PhiloSophia

PHILO = Apreço + SOPHIA = Compreensão

Version imprimable de cet article Version imprimable

Accueil > Ocidente > Michel Henry (1922-2002) > Henry (GP:57-59) – "Ao menos, parece-me que eu vejo"

Genealogia da psicanálise

Henry (GP:57-59) – "Ao menos, parece-me que eu vejo"

Videre videor

lundi 13 septembre 2021

Excerto de HENRY, Michel. Genealogia da psicanálise. O começo perdido. Tr. Rodrigo Vieira Marques. Curitiba : Editora UFPR, 2009, p. 57-59.

O cogito encontra a sua formulação? última na proposição videre videor : parece-me que eu vejo. Lembremo-nos brevemente do contexto em que se inscreve essa asserção decisiva. Tanto na Segunda Meditação como nos Princípios (I, 9), Descartes acaba de praticar a epoché radical, em sua linguagem?, duvidou de tudo, desta terra na qual põe os pés e anda, de seu quarto e de tudo o que vê nele, do mundo? inteiro, o qual talvez não passasse por fim de ilusão? e sonho. Em todo caso, ele vê tudo isso, mesmo que essas aparências sejam falsas e ele durma. A epoché, no entanto, atinge o próprio Descartes na medida em que ele pertence a este mundo, enquanto homem?. Logo, ela atinge seu corpo, suas pernas e seus olhos : nada disso existe. Que significa, então, ver, ouvir, sentir calor para um ser que não tem olhos, nem corpo [58] e que talvez nem exista ? “At certe videre videor, audire, calescere” : “Ao menos, parece-me que eu vejo, que eu ouço, que eu me aqueço” [1]. Por acaso, o que permanece no término da epoché não será essa visão, a pura visão considerada em si mesma, reduzida a si mesma, a essa pura experienciação [épreuve] de si mesma, abstração? feita de toda relação a presumíveis olhos, a um dito corpo, a um pretendido mundo ? Mas se a pura visão subsiste como tal, a título de “fenômeno?”, o que é visto nela não subsistirá também, a esse título, a título de simples fenômeno : essas árvores com suas formas coloridas ou pelo menos essas aparências de formas e de cores, esses homens com seus chapéus ou, pelo menos, essas aparências de manchas e de vestes ? Não continuarão a aparecer, essas aparências, tais como elas aparecem ? Assim consideradas, não permanecerão a título de dados indubitáveis ?

A essa questão, repleta de consequências, o cartesianismo do começo respondeu pela negativa. Essas formas não são tal como acredito vê-las, pois eu acredito ver formas reais, ao passo que elas pertençam, talvez, ao universo do sonho no qual nada há de real. Sejamos mais precisos : uma visão que não é visão dos olhos é capaz de ver algo completamente distinto das pretendidas formas e cores ; ela vê que dois mais três é igual a cinco, que a soma dos ângulos internos de um triângulo sempre equivale a dois ângulos retos [a 180°] etc. Ora, Descartes supõe que tudo isso possa ser falso, e chega até a afirmar tal falsidade. Entretanto, se tais conteúdos são falsos, embora claramente apercebidos, só pode ser porque a própria visão é falaciosa, porque o olhar é, em si mesmo, de tal natureza? que o que vê não é tal como vê, nem mesmo é em absoluto? ; só pode ser propriamente porque a visão esteja distorcida e porque, de certo modo, não veja, e esteja, pois, acreditando ver algo quando nada existe, acreditando nada ver aí, onde talvez tudo já esteja presente.

O caminho bem conhecido da epoché cartesiana se afunda bruscamente sob nossos passos e tudo se oculta. O que essa epoché produz, o que se cumpre propriamente nela pela primeira vez é, diríamos, a clara diferença entre o que aparece e o aparecer como tal, de tal maneira que, pondo provisoriamente fora de cena o primeiro, libera o segundo e o propõe como fundamento. Ora, é esse fundamento que vacila agora, é o próprio aparecer e como tal que está em questão — na medida em que esse aparecer é um ver e na medida em que o texto cartesiano o designa assim. O ver é recusado porque o que é visto não é, de modo exato, tal como nós o vemos, porque a aparência na qual ao menos se acreditava — porquanto se limitava a ela [59] como a uma simples aparência — ser tal como aparece — não é isso e talvez não o seja em absoluto. A dúvida, como se sabe, alcança todas as suas dimensões tão-somente quando, como dúvida metafísica e hiperbólica, cumpre a subversão das verdades eternas. Ora, uma tal subversão das essências apenas é possível se previamente pôr em causa outra coisa, a saber, o meio de visibilidade em que tais conteúdos essenciais são visíveis. É esse meio de visibilidade e o ver que se funda nele que, no término da epoché, perdem seu poder de evidência e de verdade, o seu poder de manifestação.


Voir en ligne : Genealogia da psicanálise


[1Seconde Méditation, FA, II, p. 186, 422 ; AT, VIII, p. 29, IX, p. 23.