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forma e substância

terça-feira 22 de março de 2022

    

Luiz Carlos Lima
Embora a afirmação   de a língua ser forma e não substância   remonte a Wilhelm von Humboldt  , que opunha Form a Stoff, é a Saussure que cabe a plena delimitação da ideia. No Cours se encontra afirmado que "a língua é uma forma e não uma substância" (280, 167) . Isto significa dizer que "a noção   de entidade linguística não (é) positiva, mas puramente diferencial e negativa" (183, 43). Noutros termos, o fundamento da linguística se encontra nas funções e relações que as unidades linguísticas estabelecem entre si, tanto no eixo   das possibilidades de combinação , quanto no das possibilidades de seleção  , e não na matéria de que tais unidades são formadas ou no significado que conduzam. Mas a determinação saussuriana do caráter formal da língua constitui apenas o início de desenvolvimento da ideia na linguística contemporânea. Porquanto a primazia do formal estabelece a alternativa seguinte: a) a linguagem é pura forma e toda matéria ou substância é irrelevante, b) a delimitação da forma é apenas anterior   à investidura do significado e aquela delimitação se faz pari passu com a consideração   de sua substância . Na primeira posição  , de certo modo se inclui a linguística norte-americana de linha bloomfieldiana, onde, se o significado aparece como irrelevante, a ideia de forma contudo se confunde com o empiricamente dado. Plenamente, ao invés, nela se inclui o pensamento   do linguista dinamarquês L. Hjelmslev, muito embora seguidores seus, como Malmberg, possam adotar uma postura moderada. — Na segunda posição  , pelo contrário, se incluem investigadores como Trubetzkoy, Jakobson , Martinet e Coseriu. Implícita à escolha   de um dos dois   rumos é, respectivamente, a ruptura ou o enlace das abordagens fonética e fonológica. Entretanto, qualquer que seja a decisão   dos analistas, o fato é ser a partir de Hjelmslev que o problemas das relações entre ’forma’ e ’substância’ adquiriu sua formulação consistente. O tratamento por ele apresentado, ademais, permite a projeção   do conceito além dos estritos limites da linguística. — A partir das ideias saussurianas de significante e significado, Hjelmslev desenvolve as categorias de plano da expressão   e plano do conteúdo. Cada um destes pianos contém um estrato de forma e um estrato de substância. Donde escrevermos:

plano da expressão — forma
plano da expressão — substância

plano do conteúdo — forma
plano do conteúdo — substância

Apenas para se compreender o que sejam os dois planos, consideremos a frase   A maçã é boa. O plano do conteúdo corresponde ao conjunto   que é enunciado, ao passo que o da expressão corresponde à sua transcrição fonética.

Plano do conteúdo A maçã é boa
Plano da expressão /A maçã(n) é boa/

Agora detalhando: a forma do plano do conteúdo é dada pelas regras de concordância entre o sujeito e o verbo (concordância de número   e pessoa  ) e entre adjetivos e substantivo que os determino (concordância em gênero   e número). Já a substância é dada pelo sentido "positivo" (nocional) que é transmitido. Passemos ao plano da expressão. Sua forma é fornecida pela análise dos fonemas aí presentificados, considerando-se suas oposições, posições e graus de frequência. A substância do plano da expressão é fornecida pela análise fonética (transcrição acima), que considera a matéria sonora que realiza as operações fonológicas. Acrescente-se: segundo Hjelmslev, ambas as "substâncias" são extralinguísticas, pois as mesmas formas podem-se manifestar por substâncias diversas, como a escrita ou a fala. Encarando-se do ponto de vista da comunicação, porém, é importante considerar com Malmberg que "a comunicação não fica estabelecida até que a sequência linguística de elementos   discretos tenha sido de novo relacionada com uma substância de conteúdo que, por motivos evidentes, nem sempre é — quase nunca pode ser — idêntica a que o sujeito emissor intencionava quando enviou a sua mensagem".