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Gregorio Palamas Hesicastas

terça-feira 29 de março de 2022

Constata, meu irmão, que a razão vem juntar  -se às considerações espirituais, para mostrar a necessidade de fazer voltar o espírito e de mantê-lo dentro do corpo (soma) — quando aspiramos a ser realmente senhores de nossas paixões e a nos tornarmos verdadeiros monges segundo o homem interior. Portanto, não é descabido convidar, sobretudo os principiantes, a olharem para si mesmos e a introduzirem em si próprios o espírito, ao mesmo tempo que a respiração. Que espírito sensato desviaria aquele que ainda não conseguiu contemplar-se, de empregar certos processos para trazer de volta a si o espírito? É verdade que, naqueles que acabam de entrar na liça, nem bem o espírito é congregado, ele se dissipa. É necessária realmente a mesma obstinação para trazê-lo de volta. Noviços ainda, não percebem que nada no mundo é mais insubmisso ao auto-exame  , nem mais disposto a se dispersar. É por isso que alguns lhes recomendam o controle do vaivém da respiração, retendo-a um pouco, de modo a reter o espírito, ao mesmo tempo em que permanecem na inspiração. Esperando que, com a ajuda   de Deus, tenham feito progressos, purificado o espírito, tenham-no privado do mundo exterior, e possam trazê-lo de volta, perfeitamente, numa concentração unificadora.

Todos podem constatar nisso um efeito espontâneo   da atenção   (epimeleia  ) do espírito: o vaivém da respiração torna-se mais lento em todo ato de reflexão   intensa; isso acontece particularmente com os que praticam a quietude do espírito e do corpo (soma). Esses celebram verdadeiramente o sabá espiritual; suspendem todas as obras pessoais, suprimem, o quanto possível, a atividade   móvel e cambiante, negligente   e múltipla das potências cognitivas da alma (psyche), e ao mesmo tempo toda a atividade   dos sentidos; em resumo, toda a atividade corpórea dependente de nossa vontade. Quanto às que não dependem inteiramente de nós, como a respiração, reduzem-na o mais possível. Esses efeitos produzem-se espontaneamente e sem pensar, nos adiantados na prática hesicasta; acontecem necessariamente e por si mesmos, na alma (psyche) perfeitamente introvertida.

Nos principiantes, isso não acontece sem dificuldade  . Façamos uma comparação  : "A paciência é fruto   da caridade (agape) — a caridade (agape), de fato, suporta tudo" ( 1Cor 13,7 ) — ora, não nos ensinam a empregar todos os meios para obter e atingir assim a caridade (agape)? Este é o mesmo caso. Todos os que possuem experiência, riem das objeções da inexperiência. O seu mestre não exorta ao discurso, mas o que ele gera é o esforço e a experiência. A experiência que produz um fruto útil e joga por terra   as palavras estéreis dos trapaceiros.

Um grande doutor escreveu que, "depois da transgressão, o homem interior modela-se pelas formas exteriores". Por conseguinte, quem quer introverter o espírito e impor-lhe o movimento circular e infalível em lugar do movimento longitudinal, vai certamente tirar grande proveito do fato de fixar o olho sobre o peito ou sobre o umbigo, ao invés de fazê-lo passear de um lado para outro. Encc lhendo-se exteriormente em círculo, ele imita o movimento interior do espírito e, por essa atitude do corpo (soma), introduz no coração (kardia) a potência do espírito, que a vista propaga. Se é verdade que a potência da besta interior tem a sua sede na região do umbigo e do ventre, onde a lei do pecado exerce seu império e lhe fornece alimento  , per que não estabelecer precisamente aí, toda armada com a oração (euche), a lei oposta à primeira? A finalidade é impedir que o espírito mau, expulso pelo banho de regeneração, volte com sete espíritos piores do que ele, para ali instalar-se uma segunda vez, e que a nova situação   seja pior   que a primeira ( Lc 11,26 ).

