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Santos Simbolismo 6

terça-feira 29 de março de 2022

Senário
TEMA V
ARTIGO 7 - O SENÁRIO
O Ser Supremo, a Mônada Infinita, realiza, pela diferenciação, a díade, que é a oposição dos seres já determinados, o que determina (o positivo-ativo) e o que é determinável (o positivo-passivo).

Da relação entre ambos, surge a ordem, que é ainda ternária, e dela a evolução, a realização, que é quaternária e, consequentemente, a organização da forma, da vida, que é quinária.

Temos aqui a primeira fase da procissão criadora, procissão de ida, o proodos, o kethados dos neoplatônicos e gnósticos. Começará então a procissão de retorno, pois o que partiu do Ser Supremo retornará a ele (episthrophe).

Da díade, em sua oposição, surgem as relações, que não são apenas estáticas, mas dinâmicas, porque da interatuação de um dos termos da díade sobre o outro, dá-se um heterogeneizar-se numericamente compreensível, em sentido genuinamente pitagórico.

A relação da oposição revela uma reciprocidade entre os termos relacionados. Ademais, há o surgimento de uma ordem quaternária, que seria o produto da reciprocidade entre os termos. Ora, o número 6 é par e, portanto, há nele a simbolização de um equilíbrio.

O senário é um número triangular, cuja propriedade consiste em ser ao mesmo tempo duas vezes três. Para alguns hermetistas, que veem no 6 o produto de 1 X 2 X 3 = 6, nele se traduz a reunião da Intenção, da Vontade e do Verbo na criação, como o faz Martinez de Pasqually.

Os antigos consideravam como número perfeito (teleiós), aquele que fosse igual à soma de seus divisores, que no caso de 6 são : 2 e 3.

Mas se retornarmos à maneira pitagórica de compreender o número, veremos que, da díade, surge o três, como relação : da relação, o quatro como reciprocidade e o surgimento da evolução física.

A diferenciação da díade, nos oferece o ser positivo-ativo e o positivo-passivo. Mas o positivo-passivo não é uma negação da atualidade, pois a determinabilidade é a aptidão de algo de ser determinado por outro, isto é, de receber, de outro, a determinação do que ela não tem, mas para o que tem aptidão. Assim a determinabilidade de um ser qualquer, tomado do mundo do quaternário, mostra-nos que um ser tem aptidão para receber uma determinação que ainda não tem, mas para a qual é ele apto. Portanto, se considerarmos que um dos termos da díade é a potência, como o considera Aristóteles  , essa potência tem de ter uma atualidade de potência, pois do contrário seria nada, e não poderia entrar numa composição, como o é o ser relacional, que surge, que é a tritura, que é um ser, porém não é tudo quanto pode ser; e é, portanto, um composto de ato e potência, de determinação e determinabilidade.

Desse modo, os termos da díade têm de ser diferenciados, mas inversos no poder unitivo do ser, e a determinação (ato) seria a capacidade de determinar, e a determinabilidade (potência), a capacidade de ser determinável.

O ser diferenciado, que é outro que o Ser Supremo, axiológica e ontologicamente, pois aquele é imutável, enquanto este conhece a reciprocidade e, consequentemente, as mutações, revela a aptidão de determinar, e a de ser determinado.

Mas o que determina, no quaternário, é, por sua vez, determinado, porque quem exerce uma ação de determinação, sofre uma determinação por sua vez. Ademais todo o ser é determinável na proporção de sua forma, e esta limita a determinação, e exerce uma determinação na determinabilidade de outro.

Essa reciprocidade poderia ser exemplificada, embora grosseiramente, pelo giz que escreve no quadro negro. O giz atua sobre o quadro negro, determinando a figura de que o quadro negro, por ser determinável, recebe. Mas por sua vez, a resistência do quadro negro oferece uma determinação no giz, por sua vez determinável. Se os co-princípios do ser, a díade, são positivos e não podem deixar de ser, a determinação de um sobre o outro implicará uma reciprocidade que pode ser intensistamente maior ou menor, o que permitiria a heterogeneidade da reciprocidade, pois um determinaria mais do que é determinado, ou vice-versa. [1]

Nesse caso, haveria uma interatuação e desta, que é quaternária, surgiria uma nova relação, que categoricamente seria uma modal. Teríamos, neste caso, o seguinte

Um dos termos da díade é, em si 1; na relação de oposição, por atuar, por determinar, é outro, 2, e ao sofrer a determinação é 3. A reciprocidade que há entre os termos da díade, em oposição, alcança a três aspectos de cada lado. O equilíbrio que finalmente resulta dessas duas tríades é 6, que passa a ser símbolo do equilíbrio e da harmonia, pois da interatuação, que se dá na reciprocidade, surgem modais, mas o resultado é uma harmonia.

