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Philokalia Needleman

terça-feira 29 de março de 2022

    

O professor de filosofia, Jacob Needleman  , é um dos estudiosos da busca espiritual que se consagrou pela análise que fez de um movimento   que agitou os anos 1960, e que foi denominado New Age. Publicou um livro que se tornou best-seller «As Novas Religiões», e escreveu desde então inúmeros livros onde se aprofunda em temas espirituais, inclusive uma reflexão   sobre dinheiro   que é notável e sui generis, «O Dinheiro».

Em um de seus livros estuda a tradição   cristã, buscando um cristianismo primordial que estaria sendo resgatado por diferentes movimentos contemporâneos e em particular pela recuperação da Philokalia  . Deste livro, «Cristianismo Perdido», são os excertos abaixo.

Dedicado há muitos anos ao Trabalho   de Gurdjieff  , escreveu vários ensaios e livros sobre o mesmo.


Excertos A compreensão atual dos primeiros escritos da tradição cristã, digo a justa hermenêutica, além dos estudos filológicos, aquela que conduz à «conversão», trata-se de um campo   minado. Não há nenhuma ordem   ou plano na forma como todos esses escritos nos têm sido transmitidos. Quais deles são produto de indivíduos isolados que tiveram uma ou duas experiências intensas e fizeram delas um modo de vida? Quais deles são expressões de uma luta   pela atenção   do coração  ? É difícil saber, no entanto é aí que está toda a diferença  .

As pessoas ficariam chocadas ao se darem conta de quantos daqueles que veneram como grandes místicos se incluem na primeira categoria e de quão poucos são os que conhecem os passos que efetivamente conduzem à experiência da Verdade e podem guiar   os outros. Muitos dos chamados «grandes místicos» dão as descrições dos resultados sem a exata compreensão da própria luta. Os budistas são bons nisso. Dizem eles: «Não venda bebidas que embriaguem.»

Há as leis da graça  . A tradição hebraica enfatizava isso. E há a graça da lei, que a tradição cristã enfatiza. Graça — karis - e lei — nomos -: ai daquele que escolhe uma delas e despreza a outra. As pessoas falam disso como um paradoxo, o que significa apenas que elas não podem ajustá-lo à razão discursiva, à racionalidade cotidiana. As pessoas «religiosas» não gostam de ouvir   que existem leis científicas que governam os movimentos de todas as forças, superiores e inferiores. Por outro lado, os que são atraídos pela ideia da precisão da lei não gostam de ouvir falar que tais leis não estão sujeitas à manipulação humana. O problema é: como passar do sagrado   desejo de Deus   à luta definida na direção de Deus, sem a intervenção do ego? Nenhum guia pode dar a outro homem   o desejo sagrado   e o contato com o superior. Mas o que pode ser ensinado é o modo de reconhecer   e neutralizar as iniciativas do ego.


Tudo, absolutamente tudo em relação à Doutrina   deve ser experimentado em nós mesmos e assimilado ao nosso próprio ser antes de tentarmos orientar os outros. Deem a isso o nome de misticismo  , se quiserem, misticismo verdadeiro. A Igreja   uma vez compreendeu isso: deve haver um permanente misticismo, uma experiência permanente. Essa é a origem   da desconfiança da Igreja nos chamados «místicos». O misticismo no sentido verdadeiro é o estado   natural do espírito   humano. Os «místicos» que têm experiências ocasionais muitas vezes acabam iludindo as criaturas humanas ao considerar como extraordinárias tais experiências. Mas o que é extraordinário é a raridade desse nível de experiência.

A Igreja um dia teve conhecimento disso. Uma das consequências do seu esquecimento   foi o medo e a aversão   à hierarquia entre os povos ocidentais. A organização da Igreja refletia originalmente a organização do homem e do universo  . Essa organização tinha que ser sentida dentro de nós mesmos, constantemente, «sem cessar». «Orar ininterruptamente» significa orar agora, no momento presente  . No presente momento, agora, busquemos a organização do universo, de Deus em nós.

Haveria um cristianismo perdido onde o lugar do corpo na experiência mística seria considerado. A nossa consciência  , a nossa atenção, é a coisa mais perdida de todas. Gregorio Palamas - São Gregório Palamas claramente escreveu sobre isso.


Devemos buscar o bispo dentro de nós. Só quando sinto a hierarquia natural da Criação dentro de mim  , só quando sinto dentro de mim o suplicante, o padre  , o bispo, o arcebispo e o Soberano Divino, é que de fato me torno conscientemente parte do sagrado Todo. Só quando a minha natureza inferior   é naturalmente atraída no sentido da obediência ao superior, é que posso, como ser humano de uma sociedade mundana, obedecer voluntariamente à Comunidade da Doutrina ou — como eles costumam dizer — aos Anciãos   da Igreja. Pela consciência da atenção do corpo é possível ver como os desejos instintivos imediatamente obedecem ao superior, sem violência. Devido a essa natural obediência, a este amor inato ao Superior, eles só têm necessidade   de contato para se tornarem ativos. O ego impede o contato entre as várias fontes de atenção dentro do organismo humano; esse é o seu mal e, em relação a ele, é só isso que precisa ser destruído. No entanto, é uma tarefa muito difícil.

