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Faivre (E) – Imaginação e mediações

quarta-feira 24 de agosto de 2022

    

As duas noções estão ligadas, são complementares. A ideia de correspondência já supõe uma forma de imaginação   inclinada a detectar e utilizar mediações de todos os tipos, como rituais, imagens simbólicas, mandalas, espíritos intermediários. Daí a importância da angelologia nesse contexto, mas igualmente do «transmissor» no sentido de «iniciador», de «guru» (cf. também infra, a propósito do sexto elemento  ). Talvez seja sobretudo essa noção   de mediação que diferencie o que é místico   do que é esotérico. De uma maneira um tanto simplificadora, seria possível considerar que o místico — no sentido clássico — aspira à supressão mais ou menos completa das imagens e dos intermediários, pois estes se tornam para ele entraves à unio com Deus  . Enquanto o esoterismo   parece interessar-se mais pelos intermediários revelados ao seu olhar interior pela virtude de sua imaginação criadora do que tender essencialmente para a união   com o divino  ; prefere permanecer na escada de Jacó  , por onde sobem e descem os anjos   (e decerto outras entidades também) do que ir além. A distinção só tem valor   prático; também existe às vezes muito esoterismo entre os místicos (santa Hildegard de Bingen  ), e observa-se uma tendência mística acentuada em muitos esoteristas (Louis-Claude de Saint-Martin  ).

É a imaginação que permite utilizar esses intermediários, esses símbolos, essas imagens, com finalidades de gnose, desvendar os hieróglifos da Natureza, colocar em prática ativa a teoria   das correspondências e descobrir, ver, conhecer, as entidades mediadoras entre o mundo divino e a Natureza. Seria instrutivo escrever   a história da imaginação no Ocidente, isto é, de sua condição. Dessa forma seria enfatizada a importância dessa imaginação de que tratamos. Não apenas a simples faculdade psicológica encerrada, como em Kant  , entre a percepção e o conceito, ou a louca da casa   [1], senhora de erro   e de falsidade, da qual são vítimas os que fogem do mundo permanecendo presos em seu próprio universo   interior. Mas uma espécie de órgão da alma  , graças ao qual o homem   poderia estabelecer uma relação cognitiva e visionária com um mundo intermediário  , com um mesocosmo — o que Henry Corbin   propôs chamar um mundus imaginalis. A influência árabe (Avicena  , Sohravardhi, Ibn Arabi  ) pôde exercer aqui uma influência determinante no Ocidente, mas sem o desvio da qual o paracelsismo encontrou categorias   muito comparáveis. E foi sobretudo sob a inspiração do Festugiere Corpus   Hermeticum - Corpus Hermeticum  , redescoberto no final do século XV, que memória e imaginação se encontraram associadas a ponto de se confundir, uma parte do ensinamento de Hermes   Trismegisto consistindo em «interiorizar» o mundo em nossa mens  ; daí as «artes de memória», cultivadas numa luz de magia   durante e após o Renascimento.

Compreendida dessa maneira, a imaginação (imaginatio é parente de magnet, magia, imago) é o instrumento do conhecimento de si, do mundo, do mito  , o olho de fogo   que perfura a casca das aparências para fazer brotar significações, «relações», para tornar o invisível   visível, o «mundus imaginalis», ao qual o olho de carne   sozinho não dá acesso e para trazer dali um tesouro   que contribui para uma ampliação de nossa visão prosaica. A ênfase é colocada na visão e na certeza  , mais do que na crença e na fé. Essa imaginação fundamenta uma filosofia visionária. Sobretudo empolga o discurso teosófico no qual ela se manifesta e aí se desdobra a partir de meditações sobre os versículos do Livro revelado: assim ocorre com a cabala   judaica  , com o Zohar  , ou na grande corrente teosófica ocidental que toma impulso na Alemanha no início do século XVII.



Ver online : ANTOINE FAIVRE


[1«A imaginação é a louca da casa» é uma frase atribuída a Malebranche, expressão que sublinha o caráter irracional da imaginação, que escapa à razão (N.T.)