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SABEDORIA DOS PROFETAS

Ibn Arabi (SP) – Noé

DA SABEDORIA DA TRANSCENDÊNCIA NO VERBO DE NOÉ

sexta-feira 22 de abril de 2022, por Cardoso de Castro

Sabedoria dos Profetas: DA SABEDORIA DA TRANSCENDÊNCIA NO VERBO DE NOÉ (EXTRATO DO CAPÍTULO)

Para os conhecedores das Verdades divinas (ahl al-haqaiq) afirmar [unilateralmente] que Deus é incomparável às coisas, é precisamente limitar e tornar condicional a concepção da Realidade divina [por dela excluir assim as qualidades das coisas]; aquele que nega toda similitude a respeito de Deus, sem se afastar deste ponto de vista exclusivo, manifesta, seja ignorância, seja uma falta de “tato”(adab). O exoterista que insiste unicamente na transcendência divina (at-tanzih) [à exclusão da imanência (at-tashbi)], calunia Deus e seus enviados – sobre eles a Benção divina! – sem disto se aperceber; se imaginando que atinge o alvo, passa ao lado; pois é daqueles que não aceitam senão uma parte da revelação divina e rejeitam a outra [1].

Sabemos que as Escrituras reveladas como lei comum (shari’ah) exprimem-se, ao falar de Deus, de maneira que a maioria dos homens possa captar o sentido mais próximo, enquanto que a elite compreenderá todos os sentidos, a saber todo a significação inclusa em cada palavra conforme às regras da língua empregada [2].

Pois Deus Se manifesta em cada criatura de uma maneira particular. É Ele que Se revela em cada significação, e é Ele que permanece oculto a cada compreensão, salvo para aquele que reconhece no mundo a “forma” [3]; ora, as “formas” do mundo são indefinidas, não se pode compreendê-las todas nem conhecer a definição lógica de cada qual, salvo quando elas cabem na definição de um dado mundo [ou microcosmo]. Deste fato, se ignora a “forma” lógica de Deus, posto que não se a conhecería senão conhecendo a definição de todas as “formas”, o que é uma impossibilidade; “definir” Deus, não é, portanto, possível.

Da mesma forma, aquele que compara Deus sem ao mesmo tempo afirmar sua incomparabilidade, Lhe atribui limites e não O reconhece. Mas aquele que une em seu conhecimento de Deus o ponto de vista da transcendência com aquele da imanência, e que atribui a Deus os dois “aspectos” globalmente – pois é impossível de os conceber em detalhe, por conta mesmo de que não se poderia abarcar todas as “formas” do universo – conhece-O verdadeiramente, quer dizer que O conhece globalmente e não apenas distintivamente; e é por isso, aliás, que o Profeta liga o conhecimento de Deus àquele de si mesmo, dizendo: “Aquele que se conhece si mesmo conhece seu Senhor”. Por outro lado, Deus diz no Corão: “Nós lhes mostraremos Nossos sinais nos horizontes” – a saber no mundo exterior – “e neles mesmos” – em tua essência – “até que se lhes torne evidente que [tudo] é Deus (al-haqq)” (Corão XLI, 53) – no sentido que tu és Sua forma e que Ele é teu espírito, de sorte que tu és [em tua totalidade] para Ele isto que é a forma corporal para ti, e que Ele é para ti isto que é o espírito que rege a forma de teu corpo.

Tua definição implica a um tempo teu exterior e tua realidade interior; pois a forma [corporal] que resta, quando o espírito que a regia a deixou, não é mais um homem; fala-se dela como de uma forma tendo uma aparência humana, mas que não se distingue [essencialmente] de uma forma feita de madeira ou de pedra, e que só porta o nome de homem por extensão do termo e não no sentido próprio. Ora, das formas do mundo, Deus jamais pode Se abstrair [pois elas cessariam imediatamente de existir], de sorte que elas estão necessariamente compreendidas na “definição” da Divindade (uluhiyah), enquanto que a forma exterior do homem só o define acidentalmente, enquanto ele é nesta vida. Assim como a forma exterior do homem “louva por sua língua” seu espírito e sua alma que a regem, assim também as formas do mundo “glorificam” Deus, embora não compreendamos seu louvor [segundo o Corão: “não há coisa que não O glorifique, mas vós não compreendeis seu louvor” (XVII, 44)], e isso porque não abarcamos cada forma deste mundo. Cada uma delas é uma língua que pronuncia o louvor de Deus; e eis porque [o Corão] diz: “Glória a Deus, o Mestre dos mundos” (I,2  ), o que significa que cada louvor se refere finalmente a Ele. De sorte que Ele é ao mesmo tempo Aquele que louva e Aquele que é louvado.

