Página inicial > Medievo - Renascença > Máximo, o Confessor (580-662) > Máximo, o Confessor — Cantúrias sobre a Caridade I

CRISTOLOGIA BIZANTINA

Máximo, o Confessor — Cantúrias sobre a Caridade I

PHILOKALIA

sábado 30 de julho de 2022, por Cardoso de Castro

    

Tradução em grande parte feita a partir da versão espanhola[[MAXIMO EL CONFESOR, Tratados Espirituales - ed. Ciudad Nueva. Tr. por Antonio Carneiro. A tradução de cada centúria foi organizada em 4 páginas de no máximo 25 itens cada uma, para facilitar a leitura na Internet.


    

Primeira Centúria (tradução de excertos variados)

Excertos traduzidos da versão inglesa da Philokalia  

1. A caridade é uma boa disposição   da alma  , que a faz preferir a tudo o conhecimento de Deus  . Chegar à posse habitual desse amor é algo de impossível se se conserva apego a qualquer objeto terrestre.

2. A caridade nasce da liberdade interior  ; a liberdade interior, da esperança   em Deus; a esperança, da paciência e da longanimidade; estas, do vigilante domínio   de si, do temor de Deus, e este nasce da fé em Cristo  .

3. Quem crê no Senhor receia o castigo  ; quem receia o castigo domina as paixões; quem domina as paixões suporta pacientemente as aflições; quem suporta as aflições adquire a esperança em Deus. E a esperança em Deus desliga o espírito   de todo apego terrestre. Então o espírito   possuirá o amor de Deus.

4. Quem ama a Deus, prefere seu conhecimento a todas as coisas criadas, e se empenha nessa direção   ininterruptamente, com ardente desejo.

5. Se todo ser não existe senão por Deus e para Deus, e se Deus está acima das criaturas, o homem   que abandona a Deus para se apegar às criaturas mostra que as prefere a ele, o Ser incomparavelmente superior.

6. Quem conserva o espírito firmemente preso ao amor de Deus subestima o que é visível  , até o próprio   corpo — como se fosse coisa alheia.

7. Se a alma supera o corpo, se Deus é imensamente melhor que o mundo, quem prefere o corpo à alma, e o mundo a Deus, não difere dos idólatras.

8. Apartar o espírito do amor de Deus e da assídua atenção   que isto exige, para fixar-se numa realidade   sensível  , é antepor o corpo ao espírito, é antepor a Deus Criador o que não existe senão por ele.

9. Se a vida do espírito é a iluminação do conhecimento, e se esta iluminação é produzida pelo amor de Deus, está certo dizer: "acima do divino   amor nada há".

10. Quando, em transporte do amor, o espírito emigra para Deus, já não conserva a experiência de si mesmo   ou de qualquer outra coisa. Inteiramente iluminado pela infinita luz de Deus, torna-se insensível a tudo que não tem existência senão per ele. Da mesma forma como não se vêem as estrelas quando se ergue o sol  .

11. Todas as virtudes ajudam a alma ao amor ardente de Deus, porém mais do que as outras a oração   pura, mediante a qual o espírito voa para Deus e se desliga completamente   das criaturas.

12. Quando, pela caridade, o conhecimento de Deus arrebata o espírito e este, desligado das criaturas, percebe a infinitude divina, toma então consciência   de sua baixeza, como Isaías, e estupefato rediz as palavras do profeta: "ai de mim, que estou perdido! pois sou   homem de lábios impuros, habito num povo de lábios impuros, e no entanto vi com meus olhos o Senhor, o Rei dos exércitos!"

13. Quem ama a Deus não pode deixar de amar   cada homem como a si próprio, mesmo se escandalizado com as paixões dos que ainda não se purificaram. E ao vê-los converter-se e reformar a vida, sente-se inundar a alma de uma alegria   indizível.

22. Quem escapa às cobiças do mundo se torna inacessível à tristeza   do mundo.

23. Quem ama a Deus, ama ao próximo sem reserva. Incapaz de guardar as próprias riquezas, distribui-as como Deus, dando a cada um o de que ele precisa.

24. Quem, ao dar a esmola, procura imitar a Deus, não coloca diferença   alguma entre bom e mau, honesto ou desonesto, desde que se trate de necessitado. Dá a todos, a cada um segundo suas precisões, ainda se preferindo, per causa   da boa vontade, o bom ao mau.

25. Deus, por natureza bom e sem paixão, ama todos os homens, obras de suas mãos, mas glorifica o justo porque este lhe está intimamente unido pela vontade; e em sua bondade, apieda-se do pecador, instruindo-o nesta vida para convertê-lo. Assim, o homem bom e sem paixão, ama igualmente todos os homens, os justos por sua boa natureza e boa vontade; e os pecadores, por causa de   sua natureza e também em virtude   dessa piedade   compassiva que se tem para com um louco que mergulha na noite.

26. Dar largamente os próprios bens é sinal de caridade; quanto mais distribuir a palavra   de Deus e prestar serviço aos outros!

27. Quem renunciou francamente aos bens do mundo e, sem pensar   atrás, se torna servidor do próximo, ficará logo liberado de toda paixão e feito participante do amor e conhecimento de Deus.

28. Quem possui em si o amor de Deus não se fadiga   de seguir o Senhor seu Deus, como disse o divino Jeremias, mas suporta generosamente as dificuldades, críticas, violências, sem querer a ninguém o menor mal.

29. Se um homem te ultrajou ou te desprezou, calcula bem tua cólera   para não acontecer que por causa de um amargor venhas a separar-te da caridade e a estabelecer-te nas regiões do ódio.

30. Sofres uma ofensa ou desatenção? Sabe que há grande proveito no fato de tua vaidade   ser assim providencialmente anulada pela humilhação.

31. A lembrança do fogo   não esquenta o corpo. A fé sem amor não realiza na alma a iluminação do conhecimento.

41. Quem ama a Deus não contrista o outro, nem se entristece com ninguém por motivos de ordem temporal. Não inspira e não sente senão uma tristeza, esta salutar, a que S. Paulo sentia a respeito dos coríntios, e lhes procurou inculcar.

42. Quem ama a Deus leva sobre a terra   uma vida angélica, no jejum  , nas vigílias, no canto   dos salmos   e na oração, julgando bem a toda gente.

43. Quem aspira por uma coisa, luta   para adquiri-la. Ora, mais que tudo de bom e desejável é Deus; que ardor não deveria ser o nosso para adquirir esse bem em si e desejável!

44. Não manches a carne   por más ações, não sujes a alma por maus pensamentos, e a paz   de Deus descerá sobre ti, trazendo-te a caridade.

47. Quem não obteve ainda a ciência de Deus, fruto   da caridade, se orgulha com os bons atos, realizados segundo Deus. Mas quando for julgado digno dela, dirá com profunda convicção   as palavras do patriarca Abraão, ao ser gratificado pela manifestação   divina: "eu não sou mais que terra e cinza".

48. Quem teme a Deus possui a humildade   por constante companheira: graças aos pensamentos que ela inspira, chega ao amor e reconhecimento para com Deus. Ela lhe recorda como outrora viveu segundo o século, recorda suas quedas, as tentações experimentadas na mocidade, como o Senhor o livrou de tudo isso e o fez passar, da existência sujeita às paixões, a uma vida segundo Deus. Então, juntamente com o temor, invade-o o amor, e ele não cessa de dar graças, com profunda humildade, ao Benfeitor e Guia de nossa vida.


Ver online : MÁXIMO, O CONFESSOR