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de Castro: campo e magnetismo

sábado 5 de fevereiro de 2022

    

O magnetismo ressurge no século XVIII, a partir de suas origens de inspiração   ocultista, ganhando presença   nos meios intelectuais, pelo gosto   desenfreado, àquela época, pelo maravilhoso, pelo que ainda não havia sido explicado pela ciência, em elaboração. Merecendo destaque a figura de Mesmer, um de seus principais expoentes.

Entre as ideias que sustentava o magnetismo, havia uma em consonância com, e possivelmente na origem   dos, fluidos newtonianos, segundo a qual a natureza mantém o equilíbrio entre as diversas partes de todos os corpos, pela expansão de um fluido por toda a criação. Este fluido penetra nos mais diminutos interstícios, impedindo certas misturas e certas fermentações, que poderiam ser a causa   da dissolução da criação, e, portanto, de um novo caos  .

A ideia do magnetismo universal   desenha o meio englobante de um mundo no seio do qual os corpos estão religados à distancia por uma ação recíproca; um mundo onde a atração, se fazendo eletiva, se diferencia e se multiplica em afinidades; um mundo onde o fluido é o agente   da simpatia, onde a harmonia   é o equilíbrio da combinação das forças, onde desarmonia e doença   são sinônimos. Neste ponto, a física se volta imediatamente para a fisiologia; o jogo   dos dois   princípios dinâmicos comunica-se naturalmente com a medicina. A articulação é também fácil,[...], entre a física social e a psicologia social. [1]

A afinidade   dessas ideias, ligadas ao magnetismo, especialmente em sua versão romântica, com a ideia mais antiga, platônica e estóica, de Alma do Mundo  , Anima Mundi , parece ser total. Segundo o historiador Jean-Louis Vieillard-Baron [2], a Alma do Mundo está mais presente   do que parece nas obras da antiga filosofia grega. A questão é que a ideia representada pela expressão   Anima Mundi , se apresenta nestas obras, sob diferentes denominações, em particular: o éter  , o Demiurgo  , mas principalmente e sobretudo a figura de Eros  , o primeiro e mais antigo dos deuses gregos. Para a tradição   platônica, a Alma do Mundo é uma imagem diurna, em oposição a uma alma noturna, simbolizada pela Terra  -Mãe-Matéria [3]. Este aspecto diurno da imagem não a impede de ter um papel mediador   entre o puro inteligível e o puro sensível  .

Com o desenvolvimento dos estudos sobre o magnetismo e a eletricidade, desde o final do século XVIII, a noção   de campo   foi ganhando uma conceituação formal e uma ideologia crescente. Como afirma Gilbert Simondon   [4] a noção de campo “estabelece uma reciprocidade de estatutos ontológicos e de modalidades operatórias entre o todo e o elemento  ”. Com efeito, em um campo, qualquer seja, elétrico, eletromagnético, de gravidade  , ou de qualquer outra espécie, um elemento, que o componha, possui dois estatutos e preenche duas funções: primeiro, recebendo a influencia do campo, está submetido às forças do campo; segundo, intervindo no campo a titulo criador e ativo, modificando as linhas de força do campo e a repartição do gradiente.

Para Simondon, “a reciprocidade entre a função de totalidade e a função de elemento no interior   do campo”, assim como a definição do modo de interação   característico do campo, constitui uma verdadeira descoberta conceitual. A dinâmica que está associada a esta conceituação de campo, permite revelar “processos muito mais refinados de interação entre as partes por intermediário do todo, onde intervém trocas seletivas”.


[1SCHLANGER, Judith (1971/1995), Les métaphores de l’organisme. Paris, L’Harmattan.

[2VIEILLARD-BARON, Jean-Louis (1988), Platonisme et interprétation de Platon a l’époque moderne. Paris, Vrin.

[3Os estoicos propuseram uma interpretação mais materialista e noturna da Alma do Mundo, se referindo a ela como o pneuma universal, o sopro imanente ao cosmos, a razão seminal do Universo.

[4SIMONDON, Gilbert (1989b), L’individuation psychique et collective. Paris, Aubier.