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Izutsu (ST:II.5) – purificação

quarta-feira 7 de setembro de 2022

    

A purificação da Mente   constitui o ponto fulcral no desenvolvimento do homem   do estado   de homem “comum” ao de Homem Perfeito  . Um homem “comum” nunca pode se tornar um Homem Perfeito a menos que passe por este ponto de virada. O significado desta experiência ficará claro se nos lembrarmos do que vimos acima a respeito da expressão   característica de Chuang-tzu  : “fazer da Mente   seu próprio mestre”. O homem naturalmente tende a agarrar-se a sua Mente — e Razão — e pensa e age de acordo om   seus ditames. O que quer que a Mente lhe diga para acreditar é absolutamente verdade, e tudo o que ela ordena que ele faça é absolutamente bom. Em outras palavras, o homem venera seu próprio “ego” como seu “mestre”.

À luz desta observação  , a “purificação da Mente” significa precisamente que o homem deve abolir esse hábito   de “veneração” da Mente, que ele deve rejeitar seu próprio “ego”. E isso marcará o primeiro passo para ser transformado em um Homem Perfeito.

Em uma conversa imaginária que Chuang-tzu fabrica para endossar sua tese, Confúcio – que aqui é ironicamente transformado em sábio   tao  ísta – ensina seu discípulo   Yen Hui como proceder a fim de suceder em purificar a Mente.

Neste diálogo  , Yen Hui é representado como um discípulo zeloso que lutou desesperadamente para saber o caminho   certo para se tornar um Homem Perfeito, mas em vão. Como último recurso, ele se volta para Confúcio e humildemente pede instruções. O que segue é a passagem.

Yen Hui: Não posso prosseguir adiante. Posso me aventurar a perguntar que me digas a maneira correta?
 
Confúcio: Jejues, primeiro. Então eu te ensinarei. Achas fácil (ver a Verdade) enquanto manténs tua Mente? Se alguém acha fácil, o vasto e brilhante Céu não o aprovará.

A palavra traduzida aqui como ‘jejum  ’, chai significa o ato de ‘jejuar’ que o homem pratica no período imediatamente anterior   às cerimônias de sacrifício para se colocar no estado de ‘pureza  ’ religiosa. No presente   contexto, Confúcio usa a palavra não neste sentido religioso original, mas figurativamente no sentido de “jejum da Mente”, isto é, a “purificação da Mente”. Yen Hui, no entanto, não entende isso e toma a palavra em seu sentido usual. Ele imagina que Confúcio quer dizer com a palavra a observância do jejum ritual que diz respeito a comer e beber. Daí a seguinte resposta   ridícula que ele dá ao Mestre:

Yen Hui: Minha família é pobre  , tanto que eu nem bebi bebida alcoólica nem comi alho e cebola nos últimos meses. Isto não pode ser considerado jejum?
 
Confúcio: O que estás falando é o jejum como um processo ritualístico. Este não é o jejum da Mente.
 
Yen Hui: Posso perguntar o que quer dizer com jejum da mente?
 
Confúcio: Tragas toda a atividade   da Mente a um ponto de união  . Não escutes com teus ouvidos, mas escutes com a Mente (assim concentrada). (Então continue e) pares de ouvir   com a Mente; ouças com o Espírito   (chi  ). O ouvido (ou, mais geralmente, a percepção sensorial) está confinado à escuta (ou seja, cada sentido capta apenas seus objetos próprios de maneira física).
 
A Mente está confinada a (formar conceitos) correspondendo a seus objetos externos. O Espírito, no entanto, é ele próprio «vazio  » (não tendo objetos próprios definidos) e continua se transformando sem limites de acordo com a (Transmutação de) coisas (como elas vêm e vão). O Caminho em sua totalidade vem apenas para o ‘vazio’ (ou seja, a Mente ‘sem ego’). Tornar a Mente “vazia” (dessa forma) é o que quero dizer com “jejum da Mente”.

Ver online : EXCERTOS DA OBRA DE TOSHIHIKO IZUTSU