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Evangelho de Tomé - Logion 27

EVANGELHO DE TOMÉ

sexta-feira 29 de julho de 2022, por Cardoso de Castro

    

Bem-aventurados...

    

Pla

Jesus   disse: se não jejuais do mundo, não encontrareis o reino; se não celebrais o sabá como sabá, não vereis o pai  .

Puech

27. < Jésus a dit > : Si vous ne jeûnez pas du monde, vous ne trouverez pas le Royaume; si vous ne célébrez pas le sabbat comme sabbat [« célébrer comme sabbat » : litt. « faire en sabbat », traduction de gr. sabbatizeïn], vous ne verrez pas le Père.

Suarez

1 si vous ne jeûnez pas au monde, 2 vous ne trouverez pas le Royaume; 3 si vous ne faites pas du sabbat, le sabbat, 4 vous ne verrez pas le Père.

Meyer

(1) “If you do not fast from the world, you will not find the kingdom. (2) If you do not observe the Sabbath as a Sabbath, you will not see the Father.” [Cf. Clement of Alexandria   Miscellanies 3.15.99.4; Tertullian   Against the Jewish People 4.]


Suarez

LOGION 27

P. Oxyr. 1 n° 2

Il n’y a pas de traces de ce logion au niveau des ultimes rédactions des évangiles canoniques. Ce logion met en évidence la façon dont Jésus entendait le jeûne, jeûne de nature différente de celui des prescriptions légalistes (cf. log. 6 et 14).


La version copte a Royaume, là où la version grecque a royaume de Dieu  . Voir à ce sujet au log. 3 : Remarques sur les divergences entre la version copte et la version grecque.

Roberto Pla

Importa antes de tudo esclarecer os termos verdadeiros da disjuntiva “mundo-Reino de Deus” segundo a significação real   dada pela linguagem da Boa Nova. O que pode parecer em princípio, quando não se aprofundou corretamente nela, é que o evangelho declara que o mundo e o Reino constituem duas esferas opostas e inconciliáveis e que por isso propõe o logion praticar o jejum   do mundo, quer dizer, a privação   total ou em grande parte deste mundo, se é que se pretende encontrar o Reino.

Essa maneira tão chão de entender a doutrina evangélica quanto à relação   de Deus com o mundo formou parte durante séculos da crença de muitos seguidores da mensagem cristã que em cenóbios, em mosteiros ou em prática privada se dispuseram a cercear ou ao menos a atenuar com grande convencimento   e na medida de suas forças seu alimento mundano, para assim dar entrada franca em sua consciência   à antítese espiritual do mundo: o Reino.

É verdade   que aquela forma, até certo ponto fugidia, de perseguir   o sagrado   como se se tratasse de um conteúdo totalmente exterior  , ou alheio ao mundo, diminuiu em seu uso, e hoje os herdeiros daqueles primitivos cenobitas opinam em sua maioria que a velha disjuntiva se cumpre mais eficazmente se é conduzida até a apreciação do próximo e seus problemas mundanos, dentro de sentido evangélico de solidária caridade fraterna.

Ambas formas do religioso, a reclusão apartada ou a penetração ativa são, por suposto, a expressão   não desdenhável de um impulso purificador, mas ocorre que a primeira destas formas consistiu simplesmente em magnificar a ideia, quer dizer, em fortificar a imagem de um Deus cósmico   embora até certo ponto extraterrestre, forjado na mente  . Quanto à segunda forma se funda na intenção   bastante profana de sacralizar a exterior, física — do homem   verdadeiro, por trás da ideia de um Deus imaginado segundo um acontecer sociológico e mundano, como se Deus caminhasse “segundo a corrente do mundo”.

Mas a imagem de Deus é sempre errônea pelo simples fato de ser imagem, posto que Deus é inimaginável. Em sua condição de essência   pura, o Deus-Pai do evangelho explicado por Jesus não cabe nos limites do entendimento, pois este, o entendimento, é um movimento   do conhecer da temporalidade do mundo e sem validez alguma para representar ao Pai preexistente, do qual se disse:

Antes que nascessem os montes, ou que tivesses formado a terra   e o mundo, sim, de eternidade   a eternidade tu és Deus. (Sl 90:2)

Quando no evangelho de Mateus explica Jesus a significação da parábola da cizânia e o campo  , diz que o “o campo é o mundo e a boa semente   são os filhos do Reino”.

Tudo isso se acha explicado no quarto evangelho, o qual está consagrado em boa parte a determinar a diferença   entre o mundo e a luz do mundo. A luz é a Palavra  , o Filho, posto que Jesus enquanto Cristo disse:

  • Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou   a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. (Jo 8:12)
  • Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. (Jo 1:10)

O testemunho evangélico é conclusivo: a luz (a Palavra), está no mundo (embora o mundo não a conheça); mas isto há que bem se entender. Aqueles que se apartam do mundo para encontrar a luz, se esquecem de que a luz está no mundo. Em realidade, são homens de pouca fé e não creem que a luz está no mundo; possivelmente, no fundo de sua consciência amam mais as trevas que a luz; são do mundo e por isso não conhecem a luz.

  • E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. (Jo 3:19)

No lado oposto estão aqueles que estudaram que a luz está no mundo e antes de discernir entre ambas as coisas, o mundo e a luz, se entregam ao mundo crendo que todo ele é a luz. Esquecem estes seguramente que “estar” no mundo e “ser” do mundo são coisas bem distintas em seu conteúdo embora idênticas na forma. Jesus tentou dizer isto a seus discípulos quando falou do Tesouro do Templo   (vide Sinal da Cruz).

  • E dizia-lhes: Vós sois de baixo, eu sou de cima; vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo. (Jo 8:23)

A pergunta que sobrevém depois, é esta: é possível contemplar a luz do mundo de maneira que o mundo seja amado   pela luz que nele há? Isto é o que se quer significar quando se diz estar no mundo sem ser do mundo. Para isto é necessário exercer um olhar incontaminado sobre o mundo, pois quando existe esse olhar no mundo transparente sempre a luz — o Filho do homem — que ali está “desde de sempre e para sempre”. Esse é o olhar adestrado, superior, de “quem anda de dia e não tropeça, senão que vê a luz deste mundo”.

  • Jesus respondeu: Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; (Jo 11:9)

O logion explica no último termo que para ver ao Pai (invisível  ) é necessário “celebrar o sabá como sabá”. O que vem a dizer com isso é que há que viver   cada dia em sua plenitude   gloriosa de ser o Dia do Senhor. Quando todos os dias são o Dia do Senhor é porque cada dia é a revolução conjunta, completa, da luz e do mundo; e o mundo e a luz são então, e somente então, uma única coisa: “Se alguém me ama — diz Jesus — guardará minha Palavra, e meu Pai o amará, e vendermos a ele e faremos morada nele”.

  • Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. (Jo 14:23)

Então se cumprirá o que profetiza Lucas: GUARDAR O SABÁ.


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