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Ο ‘êthos’ da Ética na Fenomenologia radical de Michel Henry

Rosa – Henry: o êthos da Ética

Humano e Inumano. A dignidade do Homem e os Novos Desafios

terça-feira 14 de setembro de 2021, por Cardoso de Castro

    

ROSA, José M. Silva. Ο ‘êthos  ’ da Ética na Fenomenologia radical de Michel Henry  , in Alves M.S.P., Santos J. M., Sá A.F  . de (Orgs.), Humano e Inumano. A dignidade   do Homem   e os Novos Desafios. Actas do II Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Filosofia Fenomenológica, 10 e 11 de Março de 2005 (Universidade de Coimbra), Revista Phainomenon  . Estudos de Fenomenologia, Lisboa, Centro   de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2006, pp. 279-290.

    

Digamo-lo de vez numa afirmação  : para Michel Henry  , o êthos   da Ética é a Vida enquanto poder de se auto-experienciar e de se auto-revelar. Tal é o seu lugar ontológico (”le site ontologique”), a sua morada originária. Falamos, porém, não do eidos   (ideia) da vida, mas da vida real  , concreta e invisível   de todos viventes, que não recebe injunções exteriores, à maneira de leis positivas, regras, normas, códigos, etc. Falar de Vida ética é, assim, uma redundância, porque a Vida é ética e o êthos é a Vida, num enlace patético primordial.

E para que a destempo não se pense que M. Henry envereda por qualquer vitalismo romântico ou irracional - orientação que, justamente, critica na vontade em Schopenhauer   e no ludus vitae de Nietzsche  : apesar da importância que deram à vida, erraram absolutamente   ao afirmarem-na impulso cego, absurdo e sem sentido, i.e., desconheceram radicalmente a natureza da Vida e o seu pathos   originário -, apresentemos um exemplo do próprio   autor, para que, a partir destes poderes primordiais da carne  , cheguemos à auto-revelação da Vida.

Propõe M. Henry:

“Pensemos num estudante de Biologia que está para ler uma obra sobre o código genético. A leitura da obra é a repetição, por um acto da própria consciência  , dos processos complexos de conceptualização e de teorização contidos no livro, quer dizer, significados pelos caracteres impressos. Mas à medida que lê e para que a sua leitura seja possível, o estudante vira as páginas do livro com as mãos, move os olhos para percorrer e de juntar   em si as linhas do texto, umas a seguir às outras. Quando estiver cansado pelo esforço intelectual, o estudante levantar-se-á, deixará a biblioteca, descerá por uma escada para ir ao bar descansar um pouco, comer e beber alguma coisa. O saber contido na obra de biologia e que o estudante assimilou ao longo da leitura, é o saber científico. A própria leitura da obra é a execução de um saber da consciência: a intuição   das palavras, a captação dos significados que elas têm. O saber que tomou possível o movimento   das mãos, o dos olhos, o acto de se levantar, de descer a escada, de beber e de comer, o próprio repouso  , é o saber da Vida.” [1]

Encontramos neste exemplo de M. Henry, três tipos de saberes: os científicos e objectivos; os da consciência e os saberes imediatos da Vida. Estes últimos, de costume  , permanecem saberes e poderes esquecidos, despercebidos, no anonimato - é sobretudo quando nos faltam que nos apercebemos de como são primordiais. Se perguntarmos a alguém qual dos três saberes considera mais importante, é provável que, eivado de ideologia positivista, responda que é o da Biologia, sem referir sequer o da consciência que o possibilita e muito menos o da Vida. Até certo ponto, é compreensível este esquecimento  , visto a “vida não ter nenhum objecto, pois a sua essência   não é de relação   com um objecto.” A vida é auto-revelação e auto-afectividade: junta, junge, unifica; não separa, não objectiva, não põe à distância para ver num horizonte   de luz. “Se o saber presente   no movimento de mexer as mãos, e que o toma possível, tivesse [que ter] um objecto (...) tal movimento jamais se produziría,” [2] Porque o je peux presente em todos os poderes humanos [3] a começar pelos mais humildes e imediatos, ligados à sensibilidade e à carne sensível e senciente, só é possível na imanência   absoluta da subjectividade, quer dizer, na Fenomenalidade pura da Vida, que a si mesma se experiência, se frui e se padece, qual ontológica e primordial paciência de ser. É neste sentido que a Vida é um pathos originário: “Cet accroissement de la vie (...) est bien un pathos, un s’éprouver soi-même”, e isto é “quelque chose qu’elle subit constament dans un subir   plus fort que sa liberté” [4].

É, pois, na auto-revelação da Vida absoluta, como doação passiva para si mesma, que também cada Soi-même é dado e vem a ser, não apenas como eu transcendental, mas como vivente, singular, concreto, nas suas moções mais secretas e humildes e em todos os seus poderes. Não é, portanto, a vida ideal, noemática, essência abstracta, mas a vida concreta dos viventes (o Pedro, a Ivete) a começar pelos poderes mais experienciais e basilares do homem  , ligados aos poderes do corpo vivido, i.e., da carne. Poderes mínimos, que são nossos num poder que nos é anterior  . As modalidades subjectivas mais imediatas para nós   desta passividade são o sentir-se a sentir, o ver-se a ver (videre videor) o padecer-se (de pathos), ser para si mesmo   uma doação originária que, depois, todas as outras modalidades da nossa subjectividade assumem: a alegria, o prazer, o medo, a dor  , a satisfação, a tristeza   e assim por diante. (O ‘ethos’ da Ética, p. 10-13)


Ver online : O ‘ethos’ da Ética


[1Michel HENRY, “Question de la vie et de la culture...”, pp. 17-18.

[2Michel HENRY, “Question de la vie et de la culture...”, p. 18.

[3Cf. as várias dimensões deste je peux em Paul Ricoeur, Soi-même comme un autre, Paris, Éditions du Seuil, 1990.

[4Michel HENRY, “Question de la vie et de la culture...”, p. 21; Cf. igualmente Michel Henry, ’épreuve de la vie (Actes du Colloque de Cerisy 1996, sous la dir. d’Alain David et de Jean Greisch), Paris, Cerf, 2001.