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Heidegger Medo

domingo 20 de março de 2022

    

Excertos do 30 de Ser e Tempo, na tradução de Marcia Schuback

30. O medo como um disposição   - modo de disposição   [Cf. Aristóteles, Retórica, B 5, 1382 a 20 - 1383 b 11.]

O fenômeno do medo pode ser considerado segundo três perspectivas: analisaremos o de que se tem medo (Wovor), o ter medo e o pelo que se tem medo (Worum). Essas perspectivas possíveis e copertinentes não são casuais. Com elas vem à luz a disposição   - estrutura   da disposição. A análise se completará com a indicação das possíveis modificações do medo e de seus vários momentos estruturais.

O de que se teme, o "amedrontador", é sempre um ente   que vem ao encontro dentro do mundo e que possui o modo de ser do que está à mão, ou do ser simplesmente dado ou ainda da co-presença. Não se trata de relatar onticamente o ente que, na maior parte das vezes e das mais diversas formas, pode tornar-se "amedrontador". Trata-se de determinar fenomenalmente o que é amedrontador em seu ser amedrontador. O que pertence ao amedrontador como tal a ponto de vir ao encontro no ter medo? Aquilo de que se tem medo possui o caráter de ameaça. Isso implica varias coisas: 1. O que vem ao encontro possui o modo conjuntural de ser prejudicial. Ele sempre se mostra dentro de um contexto conjuntural. 2. Esse prejudicial visa a um âmbito determinado daquilo que pode encontrar. Chega trazendo em si a determinação de uma região dada. 3. A própria região e o "estranho" que dela provem são conhecidos. 4. Enquanto ameaça, o prejudicial não se acha ainda numa proximidade dominável, ele se aproxima. Nesse aproximar-se, o prejudicial se irradia, e seus raios apresentam o caráter de ameaça. 5. Esse aproximar-se aproxima-se dentro da proximidade. O que, na verdade  , pode ser prejudicial no mais alto grau e até constantemente se aproxima, embora mantendo-se a distância, vela seu ser amedrontador. É, porém, aproximando-se na proximidade que o prejudicial ameaça, pois pode chegar ou não. Na aproximação cresce esse "pode chegar, mas por fim não". Então dizemos, é amedrontador. 6. Isso significa: ao se aproximar na proximidade, o prejudicial traz consigo a possibilidade desvelada de ausentar-se e passar ao largo, o que não diminui nem resolve o medo, ao contrário, o constitui.

O ter medo ele mesmo libera a ameaça que assim caracterizada se deixa e faz tocar a si mesma. Não se constata primeiro um mal futuro   (malum futurum) para então se ter medo. O ter medo também não constata primeiro o que se aproxima, mas, em seu ser amedrontador, já o descobriu previamente. É tendo medo que o medo pode ter claro para si o de que tem medo, "esclarecendo-o". A circunvisão vê o amedrontador por já estar na disposição do medo. Como possibilidade adormecida do ser-no-mundo disposto, o ter medo é "medrosidade" e, como tal, já abriu o mundo para que o amedrontador dele possa aproximar-se. A própria possibilidade de aproximação é liberada pela espacialidade essencialmente existencial de ser-no-mundo.

O próprio   ente que tem medo, a Dasein   - presença  , é aquilo pelo que o medo tem medo. Apenas o ente em que, sendo, está em jogo   seu próprio ser, pode ter medo. O ter medo abre esse ente no conjunto   de seus perigos, no abandono a si mesmo  . Embora em diversos graus de explicitação, o medo desvela a Dasein - presença no ser de seu pre. Se tememos pela casa   ou pela propriedade, isso não contradiz em nada a determinação anterior   daquilo pelo que se teme. Pois enquanto ser-no-mundo, a Dasein - presença é um ser em ocupações junto a. Numa primeira aproximação e na maior parte das vezes, a Dasein - presença é a partir do que se ocupa. Estar em perigo é a ameaça de ser e estar junto a. Predominantemente, o medo revela a Dasein - presença de maneira privativa. Ele confunde e faz "perder a cabeça". O medo vela, ao mesmo tempo, o estar e ser-em perigo, já que deixa ver o perigo a ponto de a Dasein - presença precisar se recompor depois que ele passa.

Ter medo por ou ter medo de alguma coisa sempre abre - seja privativa ou positivamente - de modo igualmente originário, o ente - ente intramundano em sua possibilidade de ameaçar e o ser-em no tocante ao estar ameaçado. Medo é um disposição - modo da disposição.