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O Pensamento Vivo de Buda

Coomaraswamy (PVB:17-19) – Buda - Luta - Liberação

A vida de Buda

quinta-feira 15 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

Um Buda   não mais participa de uma categoria; não pode ser comparado com qualquer outro ser; não é mais chamado por um nome; não é mais uma pessoa  , é um ser que seria vão querer conhecer pelo nome próprio, e ao qual só poderiam convir epítetos tais como Arahant («Digno»), Tathagata   («o que veio autenticamente»), Bhagava («Dispensador») Mahapurisa («Grande Cidadão  ), Saccanama (»aquele cujo nome é Verdade«), Anoma (»Insondável"), dos quais nenhum designa um indivíduo.

    

Nos recessos das florestas o príncipe despojou-se de seu turbante real e de sua longa cabeleira, que não convinham a um religioso-mendicante, e mandou de volta seu cocheiro  . Encontrou-se com eremitas brâmanes   e, sob a direção   deles, dedicou-se à vida contemplativa. Depois ele os deixou para se consagrar sozinho ao «Grande Esforço»; ao mesmo tempo um grupo de cinco   monges mendicantes tornaram-se seus discípulos e entraram a seu serviço na ideia de que se tornaria vim Buda  . Nesse intuito ele praticou mortificações muito mais severas e pouco faltou para que se deixasse morrer   de fome. Mas compreendendo que o enfraquecimento do corpo e das faculdades   espirituais não o conduziriam ao Despertar   (bodhi  ) pelo qual renunciara à vida mundana, retomou sua tigela de esmolas e foi mendigar alimento   nas aldeias e cidades como os outros religiosos: vendo isto, seus cinco discípulos o abandonaram. Mas chegara a hora do Despertar e pelos sonhos que tivera o Bodhisatta pôde concluir: «Hoje mesmo me tornarei um Buda». Comeu de uma comida em que os deuses tinham misturado sua ambrosia, e descansou durante o dia. Ao anoitecer aproximou-se da árvore de Bodhi, e ali, no centro   da terra  , o rosto voltado para o oriente, sentou-se no mesmo lugar em que todos os Budas anteriores se sentaram no momento de sua Iluminação  ; imóvel  , resolveu não se mover antes de ter realizado seu desígnio.

Então Mara (a Morte), o ancião Ahi-Vrtra  -Namuci   dos Vedas  , «o de firmeza inabalável», vencido outrora por Agni  -Brhaspati e por Indra, mas jamais morto, observando que «o Bodhisatta quer se libertar do meu poder» e resolvido a não o deixar escapar  , dirigiu suas hostes contra ele. Os deuses, atemorizados, fugiram; o Bodhisatta ficou só, sem outra defesa do corpo que a de suas virtudes. O assalto de Mara, pelas armas   do trovão e do relâmpago, das trevas, da água e do fogo  , e de todas as tentações oferecidas pelas três beldades que são as filhas de Mara, deixaram o Bodhisatta impassível e impávido. Mara, não podendo reconquistar o trono que pretendia, foi forçado a retirar-se  . Os deuses voltaram e celebraram a vitória do príncipe; a noite desceu nesse ínterim.

Penetrando em planos de contemplação   cada vez mais profundos, o Bodhisatta obteve sucessivamente o conhecimento de suas vidas anteriores, a Sagacidade   divina, a compreensão das origens pelas causas, e finalmente, pela madrugada, a plena Iluminação, o Grande Despertar (maha-sambodhi) que buscava. Já não é mais um Bodhisatta; tornou-se um Buda, um «Desperto». Um Buda não mais participa de uma categoria; não pode ser comparado com qualquer outro ser; não é mais chamado por um nome; não é mais uma pessoa  , é um ser que seria vão querer conhecer pelo nome próprio, e ao qual só poderiam convir epítetos tais como Arahant («Digno»), Tathagata   («o que veio autenticamente»), Bhagava («Dispensador») Mahapurisa («Grande Cidadão  ), Saccanama (»aquele cujo nome é Verdade«), Anoma (»Insondável«), dos quais nenhum designa um indivíduo. Os sinônimos»O Que Se Tornou Dhamma  «, e»O que Se Tornou Brahma  «devem ser observados particularmente, pois Buda se identifica expressamente com a lei Eterna (dhamma) que personifica; e a expressão  »O que Se Tornou Brahma" deve ser considerada como equivalente a uma apoteose absoluta, bastando para isso o fato de que Buda tinha sido um Brahma e mesmo Brahma - Maha Brahma já durante vidas anteriores, e que de qualquer maneira a gnose de um Brahma é inferior   à de um Buda. Aqui mesmo, neste mesmo instante  , neste mundo, Buda tinha atingido essa libertação (vimutti), esta Extinção (nibbana = sânscrito nirvana  ) e essa Imortalidade (amatam) da qual ele iria daí por diante revelar o Caminho   a toda a humanidade.

Nesse momento ele hesitou, sabendo que a Lei Eterna da qual se tornara o depositário, e à qual se identificava, seria difícil de compreender para os homens voltados para o mundo; foi tentado a permanecer um Buda solitário  , guardando somente para si o fruto   penosamente adquirido por uma busca que já empreendia há miríades de anos e cujo termo finalmente atingira. Se queremos ter uma ideia do Nibbana budista, é quase indispensável compreender a qualidade   desse «Gozo»: é a suprema beatitude   daquele que rejeitou a noção   «eu sou  »; daquele «que se renunciou totalmente» e que assim «depôs o seu fardo». Foi essa a última e a mais sutil   tentação   que lhe infligiu Mara: que seria loucura abandonar essa felicidade penosamente adquirida, de regressar à vida ordinária para pregar o Caminho a uma humanidade que não queria nem ouvi-lo nem compreendê-lo. Mas diante da hesitação de Buda, os deuses ficaram desesperados: o mais elevado de todos, Brahma Sahampati, surgiu diante dele, deplorando que «o Mundo se perdesse» e invocando o fato que havia no mundo alguns seres ao menos de visão   suficientemente clara para escutar   e entender seu ensinamento. Pelo amor desses, Buda consentiu, e declarou «abertas as Portas da Imortalidade». Dispôs-se então a consagrar os quarenta e cinco anos que lhe restavam de vida neste mundo a «fazer girar a Roda da Lei», isto é, a pregar a verdade libertadora, o Caminho que é necessário seguir para atingir o fim último, a significação da existência, a «finalidade derradeira da humanidade».


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