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Diadoco de Photiki Gouillard I

terça-feira 29 de março de 2022

36. Que, ao ouvir falar do sentimento do nous - intelecto, ninguém espere uma visão da glória de Deus. Dizemos que a alma, uma vez purificada, sente a consolação divina, num saborear inexprimível. Não queremos dizer que lhe apareçam objetos invisíveis, pois "caminhamos guiados pela pistis - fé e não pela visão plena" ( 2Cor 5,7 ). Se, pois, algum dos combatentes vir qualquer forma ígnea ou alguma luz, que não aceite essa visão. É um embuste do echthros - inimigo. Por ignorância, muitos têm sido vítimas disso e se têm afastado do caminho reto.

40. É impossível duvidar de que o nous - intelecto, quando começa a ser freqüentemente movido pela luz divina, se torne todo transparente, a ponto de ver com intensidade a sua própria luz. Isso acontece quando a potência da alma se tornou senhora das paixões. Mas, tudo o que se mostra ao nous - intelecto sob uma forma qualquer, luz ou fogo, provém das maquinações do adversário. O divino Paulo ensina-o claramente, quando diz que "ele se disfarça em aggelos - anjo de luz" ( 2Cor 11,14 ). Que não se vá, pois, abraçar a vida ascética impulsionado por uma elpis - esperança dessa natureza... mas o objetivo único é chegar a amar a Deus em toda intimidade e plenitude de coração...

56. A vista, o paladar e os outros sentidos afrouxam a memória do coração, quando nos servimos deles indiscretamente. Ensina-o nossa mãe Eva. Enquanto não olhou com complacência a árvore do mandamento, ela guardou cuidadosamente a lembrança do preceito divino. Por isso, ainda protegida, por assim dizer, pelas asas do amor divino, ignorava sua nudez. Mas, quando olhou a árvore com complacência, tocou-a com grande gastrimargia - cobiça e afinal saboreou seu fruto com intenso hedone - prazer, no mesmo instante foi tomada pelo desejo da união carnal, entregando-se à pathos - paixão por causa da sua nudez. Ela abandonou seu desejo ao gozo das coisas presentes, fazendo Adão participar de sua própria queda, pela doce aparência do fruto.

Aí está por que o nous - intelecto humano tem dificuldade em se lembrar de Deus e de seus mandamentos. Quanto a nós, não cessamos de fixar os olhos no abismo do coração, numa lembrança incessante de Deus; e percorremos essa vida amiga da mentira, como se fôssemos cegos. É próprio da sabedoria verdadeiramente espiritual, o cortar, sem cessar, as asas do nosso desejo de ver. Jó, o homem das mil provações, ensina-o: "se meu coração seguiu meus olhos" ( Jó 31,7 ). Essa disposição é o índice de uma perfeita enkrateia - temperança.

57. Aquele que sempre habita em seu coração, emigra inteiramente dos prazeres desta vida. Caminhando segundo o espírito, não pode conhecer as cobiças da sarx - carne. Ele anda, para lá e para cá, na fortaleza das virtudes; e as virtudes, direi eu, são as guardiãs da cidadela de sua katharotes - pureza. Por isso, também, as maquinações dos demônios são impotentes contra ele, mesmo que as flechas do vil amor cheguem até as seteiras da natureza.

58. ... Escaparemos a essa tibieza e a essa moleza, se impusermos limites muito estreitos ao nosso logismos - pensamento, fixando unicamente o logismos - pensamento de Deus. O nous - intelecto só poderá livrar-se daquela agitação insensata, fortalecendo dessa maneira o seu fervor.

59. Quando tivermos fechado todas as suas saídas através da mneme Theou - lembrança de Deus, o nous - intelecto exigirá, com grande empenho, uma atividade que lhe ocupe o zelo. Então nós lhe daremos o "Senhor Jesus", como única ocupação que corresponda inteiramente a seu objetivo. "Ninguém — está escrito — pode dizer: ‘Jesus é Senhor’, a não ser sob a praxis - ação do Espírito Santo" ( 1Cor 12,3 ). Mas, que ele não cesse de considerar essa palavra com todo o rigor possível, em suas moradas interiores, para não se desviar em imaginações. Pois, quem quer que rememore sem descanso esse nome santo e glorioso, no âmago de seu coração, chegará a ver também, um dia, a luz de seu nous - intelecto. Retido na alma, com severo cuidado, ele destrói toda mácula na superfície da alma, com um sentimento poderoso. "Nosso Deus — diz a Escritura — é um fogo devorador" ( Dt 4,24 ). Por isso o Senhor convida a alma a um intenso amor por sua glória. Esse nome glorioso e muito sedutor, fixado no coração ardente pela memória do nous - intelecto, faz nascer uma disposição para amar sempre a sua bondade, sem mais encontrar impedimento. Ei-la, a pérola preciosa que se pede adquirir vendendo todos os seus bens, e cuja descoberta provoca uma alegria indescritível.

60. Uma é a alegria do principiante, outra a do perfeito. A primeira não é isenta de phantasia - imaginação; a segunda tem o poder da tapeinophrosyne - humildade. A meio caminho encontra-se o sofrimento amado por Deus e as lágrimas sem dores... Por isso a alma deve ser primeiramente chamada ao agon - combate através da alegria inicial; depois, deve ser retomada e provada pela verdade do Espírito Santo, por causa dos pecados que cometeu e das dissipações de que ainda se torna culpada... Provada, por assim dizer, no cadinho da divina admoestação, a alma vai adquirir, numa fervorosa mneme Theou - lembrança de Deus, a operação da alegria sem fantasmas.

61. Quando a alma é perturbada pela ira, embaçada pelos vapores da embriaguez ou atormentada per uma tristeza malsã, o nous - intelecto é incapaz, seja qual for a violência que se lhe faça, de dominar a lembrança do Senhor Jesus. Entristecido, todo ele, pela violência das paixões, fica absolutamente estranho a seu próprio sentido. O desejo não encontra onde aplicar sua marca, de maneira que o nous - intelecto mantém presente a imagem de sua melete - meditação, tão dura se tornou a alma pela aspereza das paixões.

Que a alma se liberte, mesmo que o objeto de seu desejo lhe tenha sido, por um pouco, arrebatado pelo esquecimento; imediatamente, o nous - intelecto, com seu zelo costumeiro, volta à procura do objeto soberanamente desejado e salvador. Pois a alma tem, então, a graça que a habitua a clamar e clama com ela: "Senhor Jesus". Assim a mãe ensina e repete com seu bebê a palavra "papai", até que ele adquira o hábito de chamar o pai mesmo dormindo, mais que qualquer outro balbucio de criança. Como diz o Apóstolo  : "Assim também o Espírito socorre a nossa fraqueza. Pois não sabemos o que devemos pedir em nossas euche - orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis" ( Rm 8,26 ). Também nós estamos na infância, quanto à virtude da euche - oração; e sempre necessitamos sua ajuda a fim de que todos os nossos logismos - pensamentos sejam refreados e moderados por meie de sua suavidade inexprimível e para que nos voltemos, de todo o coração, para a lembrança e para o amor de Deus, nosso Pai. É nele que clamamos quando nos ensina a chamar sem descanso: "Abba Pai" ( Rm 8,15 ).


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