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Eremitas de Saccidananda

Henri le Saux (ES) – Eremita

quinta-feira 15 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

OM  ! SACCIDÂNANDÂYA NAMAH - EM NOME DA IGREJA  

    

«A verdade sobre Deus  , quando O encontramos, é (que Ele é) santo», exclamava Al-Hallaj, talvez, dentre os místicos muçulmanos, o que mais de perto se aproximou desse Deus, «bloco de santidade   impenetravelmente denso  ».

A Índia apreendeu profundamente o numinoso, a ambiguidade  , o terror e a alegria   do sagrado  : desde as deusas arcaicas (fragmentos da grande Mãe   neolítica, ambígua como a vida?), bruxas e guardas de crianças; através da Prakriti   (prakriti : natureza), tenebrosa, opaca, tumultuosa, mas também dotada de luminosidade translúcida e serena; através do Çakti: poder divino muitas vezes personificado), duro   como o destino (karman  ) e doce como a graça   (prasâda); através de maya   [1] enfim, lugar de todo irracional, cósmico   ou noáquico (do hebraico Noach, Noé), paradoxalmente definido pelo próprio Çankara   como escapando ao mesmo tempo ao ser (sat) e ao não ser (asat  ) ; até Içvara, Senhor dos mundos — Vishnu   ou Çiva — a quem o adorador murmura: «Tu és Tudo: o bem, és Tu; o mal, também és Tu?» [2].

A passagem metafísica   do numinoso à Transcendência   se opera sem choques. E esta Transcendência é tal que o Absoluto   [3] — o nirgunabrahman (nirauna-brahman  : o Brahman sem qualidades) — é plenitude   de ser (pûrnam) (pûrna: pleno  , completo) para além dos «nomes e das formas», para além dos conceitos. Dele não se pode dizer senão «neti, neti... nem assim, nem assim...»; senão «atita» «para além»: O Absoluto é kaivalya (kaivalya: estado   de solitude, de pureza   espiritual da alma   liberta), Solitude pura. Segundo a forma extrema de advaita   (a doutrina   absoluto) [4], a de Guadapâda e de Çankara), dele nada poderia ser comunicado; nada participado. E assim o universo não poderia existir; o acosmismo que reduz o mundo à aparência de maya: ilusão   cósmica) (nem ser, nem não-ser, nem misto de ser e de não-ser, nem esse não-misto) é uma consequência inelutável da posição   do Absoluto em puro kaivalya.

A Revelação, no entanto, embora mantendo o sentido do numinoso [5], aguçando-o mesmo, embora mantendo e depurando a transferência metafísica para a transcendência e o indizível [6], ilumina de dentro o «bloco de santidade» cuja densidade infinita cessa enfim de ser «impenetrável».

A qedusha de Isaías, VI, 2 («Santo, Santo, Santo é Iavé dos Exércitos») é tríplice. E se o profeta   não distingue, sem dúvida, com seus olhos mortais  , a aurora   da Revelação Trinitária, o cristão, que ao tríplice Sanctus, faz eco aos Serafins — no cruzamento dos dois   Testamentos, comungando com os dois povos, o de Israel   e o das nações, no início do Canon (norma do Sacrifício eucarístico em que se condensa, sempre presente  , o mistério do Mediador  , Deus-Homem  , morto e ressuscitado) — tem plena consciência  , ele, cristão, de ter penetrado num mundo radicalmente novo. Acima mesmo das metafísicas e das místicas, o «Deus Vivo» bíblico aí se revela enfim como Santidade de amor. Pois se Deus é Pai, Verbo, Espírito  , Ele é, em sua própria unidade   indivisível  , reciprocidade de Pessoas, que não são pessoas senão por sua própria reciprocidade, sua mútua inerência, sua interioridade dinâmica de uma a outra: circum-in-cessão... É pois dom de Si a Si, em Si. E o «Deus é amor» (I Jo. IV, 8) é a definição metafísica de sua existência. Os Três em Deus não fazem número   com o Um. O Um é a unidade da «expansão do Um em Três sem divisão, e do recolhimento dos Três no Um sem diminuição» [7] no instante   eterno do ritmo divino de processão   e de retorno. Este amor hipostático quebra a solidão   do Solitário (o Kaivalya do Kevala). O mistério Trinitário — e só ele — esclarece, na obscuridade da fé «per speculum   in aenigmate», o outro imprevisível mistério: o da criação. Se a plenitude do Ser não exclui, mas, pelo contrário, inclui — nessa espécie de espaço interior em que se expande e se recolhe — doações constitutivas de Hipóstases distintas, pode entretanto também, como por acréscimo, por bondade pura e por amor, suscitar livremente [8] um vir a ser  , ou antes, uma pluralidade de vir a ser a participar, no finito   e no tempo, de sua eternidade   e de sua essência  . . . Criação configurada à imagem e ao ritmo trinitários, em sua estrutura   e em sua história [9].

