Página inicial > Medievo - Renascença > Diadoco de Photiki Gouillard II

Diadoco de Photiki Gouillard II

terça-feira 29 de março de 2022

68. A maioria das vezes, nosso nous - intelecto tem dificuldade em aceitar a euche - oração, por causa da extrema restrição da virtude da euche - oração; em contrapartida, dedica-se com alegria à teologia, devido aos grandes espaços isentos das theoria - contemplações divinas. Para impedi-lo de querer falar demais e, na sua alegria, querer voar além dos seus meios, apliquemo-nos com maior freqüência à euche - oração, à salmodia, à anagnosis - leitura das Santas Escrituras, sem negligenciar as pesquisas dos sábios, cujas palavras são a garantia de sua pistis - fé. Agindo assim, não misturaremos nossas próprias palavras à linguagem da graça e não deixaremos a vangloria arrastar nosso espírito à agitação de uma verbosidade excessiva. Ao contrário, na hora da theoria - contemplação, nós o manteremos protegido de toda phantasia - imaginação; assim, acompanharemos de lágrimas quase todos os nossos logismos - pensamentos. Descansado na hora do anachoresis - retiro e principalmente penetrado pela praotes - mansidão da euche - oração, o nous - intelecto escapará às causas citadas. Mas, além disso, irá renovar-se cada vez mais, para dedicar-se aos logismos - pensamentos divinos, prontamente, e sem esforço; ao mesmo tempo, progredirá na theoria - contemplação, com disposição de discernimento muito humilde. Contudo, é preciso saber que existe uma euche - oração para além de qualquer liberdade: é a parte dos que foram imbuídos da santa graça, num sentimento de plerophoria - certeza absoluta.

73. Quando a alma se encontra na abundância de seus frutos naturais, aumenta o volume da sal-modia e prefere a euche - oração vocal. Quando é movida pelo Espírito Santo, ela salmodia em completa calma e suavidade e ora unicamente com o coração. A primeira disposição é acompanhada de uma alegria mista de phantasia - imaginação; a segunda, de lágrimas espirituais; depois, de uma alegria ávida de silêncio. Porque a lembrança, guardando o seu fervor, graças à discreção da voz, prepara o coração para gerar logismos - pensamentos misturados com lágrimas e com serenidade. É exatamente aí que se pode ver semear com lágrimas, na terra do coração, as sementes da euche - oração, na elpis - esperança das colheitas futuras. Todavia, quando estamos oprimidos por uma grande tristeza, devemos elevar um pouco a vez de nossa salmodia, fazendo vibrar a alma sob o arco alegre da elpis - esperança, até que essa pesada nuvem se dissipe ao som da melodia.

81. A palavra da ciência nos ensina que existem, por assim dizer, duas raças de espíritos maus, Uns são como que mais sutil, os outros mais materiais. Os mais sutis combatem a alma; os outros cativam a sarx - carne, por meio de abundantes consolações. Assim, uma hostilidade recíproca e constante opõe os demônios que combatem o soma - corpo aos que combatem a alma, embora partilhem o mesmo desígnio de prejudicar a humanidade. Quando, pois, a graça não habita no homem, eles se alojam nas profundezas do coração, ccmo serpentes, impedindo a alma de dirigir o olhar para o lado do desejo do bem. Quando a graça se esconde no nous - intelecto, esses demônios atravessam as partes do coração, como nuvens; tomam forma de paixões pecadoras e de distrações multiformes, para arrancar o nous - intelecto à sua familiaridade com a graça, distraindo a memória. Quando, pois, os demônios que perturbam a alma nos inflamam pelas paixões desta mesma alma, principalmente pelo hyperephania - orgulho, pai de todos os pecados, humilhemos o crescimento da vangloria, pensando na dissolução futura de nosso soma - corpo. Nossa atitude será a mesma, quando os demônios echthros - inimigos do soma - corpo se dedicarem a despertar, em nosso coração a fermentação dos maus desejos. Esse único logismos - pensamento, unido à mneme Theou - lembrança de Deus é suficiente para anular todas as espécies de maus espíritos...

83. O coração gera, de seu recôndito, os logismos - pensamentos bons e nãc bons. Não que ele traga em sua natureza os logismos - pensamentos que não são bons; mas adquiriu, depois do primeiro erro, o "hábito" da lembrança do mal. Recebe a maior parte dos maus logismos - pensamentos da malícia dos demônios... Pois, aquele que se compraz nos logismos - pensamentos que lhe sugere a malícia de Satã e que grava, por assim dizer, a lembrança destes no coração, vai gerar depois, evidentemente, aqueles logismos - pensamentos maus.

85. ... A graça, de início, dissimula sua presença a quem é batizado: ela espera a resolução da alma ‘. Uma vez convertido inteiramente o homem ao Senhor, então, por um sentimento inefável, a graça manifesta ao coração sua presença. Depois, mais uma vez, espera o movimento da alma; ela permite que as setas do demônio penetrem até o íntimo do seu sentido, para fazê-lo procurar Deus, com resolução mais ardente e disposição mais humilde.

Quando o homem começa a progredir na praktike - prática dos mandamentos e a invocar incansavelmente o Senhor Jesus, o fogo da santa graça ganha os sentidos mais exteriores do coração; ele consome o joio da terra dos homens, num sentimento de plerophoria - certeza. Daí em diante, as ciladas dos demônios não se aproximam muito dessas paragens; já quase não ferem e mal arranham a parte apaixonada da alma.

Uma vez revestido o combatente de todas as virtudes e sobretudo da pobreza perfeita, a graça ilumina então, de todos os lados, a sua natureza, num sentimento mais profundo ainda, e aquece-a com um grande amor de Deus. As setas dos demônios param antes de atingir o sentido do soma - corpo. A brisa do Espírito Santo impele o coração para o lado dos ventos pacíficos e pára as setas do demônio, enquanto ainda estão no ar.


Ver online : Philokalia