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Caeiro (Arete:128-129) – virtude não é conhecimento

quinta-feira 3 de fevereiro de 2022

Segundo a tese de Socrates  , contudo, a excelência (ἀρετή [arete]) não é nenhum «conteúdo de conhecimento comunicável» (διδακτόν μάθημα [didakton mathema]) nem pode ser fornecida aos homens por outros homens 18.

Esta dissensão de opiniões permite uma focagem das estruturas elementares de cuja tematização depende uma verdadeira circunscrição do sentido da excelência (ἀρετή). Ela serve para fazer perceber que a excelência (ἀρετή) não está disponível no modo como naturalmente nos temos a nós, nem no modo como se processa a nossa relação com os outros ou com os acontecimentos que nos afetam. No horizonte natural em que nos encontramos não temos qualquer possibilidade de aceder ao horizonte em que a excelência (ἀρετή) eclode.

A excelência (ἀρετή) não é nenhum conhecimento (μάθημα), porquanto a situação de aprendizagem do que possa ser esse conteúdo não se pode concretizar em enunciados que o descrevam. A pergunta pela excelência (ἀρετή) não é feita como se faz uma pergunta por um qualquer outro conteúdo de saber. A pergunta pela excelência (ἀρετή) tem de ser levantada a partir da experiência urgente da necessidade de saber o que há a fazer, quando aparentemente todas as possibilidades de vida estão perdidas. A situação (πρᾶξις [praxis]) em que nos encontramos com a necessidade de saber o que fazer não é nem a situação mais ou menos tranquila em que nos apropriamos de um qualquer conhecimento (μάθημα) ou obtemos um qualquer bom conselho acerca do que quer que seja para nos tornarmos bons cidadãos, mas antes é uma situação na qual nada se vê, tudo é impossibilidade, nada do que se escuta permite constituir um conselho a seguir, muito menos um bom conselho. A situação em que nos encontramos deixou-nos aparentemente sem escolha, tratando-se de uma situação pela qual somos obrigados a passar. [CaeiroArete:128-129]