Se afirmas a transcendência divina, condicionas [tua concepção de Deus], e se afirmas Sua imanência, a delimitas; mas se afirmas simultaneamente um e outro ponto de vista, serás isento de erro e um modelo de conhecimento.

Aquele que afirma a dualidade [de Deus e do mundo] cai no erro de associar qualquer coisa a Deus; e aquele que afirma a singularidade de Deus [excluindo de Sua realidade tudo o que se manifesta como múltiplo] comete a falta de restringi-la a uma unidade [racional]. Guarda-te da comparação quando consideras a dualidade; e guarda-te de abstrair a Divindade quando consideras a Unidade!

Tu não és Ele; e tu és todavia Ele; tu O verás nas essências das coisas, soberano e condicionado ao mesmo tempo [57]...


Traduzimos aqui apenas a primeira parte do capítulo sobre Noé, pois a continuação, uma exegese das passagens do Corão que tratam da história deste patriarca, apoia-se sobre um simbolismo verbal que não se poderia transpor em uma outra língua. Resumamos todavia alguns aspectos deste capítulo. Segundo o Corão, Noé revela a unidade e a transcendência divinas a um povo idólatra. A idolatria resulta de uma afirmação unilateral do ponto de vista da “comparação”, ou da imanência, em detrimento da transcendência divina. Segundo Ibn Arabi  , os ídolos adorados pelo povo que pereceu no dilúvio, não eram outra coisa que personificações dos Nomes divinos   – de “aspectos” do Ser supremo – de que este povo tinha finalmente esquecido a realidade transcendente e em sequência a unidade essencial. O erro dos idólatras suscita a prédica de Noé, neste sentido que ele deve afirmar a transcendência e foi impedido de afirmar explicitamente a imanência de Deus, pois a função cósmica da profecia comporta a compensação dos desequilíbrios e se acha de certo modo atada por esta lei. De seu lado, os idólatras permaneceram determinados pela verdade que deformava seu erro, de sorte que a predicação de Noé os acirrou ainda mais em sua atitude. Toda revelação profética produz assim, pelo que ela nega e pelo que ela afirma, oposições sobre o plano terrestre e apela finalmente, na economia das formas tradicionais, afirmações e negações complementares.

Ver online : THE SEAL OF WISDOM


VIDE: Tanzih Noé


[1A teologia islâmica, como a dos padres gregos, distingue duas maneiras de encarar a natureza divina: a “exaltação” ou “distanciamento” (at-tanzih), que nega toda e qualquer similitude de Deus com as coisas e afirma assim Sua transcendência, e a “comparação” ou “analogia” (at-tashbi), que ao contrário descreve Deus por meio de símbolos e manifesta com isto Sua imanência às coisas. As duas perspectivas são em realidade complementares, e o erro doutrinal por excelência consiste em manter uma delas à exclusão da outra; o “distanciamento” é superior à “comparação”, no sentido de que a negação de toda determinação limitativa, portanto a negação de toda negação, é a afirmação mais universal; entretanto, o “distanciamento” unilateral acaba por excluir o mundo da natureza divina e por conseguinte a limitá-la opondo Deus ao mundo; quanto ao ponto de vista da “comparação”, ele é teoricamente inferior ao primeiro, mas superior em sua realização contemplativa, posto que ele corresponde ao assentimento direto do incriado no criado; por seu turno, ele implica o perigo de limitar a natureza divina. VIDE: Tanzih e Tashbih

[2As línguas arcaicas, como o árabe, comportam uma pluralidade de sentidos em uma mesma expressão.

[3Quer dizer, o conjunto das Qualidades divinas.] e a asseidade (huwiyah) de Deus, e [que que vê o mundo como] o Nome divino O Aparente (az-zahir). Assim também, concebemos Deus idealmente como o espírito inerente a toda manifestação, de sorte que Ele é o Interior (al-batin) sob esta referência, e que ele é à cada forma manifestada neste mundo isto que é o espírito regendo a forma corporal que dele depende. A definição lógica do homem, por exemplo, compreende seu exterior como seu interior; e o mesmo se dá para cada coisa definível. Quanto a Deus, Ele Se “define” pela soma de todas as “definições” possíveis [[Esta maneira de se exprimir é intencionalmente paradoxal; com efeito, as Qualidades divinas não poderiam ser “definidas” no sentido próprio do termo, assim como não poderiam ser delimitadas. Também a expressão “forma”, nas passagens seguintes, deve ser transposta.