Página inicial > Antiguidade > Elaine Pagels Paulo Gnostico

THE GNOSTIC PAUL

Elaine Pagels Paulo Gnostico

Exegese gnóstica das cartas paulinas

quarta-feira 27 de abril de 2022, por Cardoso de Castro

    

Exegese   gnóstica das cartas paulinas
Um de seus primeiros trabalhos publicados (1975), faz um estudo das possíveis interpretações gnósticas das cartas de Paulo.

Apesar da exegese clássica de Paulo apontá-lo como fervoroso crítico dos movimentos gnósticos  , de sua época, Pagels   faz notar a compreensão do gnósticos com relação às cartas de Paulo como sendo totalmente oposta, apontando, ao contrário, as cartas paulinas como fonte de inspiração  . Naassenos e Valentinianos o reverenciaram como um apóstolo   que acima de todos os outros foi um iniciado gnóstico. Os Valentinianos chegam a afirmar que sua tradição   secreta oferece um acesso direto ao ensinamento paulino de sabedoria   e gnosis  .

Os Valentinianos se apresentavam como uma tradição originária da iniciação   de Valentino por Theudas, discípulo   de Paulo; segundo Ptolomeu a tradição apostólica que «recebemos por sucessão», teria sido passada por Paulo de tradições secretas a qual havia sido iniciado.

Para Pagels os heresiólogos, especialmente Irineu de Lião   e Tertuliano  , se preocuparam apenas em atacar e desmerecer Valentino e foram assim seguidos pelos estudiosos da tradição gnóstica, da primeira metade do século XX. Com a descoberta da Biblioteca de Evangelho de Tomé foi possível recuperar outra interpretação da relação entre Paulo e os gnósticos, onde suas cartas podem agora serem lidas e interpretadas segundo uma perspectiva gnóstica ou anti-gnóstica.

Quem conhece a pesquisa sobre o NT conhece Paulo como o oponente da heresia   gnóstica. Paulo escreve cartas, especialmente aos Coríntios e aos Filipenses para atacar e refutar as demandas dos cristãos gnósticos à «sabedoria secreta». Bultmann (Teologia do NT, 1947) explicou que «para Paulo, os apóstolos que acenderam o movimento   gnóstico-pneumático em Corinto eram intrusos... é perfeitamente claro que para a igreja   eles tinham o status de apóstolos cristãos, mas para Paulo eles eram ‘ministros de Satã’ disfarçados como apóstolos de Cristo  ».

Escritores gnósticos têm a ousadia de afirmar que suas cartas são uma fonte primária de teologia gnóstica. Ao invés de repudiar Paulo como seu obstinado oponente, os Naassenos e os Valentinianos o reverenciam como um dos apóstolos que, acima dos outros, era ele mesmo um iniciado gnóstico. Os valentinianos em particular alegam que sua tradição secreta oferece acesso direto ao próprio ensinamento de sabedoria e gnosis de Paulo. De acordo com Clemente de Alexandria  , «dizem que Valentino era ouvinte de Theudas, e Theudas, por sua vez, um discípulo de Paulo Apostolo. Quando o discípulo de Valentino, Ptolomeu, relata a Flora a»tradição apostólica«, que»também recebemos de sucessão«, refere-se aparentemente a esta tradição secreta sobre o salvador   recebida através de Paulo. Valentino frequentemente faz alusões a Paulo Apostolo, inclusive no Evangelho da Verdade, assim como seus discípulos Ptolomeu, Heracleon e Teodoto — não menos que Irineu de Lião, Tertuliano e Clemente de Alexandria — reverenciam Paulo e o citam simplesmente como»o apóstolo".

Os textos da Biblioteca de Nag Hammadi oferecem novas evidências para a tradição paulina gnóstica.

Menard afirma que a análise das alusões escriturárias no Evangelho da Verdade demonstram quão profunda é a influência Paulina neste escrito. Ele nota que o tema teológico do escrito — o relacionamento recíproco de Deus   e do eleito   — «é uma doutrina   tipicamente paulina».

O quarto tratado do mesmo códice (Tratado Tripartite), além de conter muitas alusões às cartas paulinas, conclui com a Oração   do Apóstolo Paulo  , na qual o apóstolo, como um dos eleitos, ora para ser redimido, para receber   a revelação do Pleroma   e ser unificado com o «amado   eleito».

O Evangelho de Felipe oferece outra fonte valentina para exame   da exegese paulina. R. Wilson reconhece como «notável» a observação que a discussão do autor sobre a ressurreição   da carne   «reflete tão precisamente a doutrina paulina».

Estas resumidas referências, indicam como diferentes autores valentinianos desenvolveram temas paulinos, incluindo a relação de Deus e do eleito; o batismo   como «morte com Cristo»; o ensinamento de Paulo sobre a ressurreição; sua exortação sobre a participação   no corpo de Cristo. Estas novas evidências da Biblioteca de Nag Hammadi suportam a afirmação que Paulo Apostolo exerceu grande influência no desenvolvimento da teologia gnóstica de Valentino e seus seguidores — aparentemente muito mais influência do que os acadêmicos supunham.

Os exegetas valentinianos ou se desviam ou rejeitam as cartas pastorais e citam como paulinas somente as seguintes epístolas: Romanos, 1-2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 Tessalonicenses, Hebreus (uma lista que corresponde exatamente a mais antiga coleção   atestada de Alexandria).

Teodoto, discípulo de Valentino explica que Paulo Apostolo tendo se tornado «o apóstolo da ressurreição», por conseguinte «ensinava de duas maneiras   ao mesmo tempo». Por um lado, pregava o salvador «de acordo com a carne» como aquele «que nasceu e sofreu», o evangelho querigmático do «Cristo crucificado» para aqueles que eram «psíquicos», «pois isto eles eram capazes de entender, e assim o temiam». Mas para os eleitos ele proclamava o Cristo «de acordo com o espírito  , como aquele nascido do espírito e uma virgem», pois o apóstolo reconhecia que «cada um conhece o Senhor em sua própria maneira: e nem todos o conhecem igualmente».

Paulo Apostolo comunicou seu ensinamento pneumático a seu discípulo Theudas, e Theudas, por sua vez, a Valentino; e Valentino a seus próprios discípulos. Assim os valentinianos identificam Paulo como a fonte   de sua tradição esotérica.

Os valentinianos afirmam que a maioria dos cristãos cometem o erro   de ler as escrituras   apenas literalmente. Eles mesmo, através de sua iniciação na gnosis, aprenderam a ler as cartas (como a ler toda a escritura) no nível simbólico, assim como afirmam que Paulo intencionava. Somente esta leitura pneumática dá acesso a «verdade» ao invés de sua mera «imagem» exterior.

A questão que o livro de Pagels enfoca é justamente esta: se Paulo é considerado antigóstico, como os gnósticos o reconhecem como o grande mestre pneumático? Como concedem tanto valor   a suas cartas? Como o consideram exemplar   em sua tradição?


Excertos:

Ver online : THE GNOSTIC PAUL