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A Influência da Mitologia Hindu na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI e XVII

Vieira Velho – Notas sobre os Upanixades

Upanixades

quinta-feira 15 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

Retirado da tese de doutorado de Selma de Vieira Velho — A Influência da Mitologia Hindu na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI e XVII.

    

A Morte é considerada uma ilusão  , uma aparência da realidade, porque aquilo que parece destruição não é propriamente destruição mas uma mudança   ou transformação  . O homem   mortal   fenece como os frutos do campo   e renasce como eles, porque o homem, sedento   de riquezas, não enxerga a passagem para os céus mas torna-se um escravo   da Morte para a qual regressa repetidas vezes. [1] A crença na ilusão da morte é muito profunda, e não é só a morte que é considerada como uma ilusão, mas a própria vida é também tida como uma ilusão, porque a santidade  , as oferendas, os ensinamentos sagrados, o passado   e o futuro é o material com que Deus   talha a ilusão que permeia o Universo  . [2]

A Morte e a Vida não só são ilusões mas também princípios complementares, pois existe uma transformação perene e estável que ultrapassa as fronteiras da vida e da morte. Aqueles que ultrapassam essas fronteiras incorporam-se no Espírito   do Criador, porque sendo puros são aqueles a quem a desonestidade, a mentira   e a ilusão não mancham.

«Aquele que sabe que o nascimento e a dissolução do nascimento perfazem uma unidade   — pela dissolução cruza para além da Morte, e pelo nascimento goza a Imortalidade» [3].

Tendo por base a unidade transcendental do Universo, também se considera essa unidade o resto e a soma de tudo quanto exista. Pela sua própria natureza ela exige uma Força ou Poder que a governe, mas que não sendo governado pelo Tempo é infinito  , não sendo governado pelo Espaço é indivisível  , e não sendo governado pelas mudanças e pela Casualidade, é imutável  . É um Poder que distingue todas as coisas. É dele que se originaram a terra  , a água, o fogo  , o ar e o éter   [4]. E a lei das Obras resolve-se no seu ciclo   em função desse Poder. Sendo a base a unidade através da diversificação, é único o Espírito que existe a permeia o universo inteiro, tal como as miríades de linguetas duma fogueira que tem o fogo como o ponto da sua origem. É na Unidade imutável, interminável e invariável quê se resolvem todas as variações.

«É único o Espírito que existe no homem e o espírito que existe no Sol, e nenhum outro existe além desse. Aquele que sabe isso, quando parte deste mundo integra-se nesse Ser que é o alimento  ; integra-se nesse Ser que é o sopro da vida; integra-se nesse Ser que é o pensamento  ; integra-se nesse Ser que é a bem aventurança, cuja Escritura é esta» [5].

Esse Ser é o princípio e a Causa   Inspiradora do co-ordenação de todos os elementos  . É nele que se encontram o passado, o presente e o futuro, e o tempo não o alcança porque é maior do que o Tempo. É uma força em si e por si, eterna, inalterável e indestrutível e por isso indefinível porque o movimento, as mudanças e a morte são perante ela fenômenos transitórios e aparências da Unidade eternamente perfeita e perfeitamente eterna.

Os Upanixades   não possuem um sistema coerente e lógico de filosofia tal como a filosofia aristotélica ou platônica, mas elaboram vários princípios e doutrinas que hoje são fundamentais à filosofia Hindu. A sua tendência mais importante é para a reflexão   e ponderação  . Os poéticos hinos de louvores dos deuses do Rig Veda   dão aqui o lugar ao raciocínio e à buscadas causas e da realidade da existência. As suas especulações intelectuais levaram ao estabelecimento de três princípios fundamentais:

(I) A Unidade Eterna através da multiplicidade das aparências:

Tudo quanto é circunscrito pelo tempo obedece às leis do nascimento e da morte; porém, a estabilidade da unidade transcendental é eterna e portanto transcende o tempo. Tudo quanto é circunscrito pelo espaço tem de aumentar e diminuir pela sua própria natureza. Porém, a estabilidade da unidade transcendental é invariável e portanto, transcende o Espaço. Tudo quanto aumenta e diminui, tudo quanto nasce e morre, e sofre mudanças, obedece à lei da Casualidade. Porém, a estabilidade da unidade transcendental é fixa e imutável, e portanto, transcende a lei da Casualidade.

(II) Unidade da Alma   Consciente do Universo:

A vida e tudo quanto existe emana do Espírito, pois ele contém o universo inteiro. Ele é o ser   ou o «ego» das coisas inanimadas e animadas, como também o «ego» do homem na sua individualidade. A Natureza é apenas uma ilusão de Brahman   ou Espírito Supremo. É através do princípio da unidade eterna que se identificam a Natureza, a Alma Universal   e o «ego» do Homem. A inconsciência, ou antes, a não-consciência   da Natureza é considerada como uma aparência da realidade, porque existe sempre uma Inteligência consciente a trabalhar   em tudo quanto existe, animado e inanimado, porque existe um Deus que é único e se oculta em todas as criaturas. Ele permeia todas as coisas e todos os seres. É o Senhor da vida, Absoluto e sem modalidades ou atributos, e que controla tudo. Só o homem decidido vislumbra Deus em si próprio e alcança a bem-aventurança   eterna. O Eterno é a Consciência   em todas as consciências.

(III) O Transcendente Indivisível:

A terceira realização   é baseada nas primeiras duas. O «ego» transcendente do indivíduo   por ser identicamente o mesmo, é tão completo como o «ego» transcendente do universo. O Transcendente, sendo indivisível, as individualidades separadas são apenas uma das aparências em que se baseia o fenômeno da existência. E através desse princípio que o Absoluto   é reconhecível. Brahma   é alguma coisa do tangível, mas Brahman, Absoluto e transcendente define-se só através do «Neti, Neti», isto é, não é isso, não é aquilo — portanto a Absoluto desafia a descrição.


Ver online : Upanixades


[1«O intelecto pueril, desnorteado, e embriagado com a ilusão das riquezas, não pode abrir os olhos para observar a passagem que conduz aos céus. Todo aquele que crê apenas na existência deste mundo e em nenhum outro, volta repetidas vezes para a escravatura da Morte». KATHA UPANIXADE, Ciclo 2. Cap. 2, Ver: 6

[2«A santidade, os sacrifícios as promessas, e todas as oferendas, e tudo quanto existiu no passado e existirá no futuro, e tudo quanto os Vedas ensinam, — tudo isso é o material com que o Senhor da Ilusão talha para si o seu variado Universo, onde,à semelhança duma armadilha,esse outro é aprisionado através da sua Ilusão. Conhecei a Natureza como Ilusão, e Maheswara, o todo poderoso, como o Senhor da Ilusão: o mundo inteiro, em movimento, enche-se da criação, como se fossem seus membros». Shwetashwatra Upanixade

[3ISHA UPANIXADE: Ver: 14

[4«Ele envolve em Si, eternamente, o Universo inteiro. Aquele que sabe isso, torna-se a morada do Criador do Tempo e das modalidadas da Natureza. Ele distingue todas as coisas e pela sua ordem, a lei das Obras resolve-se no seu próprio ciclo. Considerai a água, o fogo, o ar, e o éter como a fonte de toda a origem.» Shwetashwatra Upanixade Cap. 6, Ver:2

[5Taittirya Upanixade: Cap. 8 (Brahmanandaval II)