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Corbin (ICSIA): Situação do Esoterismo

segunda-feira 1º de agosto de 2022

    

tradução

Este título não faz senão enunciar o tema da investigação à qual chegaram as páginas que precedem, e estas limitam por conseguinte a generalidade. Com efeito, trata-se de analisar a situação   respectiva do esoterismo em relação   ao Islã e em relação ao cristianismo, para discernir em que medida esta situação é homóloga. Mesmo em delimitando assim o campo   da pesquisa, apercebe-se que ela necessitaria um mínimo de trabalhos prévios que ainda nos carecem. Além do mais, cada investigador está forçosamente limitado pelo campo de sua experiência e de suas observações pessoais. O que aqui se vai dizer o será portanto sobretudo a título de indicação e esboço.

Na medida mesmo que é o sufismo de Ibn Arabi   que leva aqui a colocar   a questão, esta toma essencialmente o sentido de uma interrogação concernindo o lugar, a função e a significação do sufismo como interpretação   esotérica do Islã. Tratar a fundo uma tal questão necessitaria um grande livro cuja a hora ainda não chegou: a obra de Ibn Arabi está insuficientemente explorada; muitas obras pertencendo a sua Escola ou que a prepararam, estão ainda em manuscritos; muitas conexões que assinalamos, estão ainda a precisar. Pelo menos vale a pena   precisar o sentido da questão posta, pois esta reserva tarefas bem diferentes daquelas que se propõem à história e à sociologia. Ela concerne o fenômeno do sufismo como tal, em sua essência  . Dele fazer a fenomenologia, não consiste nem a deduzi-lo de qualquer outra coisa, nem a reduzi-lo a alguma outra coisa, mas a investigar o que se mostra a si mesmo   neste fenômeno, a destacar as intenções implícitas no ato que o faz se mostrar. É preciso para isto tomá-lo como uma percepção espiritual, e a este título como um dado tão inicial e tão irredutível quanto a percepção de um som   ou de uma cor. Ora, o que o fenômeno desvela aqui, é o ato da consciência   mística se mostrando a si mesmo o sentido interno e oculto de uma revelação profética, porque a situação própria do místico é aqui de se encontrar tomado pela mensagem e uma revelação profética. A conjunção e a interpenetração entre religião mística e religião profética vai caracterizar propriamente a situação do sufismo. Ela não é concebível senão no Ahl al-Kitab, um «povo do Livro», quer dizer uma comunidade cuja religião é fundada sobre um livro revelado por um profeta, porque o Livro celeste impõe a tarefa dele compreender o verdadeiro sentido. Certamente é possível estabelecer homologias entre certos aspectos do sufismo e do budismo, por exemplo; mas estas homologias não serão do mesmo grau que aquelas que se pode obter em se referindo à situação feita aos Espirituais em uma outra comunidade dos Ahl al-Kitab.

Original

Ce titre ne fait qu’énoncer le thème de l’enquête à laquelle aboutiraient normalement les pages qui précèdent, et celles-ci en limitent pour autant la généralité. En fait, il s’agirait d’analyser la situation respective de l’ésotérisme par rapport à l’Islam et par rapport au christianisme, pour discerner dans quelle mesure cette situation est homologable. Même en délimitant ainsi le champ de la recherche, on s’aperçoit qu’elle nécessiterait un minimum de travaux préalables qui nous font encore défaut. Au surplus, chaque chercheur est forcément limité par le champ de son expérience et de ses observations personnelles. Ce que l’on va en dire ici, le sera donc surtout à titre d’indication et d’esquisse.

Dans la mesure même où c’est le soufisme d’Ibn Arabi qui entraîne ici à poser la question, celle-ci prend essentiellement le sens d’une interrogation concernant la place, la fonction et la signification du soufisme comme interprétation ésotérique de l’Islam. Traiter à fond une telle question nécessiterait un grand livre dont l’heure n’est pas encore venue : l’œuvre d’Ibn Arabi est insuffisamment explorée ; trop d’œuvres appartenant à son Ecole ou qui l’ont préparée, sont encore en manuscrits ; trop de connexions que nous avons signalées, sont encore à préciser. Du moins vaut-il la peine de préciser le sens de la question posée, car celle-ci réserve des tâches bien différentes de celles qui se proposent à l’histoire et à la sociologie. Elle concerne le phénomène du soufisme comme tel, dans son essence. En faire la phénoménologie, ne consiste ni à le déduire causalement de quelque chose d’autre, ni à le réduire à quelque chose d’autre, mais à rechercher ce qui se montre à soi-même dans ce phénomène, à dégager les intentions implicites dans l’acte qui le fait se montrer. Il faut pour cela le prendre comme une perception spirituelle, et à ce titre comme une donnée aussi initiale et aussi irréductible que la perception [68] d’un son ou d’une couleur  . Or, ce que le phénomène dévoile ici, c’est l’acte de la conscience mystique se montrant à soi-même le sens interne et caché d’une révélation prophétique, parce que la situation propre du mystique est ici de se trouver aux prises avec un message et une révélation prophétique. La conjonction et l’interpénétration entre religion mystique et religion prophétique va caractériser en propre la situation du soufisme. Elle n’est concevable que chez des Ahl al-Kitâb, un « peuple du Livre », c’est-à-dire une communauté dont la religion est fondée sur un livre révélé par un prophète, parce que le Livre céleste impose la tâche d’en comprendre le vrai sens. Il est certes possible d’établir des homologies entre certains aspects du soufisme et du bouddhisme, par exemple; mais ces homologies ne seront pas du même degré que celles que l’on peut obtenir en se référant à la situation faite aux Spirituels dans une autre communauté des Ahl al-Kitâb.


Ver online : Excertos de "A Imaginação criadora no sufismo de Ibn Arabi"