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Castelos Moradas Céus

domingo 20 de março de 2022

    

Judaísmo Individualidade Humana - A CONSTITUIÇÃO DO SER HUMANO   NO JUDAÍSMO
Comparação   entre tradições judaica e cristã

As precisões sobre as “camadas de alma   concêntricas” poderão surpreender o leitor cristão habituado a não considerar senão uma “Unidade  ” anímica. No entanto a noção   de uma “fina ponta” da alma é estrangeira à teologia de Eckhart   e a sua posteridade?

Que dizer dos castelos e moradas, ou “céus”, de outros teólogos tanto franciscanos quanto dominicanos ou carmelitas? Particularmente, neste último caso, como não sonhar às diferentes moradas da alma de santa Teresa de Avila - Teresa de Ávila?

Para a santa, a alma é “uma” certamente, pois ela é todo o “castelo interior  ” e suas moradas. Trata-se logo de uma designação genérica como aquela de Neschamah em certos “esoteristas” judeus e Teresa é também neta de notável judeu convertido de Toledo. Ela assim se explica: “Podemos considerar nossa alma como um castelo, feito de um único diamante ou de um cristal perfeitamente límpido e no qual há muitos apartamentos, como no céu há muitas moradas”.

Além do mais, e como no universo   concêntrico anímico indo do psiquismo vital ao espiritual, divino  , encontramos também, no centro   do castelo interior, o “ponto de junção” com o Eterno pela oração  .

Há portanto uma “via interior” partindo do limiar até às quatros últimas moradas onde, contrariamente às três primeiras moradas, é Deus   que “toma a iniciativa da oração e é Ele que introduz a “alma”, em sua própria morada”. Aí é o “abismo   profundo”, objeto de uma manifestação   na alma da Trindade   pela “visão   intelectual”. Tal é a visão luminosa própria à sétima “morada” da alma. Teresa a exprimirá como segue:
“Assim que a alma é introduzida nesta morada, as três pessoas da Santa-Trindade se mostram a ela por uma visão intelectual, à luz de uma chama que esclarece a princípio seu espírito  , como uma nuvem de um incomparável esplendor. Ela vê que estas três pessoas são distintas; pois, por um conhecimento admirável que lhe é dada, ela compreende com a mais completa certeza   que estas três pessoas são uma única substância  , um só poder, uma só sabedoria e um só Deus”.

É a princípio no livro do “Castelo Interior” que a santa do Carmelo introduz um símbolo próprio   à Escritura e à Patrística, mas relativo precisamente à “deiformidade” progressiva da alma no Cristo  : aquele da “transformação   do bicho-de-seda em borboleta”. É portanto o “lugar” metafísica onde vai se operar a “metamorfose”, a passagem além desta forma mesma, a qual é o elemento   sutil e individual.

Já Basilio - São Basílio se exprimia em termos semelhantes buscando na transformação do bicho-de-seda em borboleta o que considerava “uma clara ideia da ressurreição  ”.

É então a “Ressurreição dos Corpos” que se impõe como única promessa do Filho   de Deus e Filho de Israel — não a imortalidade da alma, deve-se dizer uma vez mais? — Glória   da carne   glorificada, ou corpo glorioso, de luz, que aparece a Teresa como “sempre a carne glorificada”.

No entanto antes de abordar o “caso cristão” nos estados póstumas, adicionaremos ainda algumas reflexões concernindo a tradição   egípcia. Encontra-se com efeito neste último de longos comentários sobre o destino póstumo no “Livro dos Mortos Egípcios”. Eles são interessantes sob vários aspectos:

  • denotam uma certa similitude com a concepção das “camadas de almas” do esoterismo hebraico, o que faz que se poderia pensar   que a tradição, através   da tradição de Moisés, herdou mistérios da civilização faraônica, como já fizemos observar  .
  • atualmente também alguma semelhança   com a constituição do ser sutil e espiritual descrita no islã xiita com os dois   “jismes” e “jasads” (vide Henry Corbin  ).
  • têm em comum, com o Bardo Todol tibetano, a errância anímica durante “um ano” mas no entanto com uma perceptiva final diferente, como se verá, e que aproxima-se do conceito cristão.

Aí também veremos aparecer a dificuldade   de “definir  ” o Espírito para o distinguir das “almas” ou corpo anímico. Certamente o hebreu “clássico” com o ternário Gouf, Nephesh e Ruah, — o que se encontra em Paulo Apostolo — é mais simples mas difícil de discernir do Neschamah, a alma superior e de Ruah, o Espírito. Mas marcante é a distinção entre Ruah, o “sopro”, literalmente, e “Nephesh a alma animada pelo Ruah”.

A princípio Nephesh designa igualmente o pescoço por onde passa:

  • o alimento   sólido, cuja ausência determina a morte ao final de alguma semanas
  • o líquido cuja ausência determina a morte ao final de alguns dias
  • o ar cuja ausência determina a morte ao final de alguns minutos,

e é Nephesh que dá o “ultimo suspiro”.