Página inicial > Arte e Simbolismo > Máscara de Dioniso

Máscara de Dioniso

domingo 20 de março de 2022

    

Excertos de René-André Lombard, "L’Enfant de la nuit d’orage". Trad. e notas de Antonio Carneiro
Nós   o temos : Em Delfos  , centro   de religiosidade primordial, em Lerné, em Argos, é Dioniso   que foi MORTO POR PERSEU.

Indicação fundamental e perfeitamente clara : Dioniso e a Górgona representando a mesma entidade.

Compreende-se, desde logo, que se suspenda Cabeças de Dioniso no ar.

Compreende-se que Dioniso seja antes de tudo Máscara - UMA MÁSCARA.

Compreende-se que essa máscara de Górgona, sobre as taças e os vasos seja continuamente ligada às outras representações de Dioniso, como testemunham as cerâmicas de Vulci.

Poder lunar dirigindo a Atmosfera, a Tempestade, os Líquidos vitais, e mais tarde o Vinho, bebida de exaltação, desde quando foi inventado.

Dioniso é, entre outros aspectos, a CABEÇA QUE SE METAFORMOSEOU, nos traços e na forma de seu rosto, assim como em seu conteúdo «mental  ». Esta cabeça mutante pode deixar as margens do bom senso que impõe a vida corrente, passar de um impulso em Tailleurs [1], entrar em comunicação com a vibração secreta das coisas.

Muito tempo  , mais tarde, entre os Celtas por exemplo, uma cabeça ritualmente cortada terá poder de adivinhação, espelhando esta Cabeça-Lua   sem corpo, soberana das viagens da alma   do outro lado do real   aparente.

A máscara de Górgona dionisíaca é o que pode, com ou sem a ajuda   da Hera   [2], a planta   psicotrópica, acionar o delírio, o fluxo de imagens e o foguetório de energia incomum que arrumamos no capítulo da loucura [3].

Poder temível, todo o mito   de Dioniso está impregnado disso, que não é senão «sound and fury» [4].

Existe tema mais «dramático» nas fontes do Teatro  ?



[1NT: “Tailleurs” a tradução linear é Talhadores, traz dificuldade para dar sentido, a alternativa é aludir aos Talhadores de Pedra citado em O Templo Herodiano:

“Em XIX a.C Herodes iniciou a reconstrução do Templo com forte oposição dos judeus, buscando resolver a situação “fez que mil sacerdotes fossem treinados como talhadores de pedra, carpinteiros e decoradores, certificando-se de que nenhuma mão profana tocaria o local sagrado” (Dicionário Wycliff,2007, p.1898) (O TEMPLO HERODIANO)

[2NT: Hera tradução de “Lierre” em francês no texto, cujo nome científico é “Hedera helix”, em inglês é “Ivy” e em espanhol “hiedra común”. Em “al Andalus” era uma planta muito apreciada e alguns poetas lhe dedicaram alguns versos "Dir-se-ia que suas folhas, em seu formoso verdor, estão feitas de esmeraldas, as mais formosas e brilhantes".(Ibn al Jarraz).
É o nome da deusa Hera, podendo ser representada portando em sua mão uma romã, símbolo da fertilidade, sangue e morte; e um substituto para as cápsulas da papoula do ópio do gênero “papaver”.

[3MEN, MON, MOON, MIN ; Lua Mania, a exaltação lunar: a loucura, o «coup de lune», maníaco = lunático. Mainad, a lunar a possuída de Dioniso, a sacerdotisa em delírio. MENT, o mês, o cálculo, o mental. A « mental case »: um louco. E Man, uma... Cabeça pensante, um homem.

[4NT: «sound and fury » em inglês no original, tradução: «som e fúria». O escritor William Faulkner escreveu uma novela (The Sound and the Fury) com esse título que atribuem ter sido tomado do ato 5, cena 5 da peça Macbeth escrita por Shakespeare. Existe uma possibilidade do autor ter usado esta expressão em inglês para aludir a algo relacionado.

And then is heard no more: it is a tale Told by an idiot, full of sound and fury, Signifying nothing.
E então não escutou mais: é um conto dito por um idiota, cheio de som e fúria, Nada significando.