"Cuida-te", disse Moisés ( Dt 15,9 ). A ti, inteiro. Sem excluir isto ou aquilo. Como? Pelo espírito! Não existe outro meio de cuidar-se. Instala essa vigilância (nepsis) diante da tua alma (psyche) e do teu corpo (soma); ela te libertará facilmente das más paixões da alma (psyche) e do corpo (soma)... Não deixes de vigiar nenhuma parte da tua alma (psyche), nem do teu corpo (soma). Assim, vencerás a zona das tentações inferiores e te apresentarás com segurança àquele que "escruta os rins e os corações", pois tu mesmo os terás escrutado antes. Julguemo-nos a nós mesmos e não seremos julgados" ( ICor 11,31 ). Partilharás a bem-aventurada experiência de Davi: "As trevas não mais serão escuras, a noite resplandece como o dia, porque me formaste as entranhas" ( Si 138,12 ). Não só fizeste tua toda a parte concupiscível de minha alma (psyche), porém, se restava em meu corpo (soma) algum foco desse desejo, tu o reconduziste à origem   e, pela própria força desse desejo, ele voou para ti, uniu-se a ti. Os que se dedicam aos prazeres sensíveis da corrupção, esgotam na carne toda a potência de desejo de sua alma (psyche) e tornam-se, assim, inteiramente carne. O Espírito nãc poderia morar neles. Ao contrário, naqueles que elevaram o espírito a Deus, que fixaram a alma (psyche) no amor de Deus, a carne transformada partilha o impulso do espírito e junta-se a ele na comunhão divina. Também ela se torna tanto o domínio como a casa de Deus: não mais abriga a inimizade divina, nem mais tem desejos contra o espírito.

O que é mais visado pelo espírito da carne, que nos invade, de baixo? O espírito ou a carne? Não é a carne, que não abriga nada de bom, diz o Apóstolo, enquanto não habitar nela a lei da vida? Excelente razão para nunca deixar de vigiá-la. Como teríamos autoridade sobre ela? Como impedir que o inimigo lhe tenha acesso? Nós, sobretudo, que ainda não temos a ciência espiritual desejada para repelir os espíritos do mal, a não ser afazendo-nos a essa atenção (epimeleia) por meio de uma atitude exterior? Por que citar os que começaram recentemente a obra, quando se vêem outros bem mais perfeitos utilizarem essa atitude na oração (euche) e cativarem, assim, a benevolência   de Deus? E isso, não apenas entre os que vieram depois da chegada de Cristo   entre nós, mas até entre os que a precederam. O próprio Elias  , consumido na teopsia, apóia a cabeça nos joelhos, congrega valentemente o espírito em si mesmo e em Deus, e assim põe fim a uma seca de vários anos.

As pessoas cujas palavras me relatas, parecem participar do mal do fariseu... menosprezam a atitude da oração (euche) justificada do publicano e exortam os outros a não o imitar em suas próprias orações. "Não ousava sequer levantar os olhos para o céu", diz o Senhor ( Lc 18,13 ). Imitam-no, ao contrário, os que ao orar fixam os olhos sobre si mesmos. Quem lhes dá o apelido de omphalopsyques ( os que têm ou põem a alma (psyche) no umbigo ) caluniam os adversários — qual deles alguma vez pôs a alma (psyche) no umbigo? Comportam-se, além disso, como detratores de práticas louváveis e não como corretores de erros. Porque não é a causa da vida hesicasta e da verdade que os leva a escrever  , mas a vaidade  . Não é o desejo de levar à sobriedade (nepsis), mas de afastar dela. Empenham-se, por todos os meios, em destruir a obra e os que a ela se dedicam zelosamente. Poderiam também chamar koiliopsyques a quem disse: "Meu ventre (koilid ) vibrará como uma harpa..." ( Is 16,11 ) e incluir na mesma calúnia os que representam, designam e procuram alcançar as realidades invisíveis, por meio de símbolos corpóreos...

Conheces a vida de Simeão, o Novo Teólogo, seus escritos... e Nicéforo, o hagiorita... Eles ensinam claramente aos principiantes o que alguns combatem, como me estás dizendo. E por que limitar-me aos santos do passado  ? Homens, aos quais o poder do Espírito Santo deu testemunho, ensinaram-nos tudo isso por sua própria boca: Teolepto, bispo de Filadélfia, Atanásio, o Patriarca ( fim do século XIII — começo do XIV )... Tu os ouves, todos, e quantos outros antes deles, com eles e depois deles, convidar à guarda   dessa tradição   que nossos novos mestres de hesicasmo... aplicam-se em menosprezar, deformar e destruir, sem proveito para seus ouvintes. Nós mesmos vivemos com alguns dos santos de maior renome; foram nossos mestres. Como deixaríamos de levar em conta os que foram formados pela experiência aliada à graça (kharis), para ir atrás dos que não têm, para ensinar  -nos, nenhum outro título além do próprio orgulho? É impossível; não pode ser.

Foge dessas pessoas, e torna a dizer a ti mesmo, prudente, seguindo Davi: "Bendize, ó minha alma (psyche), ao Senhor, e tudo o que existe em mim bendiga o seu santo nome!" ( Sl 102,1 ). Escuta documente os pais e escuta os seus conselhos sobre a maneira de fazer vir de volta o espírito.


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