisas. São idênticas e da mesma ordem. As coisas são ideias e as ideias são coisas.

Na minha alucinação a minha ideia e a sua exteriorização não são duas coisas, são uma e a mesma coisa.

Platão estava errado quando atribuía às suas ideias uma realidade   diferente da das coisas, quando não via em cada coisa uma ideia, mas apenas encontrava ideias nas generalizações.


Ideia. Que é uma ideia? Dizemos que há as ideias de triângulo, de animal  , de Deus  . Como se reúnem estas sob a mesma denominação de ideias?

Talvez possamos dizer: uma ideia é uma coisa. Mas então entramos no sistema de Protágoras  , que já Platão tão bem criticou.

Se uma ideia iguala uma coisa, uma vez que um homem   tem uma ideia de Deus e outro homem de não-Deus, a cada uma destas ideias corresponde uma coisa.

Mas como as ideias são opostas, assim são as coisas e isso é impossível. (Respondam a isto: não há ideia de não-Deus.) Não há ideia de nada. Uma ideia de nada é uma não-ideia.

Mas então há para um homem uma ideia de Deus, para outro homem uma ideia de Destino, para outro uma ideia de Matéria. Cada uma destas é uma ideia, todas estas ideias têm o mesmo grau de clareza   — e no entanto contradizem-se umas às outras.

Características de uma ideia, e. g. a ideia de círculo  . Unidade  . Perfeição. Simplicidade.

Ideia = possibilidade
Ideia de forma
Ideia de triângulo
Ideia de triângulo escaleno
Ideia do trângulo escaleno que acabo de desenhar  .

Ver online : PLATÃO