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Meditação sobre a Morte

domingo 20 de março de 2022

    

A Epopeia de Gilgamesh como meditação   sobre a morte.
«A epopeia de Gilgamesh é uma meditação sobre a morte, em forma de tragédia» (Heidel); mas o que há de trágico na epopeia oriental é o mais ponderoso ingrediente da religião grega. Desde Homero  , «mortais  » e «imortais» designam, por outras palavras, «homens» e «deuses», e, quanto às relações entre uns e outros, baseadas no binário vida-morte, supõe-se, com elevado índice de probabilidade (Guthrie  , 1954, cap. III), que a religião sempre oscilou entre extremos opostos  : resignaram-se, os homens, diante da intransponibilidade do abismo   que os aparta dos deuses, ou tentarem superá-lo, a todo o custo, participando, de algum modo, da imortalidade. Como a epopeia de Gilgamesh, a componente olímpica da religião grega e, na sequência desta, a poesia gnômica e didática, a mensagem ético-religiosa de quase todos, se não de todos, os poetas líricos e trágicos, até o fim da época clássica, exigem que jamais se confunda o humano com o divino  , só aquele exposto ao inexorável destino da morte. No outro extremo, agrupam-se os chamados «cultos mistéricos», com sua manifesta negação da negação entoada pela religiosidade olímpica com o responso coral de todos os gêneros poéticos. Falando de «negação da negação», não pretendemos, de modo nenhum, nem que se veja o desenvolvimento da religião grega como um processo   dialéctico — antes nos parece que a oposição seja de complementaridade —, nem que os «mistérios», com sua tendência para ignorar o abismo que separa deuses e homens, historicamente venham após a olímpica imposição da abismal intransponibilidade das barreiras da morte. Pelo contrário, o mais certo, em termos do eventual historiável, é a antecedência da «posição  » negada por Homero e os demais poetas que lhe seguiram no encalço. E não excluímos a possibilidade para a qual acenamos em transcurso: de que a oposição seja só a aparência de uma complementaridade que ocorre a cada passo, em toda a história da religião grega. Afinal, não foi Homero quem deu início àquela «meditação sobre a morte, em forma de tragédia»; quando muito, digamos que a transplantou em solo grego. Mas, decidir entre complementaridade e dialéctica é o que, por enquanto, menos importa. Acabamos de averiguar que, em determinada perspectiva, nem uma viagem aos «limites da terra  » alteraria o destino de Faéton.