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EU SOU ISSO

Nisargadatta (Eu Sou:1) – o que há antes de vir a ser

YO SOY ESO

sábado 10 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

Antes que uma coisa venha a ser, é preciso que haja uma pessoa   a quem ela possa se manifestar. Todo aparecimento, como todo desaparecimento, pressupõe uma mudança   em relação a um plano de fundo imutável  .

    

tradução

Q: Ao acordar o mundo surge; todos os dias nós temos esta experiência. De onde isto vem? (ou como isto acontece?).
M: Antes que uma coisa venha a ser, é preciso que haja algo a que ela possa se manifestar. Todo aparecimento, como todo desaparecimento, pressupõe uma mudança   em relação a um plano de fundo imutável  .

Q: Antes de acordar eu estava inconsciente.
M: Em que sentido? De ter esquecido, ou de não ter sentido nada? Mesmo inconsciente você não sente nada? Você pode existir sem saber? Um buraco na memória é uma prova de não-existência? E você pode verdadeiramente falar de sua própria não existência como de uma experiência real? Você nem mesmo pode dizer que seu mental   não existia. É um chamado que o despertou? E despertando não é a sensação  eu sou  ” que inicialmente se manifestou? Uma espécie se semente   de conscientidade   [consciousness] devia existir, mesmo durante seu sono ou seu desvanecimento. Ao despertar   a experiência se desencadeia assim: “Eu sou ... o corpo ... no mundo”. Isto pode ter a aparência de uma sucessão, mas, na verdade, há simultaneidade: a ideia de ter um corpo no mundo. Pode existir (ou haver) a sensação do “eu sou” se não há alguém ou alguma outra coisa?

Q: Eu sou sempre alguém com suas lembranças e hábitos. Eu não conheço nenhum outro “eu sou!”.
M: Talvez alguma coisa o impeça de conhecer. Quando você não conhece uma coisa que outros conhecem, o que você faz?

Q: Eu procuro a fonte   do conhecimento seguindo as indicações.
M: Não e importante para você saber se você é um simples corpo ou alguma coisa outra? Ou talvez nada? Você não vê que todos os seus problemas são os do seu corpo: alimentação, vestimenta  , casa  , amigos, nome, reputação, segurança, sobrevivência, tudo isto perde sentido quando você realiza que você pode não ser um simples corpo.

Q: Qual benefício eu teria de saber que não sou este corpo?
M: Até mesmo dizer que você não é o corpo não é de todo verdade. De certa maneira você é tudo, os corpos, os corações, os espíritos, e muito mais ainda. Mergulhe profundamente na sensação “eu sou” e encontrará. Como reencontrar algo perdido ou esquecido? Você a guarda presente   no espírito   ate que ela venha a você. A sensação de ser do “eu sou” é a primeira a emergir. Pergunte-se de onde ela vem ou contente-se de a contemplar com calma  . Quando o mental se fixa, imóvel, sobre “eu sou” você entra em um estado   que você não pode exprimir, mas você pode experienciar. Tudo que você tem a fazer é tentar sem cessar. Apesar de tudo, esta sensação “eu sou” lhe é sempre presente, mas você a transplantou para todo gênero   de coisas: corpo, sentimento, pensamento, opinião  , posses interiores ou exteriores etc. Por causa   delas você se tem por algo que você não é.

Q: Mais então o que sou eu?
M: Basta saber o que você não é. Você não precisa saber o que você é. Porque conhecimento significa descrição em função do que já é conhecido, percepções ou conceitos, não pode haver conhecimento de si, pois o que você é só pode ser descrito como negação de tudo.Tudo que você pode dizer é: “Eu não sou isto, eu não sou aquilo”, você não pode sensatamente dizer: “Eis o que eu sou”. Isto não tem sentido. O que você pode designar por isto ou aquilo não pode ser você. Assim como você não pode ser qualquer outra coisa. Você não é nada de imaginável. No entanto, sem você, não pode haver nem percepção nem imaginação  . Você observa seu coração   sentir, seu mental pensar, seu corpo agir; o fato mesmo de perceber mostra que você não é o que percebe. Pode existir uma experiência ou percepção sem você? Uma experiência “deve pertencer à”. Alguém deve reclamá-la como sua. Sem experimentador a experiência não tem realidade. É o experimentador que dá sua realidade a experiência. Que valor   teria uma experiência que você não pudesse ter (experienciar)?

