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Wei Wu Wei Arlequim

domingo 20 de março de 2022

Porque estás infeliz?
Porque 99,9 por cento
De tudo que pensas,
e de tudo que fazes,
é para ti mesmo —
E não há um.

A Arlequinada
Talvez nosso mais sério handicap é que começamos com o pé esquerdo. No final isto pode vir a ser fatal, e, temo, que geralmente é. Temos um condicionamento básico, provavelmente em alguma forma de religião cristã, da qual pouco sobra hoje em dia senão seu conteúdo ético, ou em uma das psicologias modernas, aquela de Freud  , Adler ou Jung  , ou em alguma disciplina científica, todas as quais são fundamentalmente e implacavelmente dualistas. Então a urgência manifesta, e começamos a ler.

Todo momento que esbarramos com uma afirmação ou sentimento que se ajusta com nossas noções condicionadas a adotamos, talvez com entusiasmo, ao mesmo tempo ignorando, como se não existissem, as afirmações ou sentimentos que ou não gostamos ou não compreendemos. E todo momento que relemos os Mestres ou os sutras pegamos ainda mais pedaços escolhidos, a medida que nosso próprio quebra-cabeça se constrói dentro de nós, até que tenhamos uma colcha de retalhos pessoal que corresponde a nada na Terra que poderia importar minimamente. Nem mesmo em um bilhão de kalpas poderia tal processo produzir a compreensão essencial que a urgência está nos obrigando a buscar.

Somos requeridos a fazer exatamente o oposto de tudo isso. Somos requeridos a «abandonar» absolutamente tudo que é «nosso», e que é conhecido como «ignorância» — embora a consideramos como conhecimento. É como se despir das roupas que se tornaram pessoais. Então nu, mas em uma nudez que não se reconhece a si mesma como tal, deveríamos ir aos Mestres, que nos vestirão com as vestes do conhecimento ou compreensão que realmente necessitamos. É seu quebra-cabeça que devemos completar, não o «nosso», pois sua «doutrina», o que nos tem a revelar, é um todo e indivisível, e as afirmações e sentimentos que não compreendemos de pronto, em lugar daqueles que pensamos que fazemos, são aqueles que importam. Um por um a medida que re-lemos, e finalmente de pronto, seu significado se torna manifesto, e devemos finalmente compreender o que os Mestres têm a nos dizer. Então, e só então, podemos adquirir sua compreensão, que é o preenchimento da urgência.

Como pequenas abelhas ocupadas, reunindo mel aqui e aí, e o adicionando a seu estoque em sua colmeia, estamos perdendo nosso tempo, e pior, pois estamos construindo essa persona cuja existência ilusória se posiciona entre nossos eus fenomenais e a verdade do que somos, e que é o que a urgência em nós está buscando. Esse «abandono» de tudo que é «nosso» sempre foi insistido pelos Mestres, mas optamos por ignorá-lo, precisamente porque essa própria noção de «eu» que está no centro do que temos de «abandonar» procura assumir a operação, e geralmente sucede em assim fazer, por conseguinte frustrando desde o início qualquer esperança de preencher a urgência. Há alguma surpresa que tão raramente cheguemos a algum lugar?

É interessante notar que na recentemente descoberta coleção de ditos de Jesus há um no qual ele formalmente adjura Seus discípulo para se desfazerem de todas as suas «vestes». É compreensível que tal afirmação deveria ter sido omitida por aqueles antigos compiladores que não tinham a menor ideia do que tal requerimento poderia significar. Mas para nós deveria um lugar comum. Já em Chuang Tse encontramos a estória do velho monge que, em desespero por conhecer a iluminação antes de morrer, foi ver Lao Tse. Em chegando, Lao Tse veio encontrá-lo, o deu as boas vindas, mas lhe disse para deixar seus seguidores e sua bagagem no portão, pois de outro modo não seria admitido. O velho homem não tinha seguidores, e nenhuma bagagem, mas compreendeu, entrou e descobriu sua plenitude.