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Merton Cassiano

terça-feira 29 de março de 2022

Cassiano - João Cassiano, em suas narrações sobre as "conferências", que ouviu quando visitou os padres do deserto   do Egito, estabelece a lei fundamental da espiritualidade do deserto. Qual é o propósito e o fim da vida monástica? Este é o tema da primeira conferência.

A resposta é que a vida monástica tem dois propósitos: deve levar o monge em primeiro lugar a um intermediário e, em seguida, ao fim último de plenitude e completude. O fim intermediário ou scopos, escopo, é o que temos comentado como katharotes - pureza de coração. Isso corresponde, de modo geral, ao termo "vazio" empregado pelo Dr. Suzuki  . O coração puro é aquele que é perfectum ac mundissimum (perfeito e puríssimo) . Isto é, inteiramente livre de logismos - pensamentos e epithymetikon - desejos inúteis. O conceito, na praktike - prática, corresponde antes à apatheia dos estóicos do que ao “suchness” do Zen. Mas, em todo caso, existe entre esses termos grande afinidade. Trata-se do quies ou repouso da theoria - contemplação — o estado do ser libertado de qualquer imagem e quaisquer conceitos que perturbem e ocupem a alma. É o clima favorável à theologia, a mais alta theoria - contemplação, que exclui até as idéias mais puras e espirituais e não admite qualquer conceito.

Nesse estado, conhece-se a Deus, não por conceitos ou visões, mas só pelo "não-conhecimento (gnosis - episteme)". Essa é a linguagem empregada por Evagrio   - Evágrio Pôntico, rigorosamente intelectual, fato que o aproxima mais do Zen do que os teólogos, mais afetivos, da euche - oração, como Máximo o Confessor - São Máximo e Gregorio de Nissa - São Gregório de Nissa  .

O próprio Cassiano, embora se aproximando de Evágrio e com ele simpatizando, dá um equilíbrio afetivo caracteristicamente cristão ao conceito de katharotes - pureza de coração, e insiste em que deva ser definida simplesmente como "agape - caridade perfeita" ou um amor de Deus unificado, sem mistura nem olhar voltado para si. Essa qualificação poderia concebivelmente constituir uma importante diferença entre a "katharotes - pureza de coração" cristã e o "vazio" do Zen. Entretanto, as relações entre os dois conceitos devem ser aprofundadas num estudo mais acurado.

Resta a dizer — e isto é o mais importante — uma coisa ainda. E que a katharotes - pureza de coração não é o fim último do esforço do monge no deserto. É apenas um passo para esse fim. Dissemos acima que o paraíso ainda não é o céu. O paraíso não é a meta final da vida espiritual. É, em realidade, apenas uma volta ao início. É "começar de novo", uma nova chance. O monge que conseguiu atingir a katharotes - pureza de coração e recuperou, em certa medida, a inocência perdida por Adão, ainda não terminou sua viagem. Está apenas pronto para iniciá-la. Está pronto para um novo trabalho "que o olho não viu, o ouvido não ouviu, nem o coração do homem pôde conceber". A katharotes - pureza de coração, diz Cassiano, é o fim intermédio da vida espiritual. O fim último, porém, é o reino de Deus. Esta é uma dimensão que não entra no domínio do Zen.

Poder-se-ia argumentar que isso desmancha tudo o que foi dito sobre o vazio e nos coloca de novo num estado de dualismo e, portanto, de "conhecimento (gnosis - episteme) do bem e do mal", dualismo entre Deus e o homem, etc. Tal não é, de modo algum, o caso. A katharotes - pureza de coração estabelece o homem num estado de unidade e vazio em que ele se torna um com Deus. Mas essa é a necessária preparação, não para uma continuada agon - luta entre o bem e o mal, mas para a verdadeira atuação de Deus revelada na Bíblia  : a obra da nova criação, a anastasis - ressurreição dos mortos, a restauração de todas as coisas em Cristo. Aí está a verdadeira dimensão do cristianismo, a dimensão escatológica que lhe é peculiar e que não existe no budismo. O mundo foi criado sem o homem; a nova criação, porém, que é o reino de Deus, será o trabalho de Deus no homem e através do homem. Será a grande, misteriosa obra teândrica do Cristo Místico, o novo Adão em que todos os homens como "uma só Pessoa", ou um "Filho de Deus", transfigurarão o Cosmo, oferecendo-o resplandecente ao Pai. Aí, nessa transfiguração, se realizarão as núpcias apocalípticas entre Deus e Sua criação, a perfeita e final consumação com a qual nenhum misticismo mortal é capaz de sonhar e que é apenas de leve prefigurado nos símbolos e nas imagens das últimas páginas do livro da Revelação (Apocalipse).

Aqui, estamos, naturalmente, de novo no domínio do conceito e da imagem. Pensar nessas coisas, especular sobre elas é, talvez, afastar-se do "vazio". Mas é uma atividade de pistis - fé que pertence ao nosso domínio de conhecimento (gnosis - episteme) e nos condiciona a uma inocência superior e mais vigilante: a inocência das virgens prudentes que vigiam com lâmpadas acesas, num vazio iluminado pela glória da Palavra divina e inflamado pela presença do Espírito Santo. Essa glória e essa presença não são objetos que "penetram dentro" do vazio para "enchê-lo". Nada mais são do que o “suchness” do próprio Deus.


Ver online : THOMAS MERTON