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Bréhier (HF) – Unidade social

segunda-feira 1º de agosto de 2022

    

Sucupira Filho

Se o fundador da cidade tem a sua disposição  , por golpe feliz ou graças à providência dos deuses, os caracteres precisos, pode então instituir uma cidade justa. É suficiente, para isso, regulamentar a atividade   dos cidadãos, de maneira tal que “cada um aplique sua atividade   a uma só função, para a qual está naturalmente apto  , a fim de que cada um, tendo sua própria ocupação, não seja múltiplo, mas uno”; e que se possa, desse modo, ver surgir   uma cidade una e não múltipla (República  , 423 d). Assim, seria necessária uma regulamentação da riqueza  , para localizar o artesão   em seu ofício, pois “um oleiro que enriqueça, desejará ainda voltar a seu ofício? Evidentemente, não, e converter-se-á, então, em mau oleiro” (421 d). Contudo, não é preciso que ele seja pobre  , a ponto de não poder adquirir os instrumentos indispensáveis. Disso resultam leis estranhas concernentes aos guardiães da cidade; tudo fica subordinado à necessidade   de manter entre eles perfeita união  . A maior desgraça   para a cidade consiste na divisão  . Ora, uma das grandes causas da divisão é o regime de separação   da cidade em famílias, de onde se depreende que cada um tem, individualmente, dores e prazeres. A comunidade de mulheres, de crianças e de bens é a única maneira de unir os guardiães entre si; presos à regulamentação de creches públicas, na ignorância dos laços naturais de filiação, todos, segundo a idade, terão, a respeito de todos, os sentimentos de filho   ou pai (462 a sq.; 464 d).

Como, por outra parte, a cidade já não se preocupa com a diferença   entre pessoas, mas somente com diferenças entre aptidões, ao definir   o cidadão   unicamente em relação a suas ocupações, deduz-se que não será preciso dar à mulher  , na cidade, um lugar diferente daquele do homem. Do ponto de vista social, não há, entre homens e mulheres, qualquer diferença. Haverá mulheres artesãs; outras manifestarão paixões generosas de defesa da cidade; outras, ainda, a sabedoria   dos guardiães (454 b -457 b)

Finalmente, se se consideram apenas as funções, e não os elementos   humanos que as cumprem, a sociologia platônica converte-se, simplesmente, em uma psicologia e uma moral. As funções exercidas na cidade corresponderão às faculdades   da alma   individual: à do soldado, a paixão da cólera  ; à do guardião  , a inteligência   refletida. Como cada função possui virtude por excelência, a temperança, para o artesão, a coragem  , para o soldado, e a prudência  , para o guardião, segue-se que cada faculdade possuirá a sua. E, como a justiça na cidade consiste, para cada um, em fazer o que lhe é destinado, a classe superior dirigindo, e a inferior   obedecendo, a justiça, no indivíduo  , consistirá também em manter cada parte da alma em seu papel natural. Assim, o estudo da sociedade permite ler, mais facilmente, a alma do indivíduo (453 a; 443 e sq).

Original

Si le fondateur de la cité a, à sa disposition, par chance heureuse ou grâce à la providence des dieux, les caractères qu’il faut, il peut alors instituer une cité juste. Il suffit pour cela de réglementer l’activité des citoyens de telle manière que « chacun donne ses soins à une seule fonction, celle à laquelle il est naturellement apte, afin que chacun ayant son occupation propre ne soit pas multiple mais un, et qu’il puisse naître ainsi une cité une et non multiple » (République, 423d). C’est ainsi, par exemple, qu’une réglementation de la richesse sera nécessaire pour fixer l’artisan à son métier ; « un potier devenu riche voudra t il encore s’adonner à son métier ? Évidemment non ; il devient alors un mauvais potier » (421d). Il ne faut pas davantage qu’il soit pauvre, au point de ne pas pouvoir se fournir des outils indispensables. De là résultent aussi les lois si étranges concernant les gardiens de la cité ; tout y est subordonné à la nécessité de maintenir entre eux l’union parfaite. Le plus grand malheur pour la cité, c’est la division ; or, une des plus grandes causes de division, c’est le régime de la séparation des familles, d’où il s’ensuit que chacun a ses peines et ses plaisirs à part. La communauté des femmes, des enfants et des biens, c’est la seule manière de lier entre eux les gardiens ; tenus par la réglementation des pouponnières publiques dans l’ignorance des liens naturels de filiation, tous, selon leur âge, auront à l’égard de tous, les sentiments d’un fils ou d’un père (462a sq. ; 464d).

Comme d’autre part, la cité tient compte non pas des différences entre les personnes, mais seulement des différences entre leurs aptitudes, comme on définit le citoyen uniquement dans son rapport aux occupations, il s’ensuit qu’il ne faudra pas donner à la femme dans la cité une place différente de celle de l’homme ; au point de vue social, il n’y a entre eux nulle différence ; il y aura des femmes artisans, d’autres qui ont les passions généreuses du défenseur de la cité ; d’autre la sagesse des gardiens (454b 457b).

Enfin, si l’on ne considère que les fonctions, et non les sujets qui les accomplissent, la sociologie platonicienne se trouvera être, par une transformation très simple, une psychologie et une morale. Autant il y aura de fonctions dans la cité, autant il y aura de facultés dans l’âme individuelle ; à la fonction de l’artisan correspondent les désirs élémentaires de nourriture ; à celle du soldat, la passion de la colère ; à celle du gardien, l’intelligence réfléchie. Comme chacune de ces fonctions a sa vertu ou son excellence, la tempérance pour l’artisan, le courage pour le soldat, et la prudence pour le gardien, chaque faculté aura la sienne ; et, comme la justice dans la cité consiste pour chacun à faire ce qui lui est propre, la classe supérieure ordonnant et la classe inférieure obéissant, la justice dans l’individu consiste aussi à maintenir chaque partie de l’âme dans son rôle naturel. Ainsi, l’étude de la société nous permet de lire plus facilement dans l’âme de l’individu (453a ; 443e sq.).


Ver online : Émile Bréhier