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Eckhart (VME:53-54) – Ditos (1-7)

quinta-feira 13 de outubro de 2022

      

1. Mestre Eckhart   diz em um sermão: a obra de Deus   em uma alma   divinamente amante, que ele encontra nua, pura e separada para que possa se engravidar   espiritualmente nela, lhe dá mais alegria   que todas as obras que jamais tenha operado em todas as criaturas, e é uma obra muito mais nobre que quando criou todas as coisas do nada.

Lhe perguntamos então o que isso queria dizer, que esta obra dê tanta alegria a Deus. Ele disse então que Deus não dotou nenhuma criatura de uma capacidade tão vasta quanto a alma na qual Deus possa florescer com sua potência e o fundo de seu ser também plenamente quanto na obra pela qual ele se engravida espiritualmente na alma.

Lhe demandamos então o que é o engravidamento de Deus. Ele disse então que o engravidamento de Deus na alma nada é de outro que o novo saber e o novo modo pelos quais Deus se revela à alma.

Lhe demandamos então se a mais alta beatitude   da alma reside na obra pela qual Deus se engravida espiritualmente nela. Ele disse então: isso só é verdadeiro na medida que Deus tem maior alegria nesta obra que em todas as obras que jamais tenha operado nas criaturas, no céu e sobre a terra  , enquanto a alma é mais feliz das obras pelas quais, em retorno, ela se engravida dele. Pois quando Deus nela engravida, isso não a torna completamente bem-aventurada, mas o que a torna bem-aventurada, é de seguir com amor e louvor o saber no qual ela é engravidada retornando à origem de onde este saber nasceu, e em sua origem comum ele se mantém a isto que é a ele e se desapega disto que é a ela, e aí ela não é bem-aventurada disto que é a ela, mas bem-aventurada disto que é a ele.


2. Mestre Eckhart diz: o homem   que tem amor divino, palavras divinas e fé integral pode, se o quer, receber   todos os dias o corpo de Deus da mão do padre  .
3. É uma questão do que Deus está fazendo no céu. Um santo respondeu que ele coroa sua própria obra, pois todas as obras para as quais Deus coroa os santos, ele operou nelas. Mestre Eckhart diz: Me perguntam o que Deus está fazendo no céu. Isto é o que eu digo: ele deu à luz seu Filho eternamente e o dá à luz agora e o dará à luz para sempre, e o Pai assim dá à luz em toda alma boa. Abençoado, muito abençoado é o homem que deve assim dar à luz o Pai celestial em sua alma. O que ela pode oferecer   de bom grado a ele aqui, ela terá contentamento por ele na vida eterna. Por isso Deus criou a alma, para nela dar à luz seu Filho unigênito. Quando este nascimento ocorreu espiritualmente em Maria, deu mais alegria a Deus do que quando ele nasceu corporalmente dela. Quando este nascimento ocorre ainda hoje em uma alma boa e amorosa, dá a Deus mais alegria do que quando criou o céu e a terra.
4. Quem está em sua morada   em todos os lugares é digno de Deus. Para quem permanece um em todos os momentos, Deus está presente. Em quem todas as criaturas estão em silêncio, Deus dá à luz seu único Filho.
5. Mestre Eckhart diz: A Sagrada Escritura constantemente chama o homem a ser livre dele mesmo. Pois tão livre quanto és de ti mesmo, tanto és mestre de ti, e tanto ti mesmo és mestre de ti, tanto te pertences, e tanto te pertences, tanto Deus te pertence, e tudo o que Deus tenha jamais criado. Em verdade te digo, tão verdadeiro quanto Deus é Deus e sou   homem, se fosses tão livre de ti mesmo quanto és livre do anjo   mais alto, o anjo mais alto te pertenceria tanto quanto te pertences a ti mesmo. Neste exercício o homem torna-se mestre dele mesmo.
6. Mestre Eckhart diz: A graça vem somente do Espírito Santo. Ela carrega o Espírito Santo nas costas. A graça não é algo que permanece, ela está toda em um devir. Ela só pode fluir do coração   de Deus, sem nenhum intermediário. A graça só faz refletir   a Imagem e portar em Deus. Deus e o fundo da alma e a graça não fazem senão um  .

7. Pergunta-se se Deus derrama sua graça em um poder da alma ou em seu ser, porque nenhuma criatura pode entrar no ser da alma. A resposta   para isso é que a graça pertence apenas à alma e nada mais, e quando não é possuída pela alma, a graça não é graça nela mesma. Ela não tem ser, porque não é uma criatura real, é uma criatural. Se a graça deve ser graça, é preciso que o ser   da alma seja seu ser substancial. E se Deus derramasse a graça em um poder da alma, somente o poder dela receberia a obra. Não é assim: Deus derrama graça no ser da alma e o ser faz sua obra com a graça em todos os poderes.


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