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Caeiro (Arete:109-110) – apatheia - impassibilidade

domingo 13 de fevereiro de 2022

A aparente anulação da variância (ποικιλία [poikilia]) que caracteriza a situação que mais facilmente é retratada pela perícia da reprodução (μιμητική [mimetike]) pode criar a ilusão de apatia, e a ilusão de apatia cria a ilusão de que se está num domínio do sentido (λόγος [logos]), isto é, que se está no verdadeiro ponto de vista que não se deixa afetar pelos pathos (πάθη [pathe]), mas antes num ponto de vista que é educado (πεπαιδευμένος [pepaideumenos]). Este é o risco que corre a enunciação filosófica, na medida em que aparentemente se põe fora de toda e qualquer afetação e numa posição de domínio sobre aquilo que acontece. Uma enunciação filosófica pode ser acolhida e compreendida como se transmitisse a verdade da própria coisa (αυτό τὸ πρᾶγμα [auto to pragma]) e, no entanto, não presentificar o verdadeiro sentido (λόγος [logos]) e carácter (ἦθος [êthos]) do que está a ser dito. Criando a ilusão de um verdadeiro acompanhamento daquilo a que dá expressão, provoca, antes, esquecimento na alma daqueles que aprenderam «este ensinamento» [Fedro  , 274e4] «por descuido da memória» [Fedro  , 272a2-3]. Através da confiança no que está escrito, lembram-se de uma forma exterior através dos caracteres exteriores mas não a partir do interior lembrando-se eles próprios através de si mesmos [Fedro  , 272a3-4]. A possibilidade de fixar as diversas situações em que nos encontramos em palavras [Fedro  , 274e4 e 275a4] não é de modo nenhum um remédio [109] para a memória, mas para a lembrança [1], trata-se de uma «aparência de saber» [Fedro  , 275a6] e não de uma verdadeira abertura para o conteúdo dos enunciados [2], estando o perigo, por conseguinte, na ilusão que se cria de que se tem um verdadeiro domínio sobre as coisas elas mesmas. [CaeiroArete:109-110]


[1φάρμακον ὑπομνήσεως [pharmakon hypomneseos] (Fedro, 275a5) e não μνήμης [mnemes] (ibid.).

[2Ibid. Cf. Wieland: «Gemass einer von Sokrates vorgetragenen Überlegung kann ein Text an das erinnern, wovon das Geschriebene handelt. Das ist aber nur möglich, wo er auf einen bereits Wissenden trifft, der nur einer Erinnerungshilfe bedarf.» Wieland cita em nota de rodapé a seguinte passagem: «τὸν εἰδότα ὑπομνήσαι περὶ ὧν ἂν ἦ τὰ γεγραμμένα» (Fedro, 275a). Isto é, pode acontecer que o escrito «als solches derartiges Wissen weder hervorbringt noch mitteilt», no máximo pode reactivar aquele saber «das bereits latent vorhanden ist», enquanto «blosser Anlass für die Erinnerung» (p. 18).