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Izutsu (ST:II.5) – a mente

terça-feira 6 de setembro de 2022

    

tradução

Acho apropriado introduzir neste ponto um par de termos-chave que parecem ter desempenhado um papel decisivo na formação das principais linhas de pensamento   de Chuang-tzu   sobre a natureza da mente  : tso ch’ih lit. ’assentar-cavalgar’ e tso wang lit. “assentar-olvidar”.

A primeira delas, tso ch’ih, refere-se à situação   em que a mente de uma pessoa   comum se encontra, em constante movimento  , indo para cá e, no momento seguinte, para lá, em resposta   a uma miríade de impressões vindas de fora, para atrair sua atenção   e despertar   sua curiosidade, nunca cessando, para parar e descansar por um momento, mesmo quando o corpo está quieto sentado. O corpo pode estar parado, mas a mente está circulando. É a mente humana em tal estado   que a palavra hsin (Mente) designa neste contexto. É exatamente o oposto da mente em um estado de concentração calma   e pacífica.

É fácil entender conceitualmente essa oposição dos dois   estados da mente, «circulando a galope» e «assentada quieta e vazia». Mas é extremamente difícil para o homem   comum libertar-se realmente do domínio   do primeiro e realizar em si o segundo. Mas, na verdade, ensina Chuang-tzu, o próprio homem é responsável por permitir que a Mente exerça tal domínio tirânico sobre ele, pois a tirania da Mente nada mais é do que a tirania do ’ego’ — aquele falso ’ego’ que, como vimos acima, ele cria para si mesmo   como o centro   ontológico de sua personalidade. Chuang-tzu usa uma expressão   característica para esta situação básica do homem: shih hsin ou “fazer da Mente seu próprio mestre”.

O ‘ego’, assim entendido, é a própria criação do homem. Mas o homem se apega a ele, como se fosse algo objetivo, até mesmo absoluto. Ele nunca pode imaginar-se existindo sem ele e, portanto, não pode abandoná-lo por um momento; assim ele faz de sua Mente seu venerado “professor”.

Essa Mente, em um nível mais intelectual, aparece como Razão, a faculdade de pensar e raciocinar discursivamente. Às vezes, Chuang-tzu chama ela ch’eng hsin ou «mente completa». A “mente completa” significa a mente que assumiu uma forma definitivamente fixa, a mente em estado de coagulação, por assim dizer. É a Razão por cuja orientação — aqui novamente encontramos a expressão: ’fazer da Mente o professor’ — o homem discrimina entre as coisas e as julga, dizendo ’isto está certo’ e ’isto está errado’, etc., e vai caindo cada vez mais fundo no pântano sem limites de absurdos.

Todo mundo segue sua própria “mente completa” e a venera como seu próprio professor. A este respeito, poderíamos dizer que a ninguém falta um professor. Aqueles que conhecem a realidade dos fenômenos em constante mudança   e aceitam (esta lei cósmica da Transmutação) como seu padrão (de julgamento  ) não são as únicas pessoas que têm seus mestres. (No sentido acima mencionado) até um idiota tem seu próprio professor. É impossível para um homem insistir na distinção entre “certo” e “errado” sem ter uma “mente completa”. Isto é tão impossível quanto um homem partindo (de um país do norte  ) hoje e chegando ao país de Yueh (no limite sul da China) ontem!

Assim, vemos que todos os pseudo problemas relativos ao “certo” e “errado” ou “bom” e “mau”, cuja verdadeira natureza foi revelada no capítulo anterior, surgem do exercício de sua própria “mente completa” pelo homem. A Mente, de acordo com Chuang-tzu, é a fonte   e origem de todas as loucuras humanas.

Essa ideia da Mente é compartilhada por Lao-tzu  , embora sua abordagem seja um pouco diferente da de Chuang-tzu. Que a ideia em si é basicamente a mesma será imediatamente percebida se lermos com atenção, por exemplo, o cap. XLIX do Tao Te Ching. Curiosamente, Lao-tzu nesta passagem usa o termo ch’ang hsin, ou seja, «mente constante ou imutável  ». O termo nos lembra do ch’eng hsin de Chaung-tzu ‘mente completa’. Por ch’ang hsin, Lao-tzu designa um estado mental rigidamente fixo, privado de toda flexibilidade natural, ou, como ele gosta de dizer, o estado mental que perdeu a “maleabilidade” natural de uma criança  . Como mostra a passagem citada, essa rigidez antinatural da mente é tipicamente manifestada na atividade   distintiva e discriminadora da mente que percebe em toda parte ’bom’ e ’ruim’, ’certo’ e ’errado’ e considera estas categorias   como algo objetivo e absoluto.

Para Lao-tzu, não é simplesmente uma questão de se tornar parcial, preconceituoso e intolerante. Em sua opinião  , o exercício desta função da mente afeta o próprio âmago da existência humana. Trata-se da crise existencial do homem. O homem está em uma situação lamentável porque ele é – quase por natureza, pode-se dizer – feito de tal forma que direciona a atividade   de sua mente para distinguir   e discriminar as coisas umas das outras.

O “homem sagrado  ” não tem sua própria mente rigidamente fixa. Ele faz da mente de todas as pessoas a sua mente. (Seu princípio é representado pela máxima): ‘Aqueles que são bons eu trato como bons. Mas mesmo aqueles que não são bons eu também trato como bons. (Tal atitude eu tomo) porque a natureza original do homem é a bondade. Aqueles que são fiéis eu trato como fiéis. Mas mesmo aqueles que não são fiéis eu também trato como fiéis. (Tal atitude eu tomo) porque a natureza original do homem é a fidelidade.’
 