Esta expansão finita da santidade não esgotou o Amor suscitante. Suas Missões — projeções temporais das Processões eternas — introduziram no universo em processo as duas Hipóstases procedentes, manifestadoras do Princípio [10] no mistério de sua auto-revelação: o Verbo de pensamento   e o Espírito de amor unificante. Dupla e única efusão   de infinita santidade: o Verbo, pela Encarnação  ; e o Espírito, sob um modo ainda sem nome. O Cristo   é «o Santo de Deus» (Marc. I, 24) e o Paráclito é o Espírito de Santidade. O mundo é santificado pela própria santidade do Deus «três vezes santo», pois os Dois Enviados lhe comunicam, em sua kenosis [11], a própria Santidade do Pai.

Esta santidade por participação   recebe sua plenitude — finita, que decorre da Plenitude infinita — em Maria e na Igreja  .


Ver online : Henri le Saux


[1ou avidya: inconsciência (Çankara emprega de preferência o termo avidya).

[2Cf. esse cume de numinoso hindu, com o Cap. XI da Bhagavad Gita.

[3Cf. C. Lacombe, L’Absolu selon le Védânta.

[4kevala-advaita: não-dualidade de absoluto.

[5«ardeo et inhorresco» dizia Santo Agostinho. Esse ardor de desejo e de recuo, de terror e de amor, inflama os profetas a os salmistas. Um deles dizia a Iavé: «Tu conduzes ao Sheol e tu dele fazes voltar, tu matas e tu vivificas».

[6O texto tão denso de Colossenses II, 8: «Habita n’Ele (Cristo) o Pleroma da Divindade, no corpo», cume do cristocentrismo paulino, funda a mística cristã apofática: a de Marius Victorinus, do Pseudo-Dionísio, do areopagitismo latino, de São João da Cruz.

[7Segundo a fórmula de São Dionísio, bispo de Alexandria (sec. III), enviado como profissão da fé trinitária — e, ao que parece, como que em eco a Dionísio, bispo de Roma (citado por Santo Atanásio, De sententiis Dionysii, 17 — MG, t. XXVI, col. 504).

[8De uma liberdade total, segundo a existência e segundo a essência.

[9Não seguindo porém o esquema simplista das «três idades» de Joachim de Flore.

[10São João Damasceno chamava o Pai: Deidade-Fonte.

[11A kenosis do Verbo — baseada em Filip. II, 5, 12 — é de teologia clássica. A interpretação mais perfeita é sem dúvida o artigo Kénose do P.e Paul Henry, S. J., no Suppl. au Dict. de la Bible de Pirot. A kenosis do Espírito na difusão de seus carismas foi perscrutada pela teologia ortodoxa russa (Lossky, sobretudo Bulgakov, Le Paraclet) e exigiria uma clarificação católica. A kenosis do Pai, na criação, está por ser elaborada.