O corpo é sagrado, porque nele podemos, com diligência   e constância, chegar a sentir diretamente a hierarquia de Deus e a confusão   dos conflitos do ego. Através do corpo podemos estudar e destruir pela raiz as ilusões e iniciativas do meu eu social, o eu que admito ser eu mesmo, mas que é apenas a bruma do ego. Ninguém na Igreja se atreve a falar ou agir com relação a outrem sem saber se, nesse momento, está ou não sentindo a verdade sobre si mesmo   e a Criação. Não se exige de nós que sempre estejamos no estado de ânimo que nos permita uma visão   e autodomínio  . Só se exige de nós que saibamos em que estado nos encontramos.

Mas isso é difícil. Tão difícil que exige tudo de nós. E difícil porque é, de fato, o que é realmente possível para nós, seres humanos, neste momento: conhecer o nosso estado. O que é destinado finalmente para nós é algo mais, algo de um nível incrivelmente elevado. Mas o que é possível para nós agora, no momento atual, não é o que nos é destinado; essa é a nossa tragédia, a nossa situação  , que foi uma vez definida com precisão pela palavra pecado  , palavra que hoje é destituída de sentido. Imaginar que o que é possível para mim hoje é a mesma coisa que está destinada a mim no fim é a perigosa ilusão   do ego, o ego religioso, a coisa mais perigosa de todas. É o mesmo que imaginar que as palavras «a salvação   veio através de Cristo  » significam que «já estou em estado de salvação» ou, em segurança, no caminho   da salvação. Esses são os tipos de verdade que inevitavelmente resultarão do fato de pessoas honestas e sinceras se meterem com os níveis mais elevados da tradição. Elas deveriam ser alertadas. Isso irá atormentar.


O que aconteceu com a Igreja? Como explicar a cruzada albigense? E a Bernardo de Clairvaux? «Como podia um grande místico, um mestre da vida contemplativa, ter também aprovado a matança de centenas de milhares de pessoas?» Seria um ponto crucial na história da Igreja, no qual ela começou a declinar?

Naquela época, poderia simplesmente ter havido um excesso   de «misticismo» e o acusei de acreditar demais na história e no tempo linear. Uma ênfase demasiada na experiência interior provoca inevitavelmente uma reação contrária e uma oscilação no sentido da organização institucional externa. A livre exploração da vida interior com a correspondente exclusão da vida exterior provoca legitimamente um contra-movimento de ordenamento exterior da tradição, justamente como ocorreu no Tibete no século XIII.

Na verdade, não há tal coisa como um momento crucial no mundo real. Existem apenas forças e a sua interação  . A ideia de Deus atuando na história, que é um fetiche para o pensamento religioso ocidental, é originalmente um símbolo do jogo   das forças fundamentais (Deus) por toda parte e em tudo.

Perigo de compreender os símbolos de forma literal. Qual é a questão? É a origem dos símbolos. Um símbolo é um indício deixado por alguém de maior compreensão para preservar o que experimentou. Devido à sua compaixão e à sua compreensão psicológica justa, o Fundador deixa apenas símbolos e nenhuma outra coisa para nossa orientação. O símbolo destina-se a atuar em nós tais como somos, na nossa condição de separação   mental, emocional e corporal. O símbolo é destinado a orientar o nascimento da força unificadora dentro de nós, a força que pode reunir   os nossos aspectos, a força chamada «Sentimento  », o desejo sagrado.

O símbolo nos obriga a começar reconhecendo o baixo nível do nosso próprio estado interior e da nossa compreensão. A nossa tarefa diante do símbolo é nos tornarmos serenos e permitir que ele desperte em nós ecos e observar como ele está atuando em nós. Não se trata de um estágio a atravessar; é a exigência permanente que o símbolo nos impõe, o elemento   fundamental do perene misticismo efetivamente possível ao homem.

Por conseguinte, o que é um símbolo para o Fundador deve ser considerado por mim como uma metáfora, uma metáfora da minha condição interior. A questão não é se é alegórico ou literal, mas encarar o símbolo como uma metáfora de mim. O Fundador compreende o símbolo de maneira ampla; este revela a sua capacidade excepcional de ver as coisas como são em sua realidade objetiva. Mas nós, que nem sequer vivemos no nível de um ser humano normal, muito distantes do nível do Fundador, nos atrevemos a pensar que compreendemos a verdade do símbolo e passamos a tentar ajustar a realidade a ele, criando assim os males do dogma. Começo por ver que, em mim mesmo, crucifico meu Senhor e acabo por crucificar os outros em nome do símbolo da cruz. As causas da violência religiosa, inclusive as inquisições, residem nessa tendência a saltar impacientemente da metáfora ao símbolo. Lutamos para viver   segundo a Doutrina e gradativamente alcançamos certo nível de compreensão. Começamos a sentir e a tomar conhecimento, numa certa medida, de quão importante é para a humanidade a Doutrina. Devotamo-nos verdadeiramente, por assim dizer, ao cristianismo.

Este é um momento muito crítico na vida de uma comunidade ou indivíduo. Um erro  , nesse ponto, pode fazer com que tudo se perca ou se deturpe. Entusiasmados com a verdade da Doutrina, nos esquecemos então do caráter metafórico dos símbolos, o que equivale a dizer que nos esquecemos de que eu próprio necessito da Doutrina ainda mais do que o mundo.



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