Página inicial > Antiguidade > Judaico-Cristandade > Gnosticismo > Evangelho de Tomé - Logion 34

BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI

Evangelho de Tomé - Logion 34

EVANGELHO DE TOMÉ

terça-feira 29 de março de 2022, por Cardoso de Castro

    

Jesus   disse: se um cego   conduz a outro cego, caem os dois   em uma fossa. (Roberto Pla  )

    

Pla

Jesus   disse: se um cego   conduz a outro cego, caem os dois   em uma fossa. [Dois Cegos; O mal de dentro]

Puech

34. Jésus a dit : Si un aveugle conduit un aveugle, ils tombent tous deux dans une fosse.

Suarez

1 Jésus a dit : 2 si un aveugle conduit un aveugle, 3 ils tombent tous deux au fond d’une fosse.

Meyer

Jesus said, “If a blind person leads a blind person, both of them will fall into a hole.” [Cf. Matthew   15:14 (Q); Luke 6:39 (Q)]


Roberto Pla  

A luz   é no evangelho o Cristo «manifesto» e também o «oculto» ou interior. Jesus, o Cristo, o disse muito claramente: «Eu sou   a luz do mundo» (Jo 8:12). Ao contrário, daquele que não segue ou não reconhece ao Cristo se diz que caminha na obscuridade, porque não tem luz e, em consequência, é denominado «cego».

Estas correntes expressivas vêm da significação superior da luz e não de uma forma metafórica da linguagem, porque quando no Gênesis se diz «faça-se a luz», ninguém pode interpretar disto a luz de um astro   solar ainda não criado, senão a Palavra que estava com Deus   no princípio e na qual estava a vida que era a luz dos homens.

Por essas razões são cegos evangélicos todos os que por distintas causas, que podem indicar-se como carência de fé no Filho   do homem   enquanto este é a essência   de si mesmo  , se acham privados da sanadora ação interior da luz verdadeira.

Jesus qualifica de «cegos» aos fariseus   que se escandalizavam ao ouvir   sua doutrina   na qual criticava seus condicionamentos, fundados em tradições mal entendidas e com as quais obstaculizavam a ação esclarecedora da Palavra. Tais condicionamentos arraigam muito fortemente na consciência   por falta de discriminação  . O que diz Jesus é que não são uma «planta   plantada por seu Pai celestial» — como se dissesse que não constituem o ser   real e puro de cada um — e por isso os assegura que essa planta, a cizânia que não deixa ver o grão  , seria «arrancada pela raiz» (Cizânia).

Esta é a causa   — agora pode ser facilmente estudada — pela qual o cego de Betsaida, necessitou duas curas (veja também o Evangelho de Tomé - Logion 19).

Esta mesma cura   dupla é a que teve que experimentar Saulo quando perseguia ao Senhor e no caminho   de Damasco o rodeou de repente uma luz vinda do céu. Primeiro, ficou cego, pois ainda «tinha os olhos abertos, não via nada», e depois, foi curado da cegueira quando Ananias, “enviado” pelo Senhor, o impunha as mãos e «no mesmo instante   caíram de seus olhos como umas escamas e recuperou a visão».

Por outro lado, uma única cura, a do Espírito  , necessitaram aqueles dois cegos que menciona Mateus e que, segundo diz, seguiram a Jesus ao passar este, gritando: “Tende piedade   de nós, Filho de Davi!” (Kyrie Eleison).

Igual significação tem a cura de um cego de nascimento que relata extensamente e com riqueza   de perfis simbólicos muito particulares, o Evangelho de João. O “toque” direto, o contato com a Palavra, que os sinópticos mencionam em qualquer das curas de cegueira que explicam, é aqui substituído pelo barro formado pela saliva de Jesus untada com o pó do solo. A significação desta unção   com o barro não é demasiadamente difícil de entender, porque o próprio Jesus ajuda   a esclarecê-la quando explica a cura que vai efetuar. Enquanto palavra, Cristo é o “enviado” no mundo, em cada homem, e como “enviado” pode dizer: “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo” (Jo 9, 4-5). Com isto é como se dissesse que a difusão da luz, sua força expansiva, é um ato idêntico à segregação de saliva que se produz pela emissão da Palavra; ambos casos se traduzem na primeira percepção de salvação   espiritual. Quanto à saliva, sua ação só é possível para o homem cego se se subministra misturada com o pó do solo, por ser “no mundo” onde tal obra se realiza naquele cego.

O barro feito por Jesus, não pelo pecado   de ninguém, senão para que naquele homem se “manifestem as obras de Deus” (Jo 9,3) até então “oculto”, resulta ser para o cego, segundo isso, a primícia da luz do mundo, o despertar   interior que propicia a primeira intuição   do Ser verdadeiro. Mas, segundo se disse, isto não é mais que a primeira parte da cura, aquela pela qual “os que veem se tornam cegos”.

Para chegar ao cumprimento do segundo juízo proclamado no evangelho, “que os que não veem, vejam” (Jo 9,19), o diz Jesus ao cego: Vai, lava-te na piscina de Siloé (Números 9,17). Este é o banho da alma   nas águas puras do Enviado (heb. Siloé), do messias, e o cego que em suas águas se submerge (águas puras = alma purificada), começa a receber   a luz, o fogo   do Espírito até alcançar a saúde perfeita (v. Nascido Cego).

Aqui é onde adverte o evangelho que o o homem que efetuou tal imersão curativa, não poderá responder nunca, não obstante, à pergunta terrena: “Onde está esse? Onde está o Enviado? Siloé é espírito puro, sem forma, e é inútil buscá-lo de maneira representativa. Jesus o disse e deve-se repetir para que tenham presentes todos os que buscam a Deus em seu coração  :

  • O vento   assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito. (Jo 3:8; vide Nascer do Alto)

No entanto, para os olhos recém-abertos é chegada sempre a hora gozosa de entender e realizar plenamente a exclamação de fé de Jesus: É necessário que creiais que Eu Sou (Jo 13, 19). Com a vida do Espírito ocorre que todo cego que abre os olhos à luz, ama a luz e tem a luz; igualmente todo o cego que recebe a segregação da Palavra, do Enviado, e se submerge nela, ama a Palavra e tem a Palavra, segundo está dito:

  • Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada  . (Jo 14:23)

Por isso no relato joanico, o novo vidente que não sabe onde está o Enviado, sabe muito bem, por outro lado, dizer, tal como Jesus o pede: Eu Sou. E isto o diz cheio de gozo e também de certeza, porque nesse seu Ser que confessa, vieram morar com ele, a Palavra e o Pai.

Em verdade um cego evangélico que rompe a ver, é sempre um nascido do Espírito, alguém que já está limpo e que por distinguir   desde então a palha do grão, sabe muito bem que ao dizer Eu Sou, alude ao grão desnudo e despreza a palha. Nisso se diferencia dos cegos que dizem: “Vemos”; estes são cegos absolutos, que como diz Jesus: “permanecem em sua cegueira”.

  • O texto diz: pecado, o qual entendido em sua acepção de falta, ou estado   carencial de justiça, significa, neste caso, “cegueira” (vide Cegueira e Surdez).

Ver online : Evangelho de Tomé