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Virtudes Vícios Paixões

domingo 20 de março de 2022

    

As virtudes pertencem apenas à natureza do homem  , e é desviando-se das virtudes que este introduz nele as paixões, se bem que estas últimas devem primeiramente ser definidas negativamente como ausência  , a falta das virtudes que lhes correspondem e que constituem a semelhança   de Deus   no homem. S. Doroteo de Gaza   explica assim: "Banimos as virtudes e introduziu-se em seu lugar as paixões (...). É naturalmente que possuímos as virtudes que nos foram dadas por Deus. Criando o homem, Deus os pôs nele segundo a palavra  : "Façamos o homem a nossa imagem e a nossa semelhança" ( Gen 1, 26 ) (...); "a nossa semelhança", quer dizer segundo a virtude   (...). Deus nos deu portanto as virtudes com a natureza. Mas as paixões não são naturais: não têm nem ser, nem substância, parecem às trevas que não subsistem por elas mesmas, mas (...) só existem pela privação   da luz. É se afastando das virtudes pelo amor do prazer que a alma   provocou o nascimento das paixões, depois as firmou nela." S. João Damasceno ensina da mesma maneira: "O mal nada mais é que o afastamento   do bem assim como a treva é ausência da luz. Isto significa que se nós, homens, permanecemos em nosso estado   natural, estamos então na virtude, mas se distanciamo-nos do estado natural, chegamos a um estado contra natureza (para physin  ), quer dizer aos vícios."

As virtudes constituem, já vimos, no funcionamento   segundo sua natureza, ou dito de outra forma, segundo a finalidade que Deus as incumbiu na criação da natureza humana, faculdades ou tendências do homem. Elas correspondem ao uso e ao sentido normal e razoável ( logikos   ) destas faculdades, que são de orientar e elevar o homem para Deus, logikos, significando em princípio, para os Padres, conformidade ao verbo - Logos  , à imagem e à semelhança de quem o homem foi criado. As paixões são constituídas ao contrário pelo funcionamento contra a natureza (quer dizer desviado de sua finalidade natural e normal, ou seja de Deus), das faculdades da alma e dos órgãos do corpo, por seu desvio, sua perversão, seu mal uso ( parakresis ). S. João Damasceno define assim as paixões como um "desvio voluntário   do segundo-a-natureza ao contra-a-natureza". S. Nicethas Stethatos   considera também que as "paixões da alma (são) suscitadas pelas potências que vão contra sua natureza". Climacus   - S. João Climaco escreve no mesmo sentido: "Somos nós que modificamos em paixões as qualidades constitutivas de nossa natureza". Abade Thalassius   - S. Thalassios fala também da transformação   das virtudes em vícios. E Basilio - S. Basílio, o Grande, explica: "Recebemos de Deus a tendência natural a fazer aquilo que Ele comanda (...). É usando convenientemente e lealmente estas forças que vivemos santamente na arete - virtude; as desviando de seu fim, que somos ao contrário levados para o mal. Tal é, com efeito, a definição de kakia   - vício: o uso mal e contrário aos mandamentos do Senhor, das faculdades que Deus nos deu para o bem, e tal, por consequência, a definição da virtude que Deus exige de nós: o uso consciencioso destas faculdades segundo a ordem do Senhor ". Gregorio Palamas - S. Gregório Palamas ensina da mesma forma que "é o mal uso das potências da alma que engendra as abomináveis paixões". E Maximo o Confessor - S. Máximo, que afirma frequentemente o caráter contra natureza das paixões, precisa no mesmo sentido: "Nada daquilo que é não é mal, mas somente o mal uso, decorrente da negligência de nosso espírito   a se cultivar segundo a natureza"; "o pecado   em todas as coisas, é o mal uso".; é à medida onde usamos mal as potências de nossa alma: thymos   - desejante, epithymia   - irascível e logistikon   - razoável, que os vícios se instalam nela". Lá também um ensinamento de Evagrio  . Aquele que constata que os vícios destroem "as atividades da alma", explica mais longamente: "Se toda malícia   é engendrada pela inteligência  , pela potência irascível, e pela potência desejante, e que destas potências nos seja possível usar bem ou mal, é evidente   então que é pelo uso contra a natureza destas partes (da alma) que os males nos sucedem. E se assim é, não há nada que tenha sido criado por Deus que seja mal". Origenes   constata igualmente: "Todos os movimentos da alma, Deus, o Autor de todas as coisas os criou para o bem. Mas na prática, acontece que os bons objetos nos conduzem ao pecado, porque nos os usamos mal". É assim que Maximo o Confessor - S. Máximo faz notar que basta ao diabo   "que concentrou o combate   contra a virtude e o conhecimento", "revirar a alma pelas potências que estão nela", incitando o homem a perverter seu uso, a inverter o sentido de seu exercício.