Q: A sensação de ser o experimentador, a sensação do “eu sou”, não é também uma experiência?
M: Evidentemente toda coisa experimentada é uma experiência. E cada experiência manifesta o seu experimentador. A memória cria a ilusão   da continuidade  . Na realidade cada experiência tem seu próprio experimentador e a impressão de identidade   é devida ao fato comum que é a raiz de toda relação experiência-experimentador. Identidade e continuidade não são a mesma coisa. Da mesma forma que cada flor   possui sua cor própria, mas todas as cores são causadas pela mesma luz, os experimentadores aparecem nas cosncientidades puras, indivisas e indivisíveis, separados na sua memória, idênticos na sua essência  . Esta essência é a raiz, a base, a possibilidade atemporal e não-espacial para toda experiência do aparecer  .

Q: Como posso eu alcançá-la?
M: Você não tem que alcançá-la, você é ela. Isto virá a você se a der uma chance. Liberte-se de seu apego ao irreal e o real tomara lugar rapidamente e sem contrariedades. Cesse de imaginar que você existe, ou que você faz isso e aquilo, e você realizará que você é a fonte e o coração de todas as coisas. Então surgirá um grande amor que não será uma escolha  , nem uma predileção, nem um apego, mas um poder que torna todas as coisas amáveis e dignas de amor.

Original

Q: It is a matter of daily experience that on waking up the world suddenly appears. Where does it come from? — M: Before anything can come into being there must be somebody to whom it comes. All appearance and disappearance presupposes a change against some changeless background.

Q: Before waking up I was unconscious. — M: In what sense? Having forgotten, or not having experienced? Don’t you experience even when unconscious? Can you exist without knowing? A lapse in memory: is it a proof of non-existence? And can you validly talk about your own non-existence as an actual experience? You cannot even say that your mind   did not exist. Did you not wake up on being called? And on waking up, was it not the sense ‘I am’ that came first? Some seed consciousness must be existing even during sleep, or swoon. On waking up the experience runs: ‘I am — the body — in the world.’ It may appear to arise in succession but in fact it is all simultaneous, a single idea of having a body in a world. Can there be the sense of ‘I am’ without being somebody or other?

Q: I am always somebody with its memories and habits. I know no other ‘I am’. — M: Maybe something prevents you from knowing? When you do not know something which others know, what do you do?

Q: I seek the source of their knowledge under their instruction. — M: Is it not important to you to know whether you are a mere body, or something else? Or, maybe nothing at all? Don’t you see that all your problems are your body’s problems — food, clothing, shelter, family, friends, name, fame, security, survival — all these lose their meaning the moment you realise that you may not be a mere body.

Q: What benefit is there in knowing that I am not the body? — M: Even to say that you are not the body is not quite true. In a way you are all the bodies, hearts and minds and much more. Go deep into the sense of ‘I am’ and you will find. How do you find a thing you have mislaid or forgotten? You keep it in your mind until you recall it. The sense of being, of ‘I am’ is the first to emerge. Ask yourself whence it comes, or just watch it quietly. When the mind stays in the ‘I am’ without moving, you enter a state which cannot be verbalised but can be experienced. All you need to do is try and try again. After all the sense ‘I am’ is always with you, only you have attached all kinds of things to it — body, feelings, thoughts, ideas, possessions etc. All these self-identifications are misleading. Because of them you take yourself to be what you are not.

Q: Then what am I? — M: It is enough to know what you are not. You need not know what you are. For as long as knowledge means description in terms of what is already known, perceptual, or conceptual, there can be no such thing as self-knowledge, for what you are cannot be described, except as except as total negation. All you can say is: ‘I am not this, I am not that’. You cannot meaningfully say ‘this is what I am’. It just makes no sense. What you can point out as ‘this’ or ‘that’ cannot be yourself. Surely, you can not be ‘something’ else. You are nothing perceivable, or imaginable. Yet, without you there can be neither perception nor imagination. You observe the heart feeling, the mind thinking, the body acting; the very act of perceiving shows that you are not what you perceive. Can there be perception, experience without you? An experience must ‘belong’. Somebody must come and declare it as his own. Without an experiencer the experience is not real. It is the experiencer that imparts reality to experience. An experience which you cannot have, of what value is it to you?