Assim, o “homem sagrado  ”, enquanto vive neste mundo, mantém sua mente aberta e “caotiza” sua própria mente em relação a todos.
 
Os homens comuns forçam os olhos e os ouvidos (para distinguir as coisas). O ‘homem sagrado’, ao contrário, mantém seus olhos e ouvidos (livres) como uma criança.

Original

I think it proper to introduce at this point a pair of key terms which seem to have played a decisive role in the formation of the main lines of thought of Chuang-tzu concerning the nature of the mind: tso ch’ih lit. ‘sitting-galloping’ and tso wang lit. ‘sitting-forgetting’.

The first of them, tso ch’ih, refers to the situation in which the mind of an ordinary person finds itself, in constant movement, going this way at this moment and that way at the next, in response to myriad impressions coming from outside to attract its attention and to rouse its curiosity, never ceasing, to stop and rest for a moment, even when the body is quietly seated. The body may be sitting still but the mind is running around. It is the human mind in such a state that the word hsin (Mind) designates in this context. It is the exact opposite of the mind in a state of calm peaceful concentration.

It is easy to understand conceptually this opposition of the two states of the mind, one ‘galloping around’ and the other ‘sitting still and void’. But it is extremely difficult for ordinary men to free themselves actually from the dominance of the former and to realize in themselves the latter. But in truth, Chuang-tzu teaches, man himself is responsible for allowing the Mind to exercise such a tyrannical sway over him, for the tyranny of the Mind is nothing else than the tyranny of the ‘ego’ — that false ‘ego’ which, as we have seen above, he creates for himself as the ontological center of his personality. Chuang-tzu uses a characteristic expression for this basic situation of man: shih hsin or ‘making the Mind one’s own teacher’.

The ‘ego’, thus understood, is man’s own creation. But man clings to it, as if it were something objective, even absolute. He can never imagine himself existing without it, and so he cannot abandon it for a moment; thus he makes out of his Mind his venerated ‘teacher’.

This Mind, on a more intellectual level, appears as Reason, the faculty of discursive thinking and reasoning. Sometimes Chuang-tzu calls it ch’eng hsin or ‘finished mind’. The ‘finished mind’ means the mind which has taken on a definitely fixed form, the mind in a state of coagulation, so to speak. It is the Reason by whose guidance — here again we come across the expression: ‘making the Mind the teacher’ — man discriminates between things and passes judgments on them, saying ‘this is right’ and ‘that is wrong’, etc., and goes   on falling ever deeper into the limitless swamp of absurdities.

Everybody follows his own ‘finished mind’ and venerates it as his own teacher. In this respect we might say no one lacks a teacher. Those who know the reality of the unceasingly changing phenomena and accept (this cosmic law of Transmutation) as their standard (of judgment) are not the only people who have their teachers. (In the above-mentioned sense  ) even an idiot has his own teacher. It is impossible for a man to insist on the distinction between ‘right’ and ‘wrong’ without having a ‘finished mind’. This is as impossible as a man departing (from a northern country) to-day and arriving in the country of Yueh (in the southern limit of China) yesterday!

Thus we see that all the pseudo-problems concerning the ‘right’ and ‘wrong’ or ‘good’ and ‘bad’, whose real nature was disclosed in the preceding chapter, arise from man’s exercising his own ‘finished mind’. The Mind, according to Chuang-tzu, is the source and origin of all human follies.

This idea   of the Mind is shared by Lao-tzu, although his approach is a little different from Chuang-tzu’s. That the idea itself is basically the same will immediately be perceived if one reads carefully, for example, Ch. XLIX of the Tao Te Ching  . Interestingly enough, Lao-tzu in this passage uses the term ch’ang hsin, i.e., ‘constant or unchangeable mind’. The term reminds us of Chaung-tzu’s ch’eng hsin ‘finished mind’. By ch’ang hsin Lao-tzu designates a rigidly fixed state of mind deprived of all natural flexibility, or as he likes to say, the state of the mind that has lost the natural ‘softness’ of an infant. As the passage quoted shows, this unnatural rigidity of the mind is typically manifested in the distinguishing and discriminating activity of the mind which perceives everywhere ‘good’ and ‘bad’, ‘right’ and ‘wrong’ and regards these categories as something objective and absolute.

For Lao-tzu, it is not simply a matter of one’s becoming partial, prejudiced, and bigoted. In his view the exercise of this function of the mind affects the very core of human existence. It is a question of the existential crisis of man. Man stands in a woeful predicament because he is — almost by nature, one would say — so made that he directs the activity of his mind toward distinguishing and discriminating things from one another.

The ‘sacred man’ has no rigidly fixed mind of his own. He makes the minds of all people his mind. (His principle is represented by the dictum): ‘Those who are good I treat as good. But even those who are not good I also treat as good. (Such an attitude I take) because the original nature of man is goodness. Those who are faithful I treat as faithful. But even those who are not faithful I also treat as faithful. (Such an attitude I take) because the original nature of man is faithfulness.’
 
Thus the ‘sacred man’, while he lives in this world, keeps his mind wide open and ‘chaotifies’ his own mind toward all.
 
The ordinary men strain their eyes and ears (in order to distinguish between things). The ‘sacred man’, on the contrary, keeps his eyes and ears (free) like an infant.


Ver online : EXCERTOS DA OBRA DE TOSHIHIKO IZUTSU