Temos, então, o ser-em-si, o ser-para-outro e o ser-para-si. Exemplifiquemos : um homem casa-se com uma mulher. Ele tomado em si é 1, no casamento, no seu atuar junto à mulher é 2, mas ao sofrer a ação desta é 3, e o mesmo se dá em relação a ela.

A díade encontra o equilíbrio através da interatuação da reciprocidade dos opostos, após 6 aspectos. A harmonia, que se dá, tomada dinamicamente, é 6.

Ora, se observarmos todos os cultos e a simbólica universal do senário, vemos que, em todo o pensamento universal o seis é tomado como símbolo da harmonia, da Justiça, do equilíbrio da balança, do equilíbrio da díade, do kharma para os hindus, da Providência para outras religiões.

Mas se o 6 quer se referir à harmonia em sua simbólica, nem sempre se refere à que se dá na imanência, a harmonia do quaternário. Os símbolos são polisignificáveis e podem, segundo o plano a que se referem, apontar a simbolizados de várias ordens.

Ao recordarmos o pensamento pitagórico, podemos ver a tríade inferior e a tríade superior. A harmonia entre ambas é a presença dos 6 termos das duas tríades, e pode ser simbolizada pelos dois triângulos de vértices opostos, cuja figura reproduzimos. Também simboliza essa figura a perfeição dó conhecimento, porque o que "esta" em baixo e igual ao que está em cima."

E esse mesmo símbolo pode, no cristianismo, por exemplo, referir-se à Trindade divina (Deus-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito-Santo) e a tríade da criatura: forma, matéria e existência, ou mais precisamente ato, potência e existência, pois o que existe criaturalmente é sempre uma composição de ato e potência, como os anjos, por exemplo, ou de matéria e forma, como os seres quaternários.

O senário, aplicado à natureza física, refere-se à harmonia da criação, harmonia que é dada pelo criador, e que surge da ordem.

Para justificação dessa simbólica, reúnem os autores que a estudaram diversos exemplos, como as seis formas primitivas na cristalografia, todas derivadas do triângulo equilateral, como sejam o paralelepípedo, o octaedro, o tetraedro, o prisma hexaédrico regular, o dodecadedro romboidal e o dodecaedro triangular.

Ou ainda as seis operações da Aritmética: adição e subtração, multiplicação e divisão, potenciação e extração de raízes; ou ainda, os seis círculos no firmamento : o ártico, o antártico, os dois trópicos, o equinocial e a eclíptica : as seis perfeições do pensamento religioso hindu; os seis dias da criação, que se referem aos seis planos da criação, e não a dias cronológicos, os seis degraus do templo de Salomão, as seis asas do Serafim, ou, ainda, os seis instrumentos dos companheiros nas lojas maçônicas, etc.

O senário é simbolizado pelo hexagrama. Vê-lo em templos e em diversas manifestações estéticas. Na Anunciação de Maria, o anjo traz um lírio de seis pétalas, dispostos em duas ordens de três, equidistantes. O lírio é a flor mística das virgens.

O hexagrama, na índia, é símbolo de Vishnu, e entre os romanos, de, Vênus. Vemo-lo nas janelas das catedrais, e na maçonaria como símbolo da justiça. [2]



[1O Tema da atualidade da matéria é discutido em nosso livro "O Problema da Matéria".

[2O tema da harmonia, pela sua complexidade, não pode ser examinado aqui. Fazêmo-lo em "Pitágoras e o Número" e em "Filosofia Concreta", pois a lei da harmonia, que é universalmente válida, exige uma longa explanação para ser devidamente justificada. No entanto, não se deve esquecer que o conceito de harmonia implica os opostos analogados, com a subordinação das funções subsidiárias à norma da principal, o que não compreenderam certos filósofos que ridicularizaram a frase pitagórica da "sinfonia da harmonia universal", porque a reduzem à estática de opostos apenas simétricos, que é a maneira mais superficial de compreendê-la.