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Fernandes (FC:35) – Filosofia oriental como Sabedoria compassiva

sexta-feira 23 de setembro de 2022

    

Se a Iluminação   do Buda   foi sua Grande Sabedoria  , o primeiro resultado disso foi sua Mahakaruna, ou Grande Compaixão  .

Como aconteceu, séculos mais tarde, entre os cristãos, estamos, aqui, na origem da Filosofia oriental, no século VI A.C., não como «amizade  » à Sabedoria, mas como Sabedoria perturbada pela Compaixão. Sendo a Sabedoria, por definição, imperturbável, sua perturbação   pela Compaixão — como, no cristianismo, pelo Amor — é um misterium tremendum. Seu ensino, a missão «professoral» do Mestre, origina-se mil «infernos» abaixo das considerações políticas e moralistas: a compaixão (Karuna) é o que floresce na sabedoria (Prajna  , Sambodhi). O móvel não é o dever   (o Sollen do nosso Kant  ), nem o «amor» como devoção (bhakti  ), nem o «ódio» como centelha produzida pelas lâminas de duas espadas, mas algo que está além do «amor» e do «ódio», infinitamente distante do «dever», algo maior mesmo que o próprio Criador do Mundo. A Filosofia só nasce de equívoco  , de quid   pro quo, no Ocidente, onde o Sol   se põe: Philia? Eros? Agape? Charitas? Ora, a Filosofia, apesar de seu nome, não é uma «atitude» humana para com a Sabedoria, mas a flor   da compreensão total do sofrimento  . Não se pode olhar e ver o que «é» se estamos interessados, por uma «razão   prática», no que «deve ser».

Enquanto, no Sábio  , a Filosofia é compaixão, no discípulo   ela é confiança   gerada pelo entendimento (saddha), algo tão distante da «fé» religiosa, quanto da desconfiança hipócrita do ceticismo: «Você deve investigar minhas palavras», diz o Sábio, «não por causa   de reverência a mim  ». Do logos   greco-cristão, estamos agora em visita ao Dhamma  , ontologicamente anterior   a todos os Budas e proclamado como verdade por todos eles. Todas as suas inúmeras acepções derivam de dhr, «princípio», «suporte», «esteio», ou seja, todas as coisas que nos sustentam na nossa vida quotidiana. [FernandesFC  ]


Ver online : Sergio L. de C. Fernandes