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Gnosticismo Ovelha Perdida

terça-feira 29 de março de 2022

Roberto Pla  : Evangelho de Tomé - Logion 107; Evangelho de Tomé   - Logion 93

Mas quem são essas ovelhas perdidas que a Jesus preocupa? Mateus dá alguma informação sobre elas e convém revisá-la, pois Jesus se refere à ovelha perdida “entre cem”, e explica o satisfação pela ovelha “encontrada”, pois não é vontade do Pai celestial que se perca um destes “pequeninos”.

Que as ovelhas são os "elakistos - pequeninos", resulta evidente segundo o texto de Mateus. Os "elakistos - pequeninos" são, segundo isto, uma classe particular de seres humanos, e não todos os judeus, se é que se fala de ovelhas de Israel, nem todos os denominados cristãos, se a referência a dizer "ovelhas".

Mas ocorre que, por sua vez, resulta bastante claro que os “pequeninos”, as “crianças”, são o espelho no qual devem se olhar todos aqueles que pretendem entrar no Reino dos céus, posto que para entrar no Reino é preciso se fazer “como” essas “crianças”, “homoiosis - como” esses “pequeninos”. Isto é como se se dissesse que há que nascer do alto - nascer do Espírito para ser “homoiosis - como” o Espírito.

O ensinamento se completa quando explica Jesus nessa passagem das “crianças” que os anjos destes “pequeninos”, não só que se fizeram “homoiosis - como” pequeninos, senão o espelho de si mesmos em que se olharam para se fazer “homoiosis - como” pequeninos, quer dizer, os anjos nos céus, pois eles são o espelho, “veem continuamente o rosto de meu Pai que está nos céus”.

Pois bem, fica claro que esses anjos, essas centelhas - partículas de luz que são o verdadeiro Ser de cada qual, são os pequeninos, as ovelhas. Se compreende então o gozo celestial pela ovelha que estava perdida e foi encontrada, porque a ovelha é a pérola, o tesouro, a pedra, o pneumático - homem pneumático, a semente - semente de Deus, da qual se diz que está perdida quando vive cativa, enterrada, sob o peso da ignorância da alma.

A ovelha, a pérola, é o único Ser real e verdadeiro que há no homem, pois é o homem em si mesmo, o eterno, e todo o mais são envelopes - envolturas adventícias, transitórias, que não subsistem para a Vida verdadeira. É esta ovelha a pérola que há que preservar do ignorante que a mantém revolta com a imundície que agrega, por insensato, a seu puro si mesmo, e que não a vê nem a conhece: Jesus veio, enviado, para resgatar essas ovelhas de seu cativeiro e devolver-lhes sua liberdade perdida (v. Cura da Filha da Cananeia - CURA DA FILHA DA CANANEIA).

Atos de Tomé

  • Fala uma jovem símbolo da alma, dando conta das penas infernais que contemplou em visão:
    • Aquele que se assemelha me tomou e me consignou a ti, com estas palavras: "Tome-a, porque é uma das ovelhas perdidas". Tu me acolheste e agora estou aqui em tua presença. Suplico-te, pois, (ajuda-me) para que vá a aqueles lugares de sofrimento que vi.
  • Articulação com o Bom Pastor em João:
    • Ó pastor bom, que te entregaste pelas próprias ovelhas e venceste o lobo e redimiste aos cordeiros teus e os conduziste a um pasto bom! Te louvamos e entoamos hinos a ti, e a teu invisível Pai, e a teu Espírito Santo, e à Mãe de toda a criação (= a Sophia).

Antonio Orbe  : Parábolas Evangélicas em São Irineu  

A primeiríssima antiguidade descuidou das diferenças entre Mt e Lc. Suspeito que algumas, no entanto, se valeram de pronto, por. ex., o lugar em que a ovelha se perdeu: “nos montanha - montes” em Mt e “no deserto” em Lc. Orígenes não se descuida uma única vez em eleger a versão de Lucas em suas referências. Vê também diferença entre a ovelha “perdida” (gr. apololos) e a “desvairada (gr. planomenon).

Entre os escritos apostólicos há algum vestígio, como por exemplo o Pastor de Hermas  .

A parábola teve um trato excepcional pelos gnósticos, a começar por Simão Samaritano - Simão Mago, segundo Irineu de Lião   - São Irineu. Marcion a interpretou segundo Tertuliano   apresenta em seu Adv. Marc. IV 32,1. Marcion destaca a expressão alegórica da misericórdia de Deus, pelo que se pode entender das notícias tertulianas sobre seu discípulo Apeles. No entanto, examinando as citações a Apeles em Tertuliano   se conclui que a ovelha perdida de Apeles não alude à metanoia de Gen 6,6 nem ao sentimento dos Arcontes ante a profecia de Adão (Gen 2,23), senão à metanoia, enquanto mudança de agnoia - ignorância (= Erro) na aceitação da economia superior.

Taciano   é outra exegese a mencionar, através do Diatessaron   e por sua exegese pessoal. Alude de forma mítica à ovelha, símbolo da alma ou homem (essencial). No princípio alma feliz e contente com o Espírito Divino. Indócil a Ele, viu-se um dia
abandonada do Espírito, caiu em Erro (plane) e com ele na idolatria.

Os Simonianos têm algumas referências à parábola, apontadas por Irineu de Lião  , servindo-lhes para o esquema do mito da salvação. A alma (= primeira ideia de Deus) sai do reino do Espírito, se multiplica em contato com a matéria e se torna múltiplo - múltipla ao princípio da origem. O tema é abordado em articulação com a economia de Ennoia, Primeiro Pensamento do Deus Ignoto. O símbolo Ennoia = ovelha perdida se reduz facilmente ao Anthropos (pneumático - espiritual) = ovelha perdida.

Valentino e seus seguidores têm orientações distintas, talvez complementares. Uma, aritmética — a qual pertencem Marcos e o Evangelho da Verdade   — que especulam sobre a perda do número perfeito 100, com a ovelha perdida: 99 + 1; e outra diretamente doutrinal — a de Ptolomeu e Heracleon, as duas místicas. A exegese de orientação doutrinal é seguida também pelo Evangelho de Tomé  .

Entre os eclesiásticos, Tertuliano   merece lugar relevante. Cipriano   em suas cartas também referencia a parábola; Clemente de Alexandria   se refere a ela no tocante a Lei Mosaica. Orígenes é aquele com mais referências e análises.

Por último, Irineu de Lião   omite a alegoria numérica, repugnando a exegese gnóstica assim como origeniana: o homem é o plasma; formado por Deus, caiu no pecado, morte, cativeiro, exílio; eis aí o Adão, o homem “adama - feito de barro” “à imagem e semelhança de Deus”, que falta a seu Criador e sem perder sua amizade — inicia uma existência errante, fora do Paraíso, com o prenúncio do Redentor.