Página inicial > Medievo - Renascença > Munier: Corbin e o "Anjo"

Munier: Corbin e o "Anjo"

segunda-feira 1º de agosto de 2022

    

Segundo a apresentação de Roger Munier desta obra, nos relatos de iniciação   que seguem ao texto de Sohravardi   traduzido e apresentado anteriormente por Henry Corbin   sob o título de O Arcanjo   Empurpurado, o que nos é proposto é como uma aventura religiosa do Eu profundo. Na doutrina sohravardiana do Ishraq, o «Anjo» é com efeito o duplo celeste da psique terrestre. Ser de luz que a fundamenta na sua realidade   de alma  , o «Anjo» é o princípio transcendente de sua individualidade. O Destino do homem   é único e votado ao Único. Mas um Único que não é tal senão para cada um. Do mesmo modo, à fórmula para nós   tradicional do «homem e sua alma», convém, nos diz Corbin, substituí-la pela mais rica e ontológica afirmação   do «homem e seu Anjo». Esta afirma ao nível do destino, não a justaposição de duas realidades distintas ou a reabsorção eventual de uma na outra no seio da união   mística ou na morte, mas ao invés o mistério ontológico de Dois  , que restam no entanto Dois, em um Único.

A alma humana veio de alhures. Muitas tradições o ensinam desde Platão. Mas enquanto para o Platonismo, a alma de algum modo caiu no exílio   da carne  , «há, nos lembra Corbin, um tipo de descida da alma, digamos gnóstico-iraniano, tal que esta descida resulta do desdobramento, da ruptura de uma Todo primordial». Em se engajando na carne, ela está por um tempo   somente separada de seu «Anjo». Parte integrante, como alma, de um «Todo diádico» que a comanda no mais íntimo, ela está, desde aqui em baixo, em referência constante a seu Duplo celeste. É a ele que ela deve se reunir   na morte. Mas que ela pode também perder para sempre se, durante sua vida terrestre, ela foi infiel a este companheiro permanente com esta outra metade dela mesma, que só pode lhe conceder um dia sua unidade   perdida.

Uma tal concepção, que remonta sem dúvida ao passado   mais longínquo do Irã, não tão estranha quanto se possa crer, a nossa tradição   espiritual. Corbin faz notar que se encontram traços em uma corrente subterrânea que percorreu nossa história, dos Cátaros neomaniqueus a Novalis  , em passando por Jacob Boehme  . O que é o «Anjo» de fato, senão o mundo verdadeiro do homem, sua Natureza Perfeita que o espera, mas cuja permanência celeste, já adquirida, continuamente o porta e sustenta ao tempo de seu exílio? O «Anjo» é, no fundo, sua essência   completa. «Não é, sublinha Corbin, nem o Abismo   divino   impessoal e insondável, nem o Deus   extracósmico, ao mesmo tempo transcendente e pessoal, de um monoteísmo abstrato ou puramente formal. Mas desde que a unio mystica com o Anjo se precisa como reunião da alma e seu Anjo, a busca se encontra orientada para uma noção   do Único que não seja aquela de uma unidade aritmética, mas de preferência aquela da Unidade arquetípica, unífica, que «monadiza» todos os «únicos». A experiência que realiza este «cada vez único» do ser retornando a sua Unidade, pressupõe então uma kathena, algo como uma kathenoteísmo místico.

  • O Relato do Exílio Ocidental
    • O relato de iniciação na obra de Sohravardi
    • O Relato do Exílio Ocidental
    • O simbolismo alquímico
  • O Mito   de Hermes   e a «Natureza Perfeita»
    • O Anjo da Humanidade e o Anjo de Hermes
    • Hermes e a Natureza Perfeita ou o homem e seu Anjo  
    • A Natureza Perfeita e o simbolismo alquímico da Ressurreição  
    • O Duplo celeste na escatologia iraniana

Ver online : Excertos de "O Homem e seu Anjo"