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Eudoro de Sousa (MHM:159-160) – loucura

quinta-feira 3 de fevereiro de 2022

73. Humano é o mistagogo que desce à Caverna, após ter saído de lá, não se sabe como nem porquê, humana é a Mulher de [159] Mantineia, humano é o Parmênides   do Parmênides  , humano é o Sócrates que Platão não quis erguer, nem poeticamente, à dignidade divina. E, no entanto, refere-se no Fedro   (pp. 244-245) a quatro espécies de loucura-possessão, cada uma, por certa divindade, mas entre as quatro (Profética, Teléstica, Poética, Erótica), não está a loucura-possessão a que se daria o nome de filosofia, a não ser que esta não seja de lançar em conta da loucura erótica, como acho que é, invocando os testemunhos do Banquete   e da República   (Alegoria da Caverna). Onde é que ele fala certo, isto é, plenamente de acordo consigo mesmo? Presumivelmente fala certo, adentro de cada um de seus livros. Ignoro, e não quero agora averiguar, o que o teria levado, no Pedro, a colocar o filósofo como subespécie do erótico, ao lado dos outros três loucos-possessos, na mesma categoria dos homens que, enlouquecidos por agência benéfica de algum deus, se erguem acima do só-humano. Examinemos os textos mais de perto. Algumas passagens do Fedro   não perdem o sentido próprio, fora do contexto: 1) p. 244 D: «... Tanto a loucura, segundo testemunhas dos Antigos, é mais bela do que a sabedoria: aquela vem dos deuses e esta é fruto dos homens»; 2) p. 244 A: «Se se pudesse afirmar, sem restrições, que a loucura é um mal, teria falado bem, mas, na realidade, os maiores bens vêm-nos por intermédio da loucura, que é, sem dúvida, um dom divino...»; 3) p. 245 A: «E quem chegar às portas da poesia sem a inspiração das Musas, convencido de que pela habilidade se tornará um poeta capaz, é um poeta falhado, e a poesia do que está no domínio de si mesmo e ofuscada pela dos inspirados»; 4) p. 245 A-B: «São estes, e mais ainda, os belos benefícios que tenho a referir-te, derivados de loucura proveniente dos deuses. Deste modo, não devemos receá-los em si mesma... devemos demonstrar o contrário, que é uma grande felicidade que nos tenha sido concedida pelos deuses tal loucura.» Podemos condensar tudo nas quatro proposições seguintes, pela mesma ordem das passagens citadas:

a) A loucura, que vem dos deuses, é mais bela que a sabedoria, que é (só) fruto dos homens;

b) A loucura é um dom divino e os maiores bens nos advêm dela;

c) Sem a loucura inspiradora, o mais hábil dos poetas é um poeta falhado;

d) A loucura concedida pelos deuses é para os homens uma grande felicidade. [EudoroMito:159-160]