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Antonius Conduta Virtuosa

terça-feira 29 de março de 2022

      

Exortações sobre o comportamento   dos homens e a conduta virtuosa
1. É abusivo dizer que os homens são dotados de logistikon   - razão  . Não são razoáveis aqueles que se deixam ensinar   pelas palavras e os livros dos antigos sábios. Mas são razoáveis aqueles cuja alma   é dotada de logistikon - razão e que são capazes de discernir aquilo que é o bem e o que é o kakon   - mal. Fugindo de tudo aquilo que é mal e prejudicial, consagram-se ao estudo daquilo que é bom (agathon  ) e útil  . E fazem isto dando graças a Deus  . São eles, e apenas eles, que se deve chamar em verdade   de homens dotados de logistikon - razão.

2. O homem   dotado de logistikon - razão em verdade só tem uma coisa no coração  : obedecer e agradar ao Deus do universo  , e formar sua alma pela única preocupação de lhe ser agradável, lhe rendendo graças pela realidade   e a força de sua pronoia   - providência pela qual dirige todas as coisas, o que quer que aconteça, durante sua vida. Seria com efeito fora de lugar agradecer pela saúde   do soma - corpo aos médicos que nos prescrevem medicamentos amargos e desagradáveis, enquanto que recusamos gratidão   a Deus pelas coisas que nos parecem penosas, e que ignoramos que tudo acontece como deve, e para nossa vantagem, pelos cuidados da pronoia - providência. Pois o conhecimento (gnosis) de Deus e a pistis   - fé nele são a soteria   - salvação e a perfeição (katartismos  ) da alma.

3. A enkrateia   - temperança, a resignação, a hagneia - castidade, a fortaleza, a hypomone   - paciência e seus similares são potências virtuosas consideráveis que recebemos de Deus para resistir às dificuldades do momento, lhes fazer face   e nos socorrer. Se exercemos e mantemos estas potências, nos aperceberemos que nada nos acontece de difícil, de doloroso e de intolerável, ao logismos   - pensamento que tudo é humano e pode ser dominado pelas virtudes que estão em nós. Aqueles que não têm nous - inteligência da alma não pensam nisto. Pois não compreendem que tudo se passa bem e como deve ser, para nosso benefício, a fim de que brilhem as virtudes, e que sejamos coroados por Deus.

4. Se pensas que ter dinheiro   e usar de opulência só são aparências ilusórias e passageiras, se sabes que a vida virtuosa que agrada a Deus prevalece sobre a riqueza  , e se refletes seriamente nisto e o guardas na memória (anamnesis  ), então não gemerás mais, não te lamentará mais, não acusarás mais ninguém, mas em tudo darás graças a Deus, vendo aqueles que são piores que tu se apoiarem sobre a eloqüência e sobre o dinheiro. Pois é para a alma um mal muito grave a concupiscência   (epithymia), a ambição (pleonexia  ) ou a ignorância.

5. É examinando a si mesmo   que o homem dotado de logistikon - razão experimenta aquilo que o convém e lhe é útil, aquilo que é apropriado à alma e lhe é vantajoso, e aquilo que lhe é estranho. E é assim que evita o mal que danifica a alma, desde que este lhe é estranho e o separa da imortalidade.

6. Quanto mais se vive modestamente, mas se é feliz. Pois há poucas preocupações. Não há que se inquietar com servidores e trabalhadores. Não se busca possuir animais  . Pois aqueles que se deixam pregar pelas preocupações e caem nas dificuldades que elas lhes ocasionam, culpam a Deus. Mas então esta concupiscência que só se deve a nós irriga a morte, e permanecemos a errar nas trevas de uma vida de pecado  , sem nos conhecer a nós mesmos.

7. Não se deve dizer que não é possível ao homem alcançar uma vida virtuosa, mas que não é fácil. Uma tal vida também não está ao alcance dos primeiros vindos. Mas compartilham a vida virtuosa aqueles que, entre os homens, se consagram à piedade   e cuja inteligência é amada de Deus. Pois a inteligência comum é voltada para o mundo, ela é mutável, se nutre de pensamentos bons como maus, se altera por natureza e se dispões para a matéria. Mas a inteligência amada de Deus se preserva do mal que a negligência suscita no homem.

8. Os homens incultos e ignorantes transformam em galhofa as palavras dos outros e recusam entendê-las, desde que lhes é criticada sua ignorância: querem que todos sejam como eles. Da mesma maneira, os homens depravados em sua vida e seu comportamento se arranjam para que todo mundo seja pior que eles: se imaginam que em meio a tantos maus, se descobrirá que eles mesmos são irrepreensíveis. A alma relaxada se perde e se suja assim na malícia   que porta   nela o deboche  , o orgulho  , a avidez, a cupidez, a rapacidade, a pena  , a mentira  , o prazer, o desleixo  , a tristeza  , a preguiça, a doença, a raiva  , o sonho  , o prazer, a fraqueza, o erro  , a ignorância, o engano, o esquecimento   de Deus. É por estes males, e por outros semelhantes, que é provocada a pobre   alma que ela mesma se separou de Deus.

9. Aqueles que querem conduzir uma vida virtuosa, piedosa e louvável, não devem ser julgados sobre seu comportamento, que pode ser simulado, nem sobre sua conduta, que pode ser enganosa. Mas como os artistas, os pintores e os escultores, é pelas obras que revelam sua conduta virtuosa e amada de Deus, e que rejeitam como tantas armadilhas todos os prazeres maus.

10. Aos olhos daqueles que têm um julgamento   são, ser rico e bem nascido, mas ter a alma inculta e a vida desprovida de toda virtude  , é ser infeliz, como é feliz aquele que a sorte fez pobre e escravo  , mas cuja vida é ornada de cultura e de virtude. Assim como os estrangeiros se perdem nos caminhos, também aqueles que não têm preocupação com a vida virtuosa se perdem em se deixando enganar pela concupiscência.

SEGUE: Antonius   Conduta Virtuosa 11-20 - § 11-20; Antonius Conduta Virtuosa 21-30 - § 21-30; Antonius Conduta Virtuosa 31-40 - § 31-40; Antonius Conduta Virtuosa 41-50 - § 41-50