Q: The sense of being an experiencer, the sense of ‘I am’, is it not also an experience? — M: Obviously, every thing experienced is an experience. And in every experience there arises the experiencer of it. Memory creates the illusion of continuity. In reality each experience has its own experiencer and the sense of identity is due to the common factor at the root of all experiencer-experience relations. Identity and continuity are not the same. Just as each flower has its own colour, but all colours are caused by the same light, so do many experiences appear in the undivided   and indivisible awareness, each separate in memory, identical in essence. This essence is the root, the foundation, the timeless and spaceless ‘possibility’ of all experience.

Q: How do I get at it? — M: You need not get at it, for you are it. It will get at you, if you give it a chance. Let go your attachment to the unreal and the real will swiftly and smoothly step into its own. Stop imagining yourself being or doing this or that and the realisation that you are the source and heart of all will dawn upon you. With this will come great love which is not choice or predilection, nor attachment, but a power which makes all things love-worthy and lovable.

2. Obsession with the body

Q: Maharaj, you are sitting in front of me and I am here at your feet. What is the basic difference between us? — M: There is no basic difference.

Q: Still there must be some real difference, I come to you, you do not come to me. — M: Because you imagine differences, you go here and there in search of ‘superior’ people.

Q: You too are a superior person. You claim to know the real, while I do not. — M: Did I ever tell you that you do not know and, therefore, you are inferior  ? Let those who invented such distinctions prove them. I do not claim to know what you do not. In fact, I know much less than you do.

Q: Your words are wise, your behaviour noble, your grace all-powerful. — M: I know nothing about it all and see no difference between you and me. My life is a succession of events, just like yours. Only I am detached and see the passing show as a passing show, while you stick to things and move along with them.

Q: What made you so dispassionate? — M: Nothing in particular. It so happened that I trusted my Guru. He told me I am nothing but my self and I believed him. Trusting him, I behaved accordingly and ceased caring for what was not me, nor mine.

Q: Why were you lucky to trust your teacher fully, while our trust is nominal and verbal? — M: Who can say? It happened so. Things happen   without cause and reason and, after all, what does it matter, who is who? Your high opinion of me is your opinion only. Any moment you may change it. Why attach importance to opinions, even your own?

Q: Still, you are different. Your mind seems to be always quiet and happy. And miracles happen round you. — M: I know nothing about miracles, and I wonder whether nature admits exceptions to her laws, unless we agree that everything is a miracle. As to my mind, there is no such thing. There is consciousness in which everything happens. It is quite obvious and within the experience of everybody. You just do not look carefully enough. Look well  , and see what I see.

Q: What do you see? — M: I see what you too could see, here and now, but for the wrong focus of your attention. You give no attention to your self. Your mind is all with things, people and ideas, never with your self. Bring your self into focus, become aware of your own existence. See how you function, watch the motives and the results of your actions. Study the prison you have built around yourself by inadvertence. By knowing what you are not, you come to know your self. The way back to your self is through refusal and rejection. One thing is certain: the real is not imaginary, it is not a product of the mind. Even the sense ‘I am’ is not continuous, though it is a useful pointer; it shows where to seek, but not what to seek. Just have a good look at it. Once you are convinced that you cannot say truthfully about your self anything except ‘I am’, and that nothing that can be pointed at, can be your self, the need for the ‘I am’ is over — you are no longer intent on verbalising what you are. All you need is to get rid of the tendency to define your self. All definitions apply to your body only and to its expressions. Once this obsession with the body goes  , you will revert to your natural state, spontaneously and effortlessly. The only difference between us is that I am aware of my natural state, while you are bemused. Just like gold made into ornaments has no advantage over gold dust, except when the mind makes it so, so are we one in being — we differ only in appearance. We discover it by being earnest, by searching, enquiring, questioning daily and hourly, by giving one’s life to this discovery.


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