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Genealogia da psicanálise

Henry (GP:55-57) – “É a alma que vê e não o olho”

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segunda-feira 13 de setembro de 2021, por Cardoso de Castro

    

Excerto   de HENRY, Michel. Genealogia da psicanálise. O começo perdido. Tr. Rodrigo Vieira Marques. Curitiba: Editora UFPR, 2009, p. 55-57.

    

Contudo, o cartesianismo do começo exaure-se na instituição de uma diferença   essencial entre o que cumpre a obra do aparecer   e o que se mostra, pelo contrário, incapaz disso. Semelhante diferença é a que se encontra entre a alma   e o corpo: a alma retira a sua essência   do aparecer e [56] designa-o, precisamente, enquanto pertencente, pelo contrário, ao corpo, e isso por princípio, como ser desprovido do poder da manifestação. “Alma”, enquanto efetuação e efetividade fenomenológica do aparecer originário, não tem, por conseguinte, nada em comum com o que denominamos hoje “pensamento  ”, isto é, com o fato de “pensar que”, de “conceber que”, de “imaginar que”, de “julgar que”, de “considerar que”, mas é essa alma, que não é o meinen [1] da filosofia moderna, que Descartes   opõe brutalmente ao ente  . Assim se esclarece, por sua vez, a polêmica contra Bourdin, pois impede-se ao máximo a possibilidade de que seja entendida a real distinção existente entre a alma e o corpo quando se suprime a verdadeira e inteligibilíssima diferença que há entre as coisas corporais e as incorporais, a saber, que estas pensam e que as outras não pensam, substituindo-a, assim, por outra que não pode ter o caráter de uma diferença essencial, a saber, que estas consideram que pensam e que as outras não o consideram [2].

Não é, pois, a dúvida que no cogito conduz ao sum. A dúvida é um “considerar que”, um meinen. Eu duvido que haja algo que seja certo. A certeza   que lhe segue e na qual se transforma também não tem nada em comum com o sum, ela é, por sua vez, um “considerar que”, um “pensar que”. “Eu penso que certamente eu sou  , uma vez que, para que eu possa pensar, é preciso que eu seja” etc. O que conduz ao sum, o prévio cartesiano do ser, é o aparecer que reina na dúvida, assim como no “eu me passeio”, uma vez que aparecer é uma determinação da alma.

Porquanto o pensamento designa, inicialmente em Descartes, o aparecer sob sua forma originária, a diferença da alma, idêntica a esse pensamento, e do corpo, que lhe é por princípio estranho, é uma diferença ôntico-ontológica. Porquanto o corpo exprime, para Descartes, o elemento   heterogêneo à manifestação, todas as determinações corporais, como o olho, são cegas. “É a alma que vê e não o olho” [3]. É por isso que os animais  , embora tenham olhos, não veem, e isso não se refere apenas às toupeiras. O mecanismo cartesiano não significa, primeiramente, uma certa concepção da vida biológica — vários [57] textos concebem o corpo humano à maneira de Goldstein [4], como uma unidade   orgânica [5] —, no entanto, é a heterogeneidade irredutível do ente à verdade do ser que Descartes formula com radicalidade. A redução fenomenológica produzida pelo cogito é a efetivação dessa diferenciação, a separação   entre o aparecer do aparecer e o que nele aparece enquanto este ou aquele e que não é mais o aparecer do próprio aparecer. Ela é a supressão do que aparece, “o corpo”, em proveito do aparecer, “a alma” — supressão que não significa, aliás, a simples suspensão de seu sentido de ser, mas o seu mergulho no nada. E é precisamente porque o aparecer define o ser que seu desnudamento na redução do cogito é uno com a posição   do sum.

Nossa última observação   diz respeito à aplicação das categorias   metafísicas de essência e de existência ao começo cartesiano, e isso a fim de esclarecê-lo. Um tal uso é certamente impróprio, caso se admita que a dicotomia essência/existência provenha da simples pressuposição da facticidade do ente, a partir do qual formula-se, então, a questão de saber o que ele é, a questão da essência que, como modalidade de ser do ente [Seindheit], encobre, desde então, a modalidade do ser. Em resposta   à objeção segundo a qual eu poderia saber “diretamente que eu sou, mas não o que eu sou”, Descartes afirmou, de modo abrupto, que “um não se demonstra sem o outro” [6]. A não-dissociação da essência e da existência no seio do começo é una com ele: quando o aparecer prodigaliza a sua essência em um reino originário, é a existência no sentido originário, ontológico, é o ser que está aí para nós. A questão da essência do aparecer nos conduz, entretanto, ao coração   do cartesianismo.


Ver online : Genealogia da psicanálise


[1Esta palavra alemã pode indicar o ato de “achar” no sentido de expressar uma opinião [Meinung] acerca de algo, logo “um considerar que”, indicando também o ato de deter-se em algo, de visar alguma coisa, tendo por referência o verbo latino “intendere” (N. do T.).

[2Réponses aux Septièmes Objections, FA, II, p. 1071 ; AT, VII, p. 559.

[3Dioptrique, Discours VI, FA, I, p. 710; AT, VI, p. 141.

[4Cf. Kurt Goldstein, Der Aubau des Organismus, Martinus Nijhoff, 1934 — Trad. Inglesa: The Organism (N. do T.).

[5Les passions de l’âme, FA, III, p. 976; AT, XI, p. 351: “Ele é um e de algum modo indivisível, em razão da disposição de seus órgãos que se relacionam de tal modo todos um com o outro que quando algum deles é retirado, isto torna todo o corpo defeituoso”.

[6Réponses aux Cinquièmes Objections, FA, II, p. 801 ; AT, VI, p. 359.