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SABEDORIA DOS PROFETAS

Ibn Arabi (SP) – Ismael

DA SABEDORIA ELEVADA NO VERBO DE ISMAEL

sexta-feira 22 de abril de 2022, por Cardoso de Castro

    

Sabedoria dos Profetas (EXTRATO DO CAPÍTULO)

    

Saibam que Aquele que é chamado de Alá é um na Essência   e tudo por Seus nomes, e que todo o ser condicionado não se associam [como tal] a Deus   senão exclusivamente através de seu próprio Senhor (rabb  ); pois é impossível que a totalidade   [dos Nomes ou dos aspectos divinos] se refira ao ser particular. No tocante à Unidade   (al-ahadiyah) divina, ninguém dela participa, pois não se pode dela designar aspectos; ela não está sujeita à distinção. A unidade de Deus integra a totalidade [dos Nomes e das Qualidades] na indiferenciação principial.

O “bem-aventurado  ” (as-sa’id) é aquele “cujo Senhor está contente” [Corão XIX, 55]; ora, não existe ninguém cujo próprio Senhor não esteja contente, pois é por ele [a saber, por este ser relativo] que sua senhoridade subsiste; todo ser é, assim, “apropriado” por seu Senhor e [sob este aspecto] cada qual é “bem-aventurado”. É por isto que Sahl at-Tostari diz: “a Senhoria [divina, ar-rububiyah] comporta um segredo, e este segredo é ti mesmo” – ele dirige-se a todos os indivíduos – “se ele pudesse manifestar-se [ou seja, se ele pudesse ser conhecido por outrem], a Senhoridade seria abolida” [1]; ele diz: “se ele pudesse manifestar-se” porque de fato ele não se manifesta jamais, de sorte que a Senhoridade não será abolida. Pois nenhum indivíduo   existe independentemente de seu Senhor [que é a “polarização” do Ato divino a seu respeito]; por outro lado este indivíduo existe perpetuamente [quer dizer, através de todas as existências formais, ao indefinido, mas não eternamente], de sorte que a Senhoridade [que se funda nele] subsiste igualmente à perpetuidade  .

Aquele que é [em princípio] apropriado por seu senhor é amado   dele; e tudo o que faz o amado é igualmente amado; tudo é portanto apropriado pelo Senhor; pois o indivíduo não poderia agir sem que a ação pertencesse ao Senhor que age nele. É por isso que o indivíduo [conhecendo seu Senhor] “se apazigua”, confiante que nenhuma ação lhe será atribuída, e que ele se contenta disto que nele aparece das ações de seu Senhor [2], O qual apropria estas ações, pois todo autor está contente de sua obra, posto que ele perfaz sua obra segundo o que ela exige por conta de   sua natureza; [assim que é dito no Corão]: “Aquele que dá a cada coisa sua natureza, em seguida Ele guia  ” [Corão XX, 50], quer dizer: em seguida Ele revela que é Ele quem deu a cada coisa sua natureza, de modo que ela não poderia ser nem mais nem menos [que isto que ela é].

“Ismael foi apropriado pelo seu Senhor” [Corão XIX, 55], porque ele havia reconhecido isto que acabamos de explicar. Do mesmo modo, todo ser existente é [em princípio] apropriado por seu Senhor, sem que isto implique necessariamente que cada um seja apropriado pelo Senhor do outro, pois a Senhoridade só se define a respeito de cada um em particular, [posto que ela é a relação “pessoal” do indivíduo para com Deus], de sorte que ela não concerne Deus senão segundo um de Seus aspectos, que corresponde à predisposição   (isti’dad) do indivíduo; eis aí o “Senhor” deste indivíduo particular. Nenhum [ser particular] associa-se [como tal] a Deus em virtude de Sua Unidade [suprema]. É por causa   disto que os homens de Deus não podem receber   “revelação” (tajalli  ) na Unidade (al-ahadiyah); pois se tu O contemplas por Ele mesmo, é Ele que se contempla Ele mesmo; Ele não cessa portanto de ser Ele mesmo Se contemplando por Ele mesmo; se tu O contemplas por ti, a Unidade deixa de ser a Unidade, por conta de ti; e se tu O contemplas por Ele e por ti, a Unidade cessa igualmente de ser o que ela é, porque o pronome da segunda pessoa supõe que existe outra coisa além do único contemplado  ; haverá aí necessariamente uma relação qualquer e por conseguinte uma dualidade   do contemplante e do contemplado, donde a cessação da Unidade, embora não exista [em princípio] mais que Ele que Se contempla Ele mesmo, pois sabes bem que tanto o contemplante como o contemplado não são “outro senão Ele”.

Por este fato, não é possível que o indivíduo “apropriado por seu Senhor” seja apropriado [por Deus] absolutamente [3], a menos que tudo isto que ele manifesta provenha do Senhor apropriante, que nele age [4].

É assim que Ismael é distinguido de outros indivíduos, porque é dito dele que ele “foi apropriado pelo seu Senhor”.

O mesmo acontece com toda alma   apaziguada, à qual está endereçada a palavra [corânica]: “Ó tu, alma apaziguada! Volta para o teu Senhor, contente e em paz  ; entra para os Meus servidores, entra em Meu paraíso!” [Corão LXXXIX, 27], quer dizer: volta ao Senhor que te chamou antes e que reconhecestes em meio à totalidade [dos aspectos divinos] – “contente, apropriada; entra entre Meus servidores” – Me adorando nesta estação espiritual; pois dentre o número   dos servidores de que se trata aqui está alguém que reconheceu seu Senhor, que se satisfaz d’Ele e que não se volta para o Senhor de um outro servidor [5], reconhecendo eminentemente a Unidade essencial [de todos os seres]; – “e entra em Meu paraíso” (jannah) – quer dizer em meu Véu [6], pois este paraíso não sendo outro que ti mesmo, pois é ti mesmo que Me ocultas por esta natureza humana; Eu não sou   conhecido senão de ti, como tu não existes senão por Mim; quem te conhece, Me conhece, embora ninguém [fora Mim mesmo] não Me conheça [essencialmente], de sorte que tu também não é conhecido de ninguém. Ora, se entras em Seu paraíso, entras em ti mesmo, e te conhecerás a ti mesmo por um outro conhecimento, diferente daquele que te fez conhecer teu Senhor [em conhecendo tua alma], de sorte que possuirás dois conhecimentos: conhecerás Deus a teu respeito, e O conhecerás por ti mesmo enquanto Ele é Ele, não enquanto tu existes.


Ver online : THE SEAL OF WISDOM


[1O «senhor» de tal indivíduo não assim outra coisa senão a «pessoa», segundo o sentido do termo escolástico persona, quer dizer a realidade essencial da qual este indivíduo é a expressão efêmera.

[2O que vem a dizer que a beatitude da alma consiste em sua conformidade consciente a sua essência.

[3Posto que ele existe somente em virtude de uma «relação» divina particular, que é sua razão de se como indivíduo; assim também o termo humano deste relação é negado por outras «relações» divinas, assim como o finito como tal é negado pelo infinito.

[4De sorte que ele seja totalmente integrado em sua qualidade essencial que, ela, não pode estar em contradição como as outras Qualidades divinas, pos as Qualidades divinas não se contradizem senão em seus efeitos. Al-Qashani explica que o indivíduo assim conforme a seu senhor é por aí mesmo conforme ao Senhor universal e identificado ao Homem perfeito.

[5Porque a Senhoria divina supõe uma relação pessoal única, que por definição se situa fora de toda comparação «horizontal» com outros seres.

[6A palavra jannah, que significa «jardim» e «paraíso» implicando o sentido de «ocultar».