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Buzzi (IP:57-58) – mundo organizado e não-organizado (Chuang Tzu)

domingo 21 de agosto de 2022

    

Chuang-Tzu  , numa poesia inigualável sobre a amizade  , aponta os dois   momentos do mundo humano: o organizado e o não-organizado. A força de viver   o organizado procede do que não é organizável. O encontro humano com os outros e com as coisas se institui a partir de um vigor que se furta ao institucional, ao estruturado. É de todo impossível, porém, viver fora de estruturas e instituições. O querer viver fora já é uma estrutura  . O encontro morre quando só atende ao institucional, ao programa que se lhe dá. O encontro cresce quando no institucional se dialoga com o fervor oculto que é o que possibilita o percurso do encontro no institucional.

«O Rei do Mar do Sul   era age-conforme-teu-palpite,
O Rei do Mar do Norte era age-num-relâmpago.
O rei do lugar entre um e outro era o Não-Forma  .
Ora, o Rei do Mar do Sul
E o Rei do Mar do Norte
Costumavam ir juntos frequentemente
À terra   do Não-Forma.
Este os tratava bem.
Então, consultavam entre si,
Pensavam num bom plano,
Numa agradável surpresa para Não-Forma
Como penhor de gratidão  .
 
«Os homens», disseram, «têm sete aberturas
Para ver, ouvir  , comer, respirar,
E assim por diante. Mas o Não-Forma
Não tem aberturas. Vamos fazer nele
Algumas aberturas».
Depois disso
Fizeram aberturas em Não-Forma,
Uma por dia, em sete dias.
Quando terminaram a sétima abertura,
Seu amigo estava morto.
Disse Lao Tan: «Organizar é destruir».
(Thomas Merton  , A via de Chuang-Tzu, pp. 86-87).

A poesia tece considerações sobre o viver humano na figura do encontro de três reis. Os três reis são três momentos do humano: o sujeito  , o objeto e o imponderável que possibilita os dois ponderados se encontrarem. O homem   é sempre sujeito dialogando com algum objeto. Objeto (Gegenstand) é tudo o que se contrapõe ao sujeito. Nesse plano, para o sujeito tudo é objeto. Ele só pode falar objetivando. Por outro lado só há objeto porque há sujeito.

Querer, porém, reduzir tudo a sujeito (subjetivismo) ou tudo a objeto (objetivismo) é destruir, porque essa pretensão não respeita o principal: o não-sujeito e o não-objeto, o imponderável que possibilita ao homem tudo falar no esquema de sujeito e objeto. Viver é experimentar o imponderável não-forma reduzindo-o constantemente à forma de sujeito e objeto. Se o espírito  , porém, perceber que o sujeito é mais que sujeito e os objetos são mais que objetos estará salvaguardando o encontro do sujeito com seus objetos, porque aquele «mais» é o fervor de todo encontro. O encontro é sempre triangular.


Ver online : CHUANG TZU