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Gregorio Nissa Moises

terça-feira 29 de março de 2022

Os escritos de Gregório de Nissa versam sobre sua noção de “sentidos espirituais”, distintos de outras formas de percepções criadas, os quais tornam Deus acessível ao homem. Na Vida de Moisés, usando o relato bíblico como uma parábola da ascensão espiritual cristã, descreve como este encontro com Deus ocorre “na nuvem”, ou seja, sem a ajuda de uma visão criada, pois Deus é totalmente invisível e incompreensível aos olhos criados, e inacessível a mente criada (apophasis). No entanto Ele é visível e perceptível pelo homem, quando pelo batismo e pela purificação ascética, pelo esforço e virtudes, é capaz de adquirir os “sentidos espirituais”, que lhe permitem perceber o Uno, através da comunhão com o Cristo e o Espírito Santo. (J. Meyendorff, prefácio a The Life of Moses, Abraham Malherbe & Everett Fergunson. Paulist Press, 1978)

Na excelente introdução de sua tradução da "Vida de Moisés, Abraham Malherbe e Everett Ferguson, consideram que a obra deve ter sido escrita nos anos 390 AD, Gregório já em idade avançada. Uma doutrina madura da vida espiritual se descortina, com ênfase na encarnação, e sobremaneira ancorada em textos bíblicos.

Na edição de Werner Jaeger   das obras de Gregório, são reunidas na denominada Opera Acetica: De instituto Christiano, Da Profissão Cristã, Da Perfeição, Da Virgindade e a Vida de Macrina. A Vida de Moisés, Dos Títulos dos Salmos  , Homilias sobre o Eclesiastes, Da Oração do Senhor, Das Beatitudes e Do Cântico dos Cânticos   são obras tratadas geralmente em separado, como lidando com os aspectos "místicos" da vida espiritual, tomando o texto escriturário como ponto de partida.

A "perfeição de acordo com a virtude" pode ser considerado o tema não somente da Vida de Moisés mas também do "Da Perfeição" e "Da Profissão Cristã". Dos demais trabalhos exegéticos, a Vida de Moisés tem muito em comum com o comentário dos Cânticos. Estas obras parecem pertencer a um mesmo período da vida de Gregório. Jean Danielou - Daniélou põe a Vida de Moisés entre o "Do Cântico" e "Da Perfeição", e Jaeger   a vê como precedendo imediatamente De instituto Christiano, que considera o clímax dos escritos espirituais de Gregório.

As mesmas ideias complexas recorrem em todos os escritos de Gregório. Daí a genuinidade da Vida de Moisés nunca foi questionada. O tratado se dirige a Cesário, que tudo indica ser um monge, procedendo de um tempo em que Gregório era reconhecido pelos ascetas da Ásia Menor como um mestre da vida espiritual. O tratado tem seu lugar como parte de um programa de Gregório de prover compreensão ideológica ao movimento monástico organizado por Basílio.

A Vida de Moisés tem a forma de um logos, ou seja é um tratado formal, lidando com a "Perfeição na Virtude". Pode ter sido projetado para leitura em voz alta na morada dos ascetas. Há quatro seções:

  • (1) Prefácio, ou carta de introdução;
  • (2) História (gr. historia), ou paráfrase da história bíblica;
    • Segundo o Abade Stephane não se trata de uma história profana; seria todavia o denominaríamos uma "história santa", uma exegese literal edificante.
  • (3) Contemplação (gr. theoria), ou sentido espiritual da narrativa escriturária, que é a principal preocupação;
    • Onde a história de Moisés se torna símbolo do itinerário místico da alma. Os episódios maiores são a Sarça Ardente e a ascensão do Sinai; a estrutura geral da vida espiritual comporta então a purificação da vida carnal, depois a iluminação, e enfim o mistério do Ser inacessível que se persegue indefinidamente.
  • (4) Conclusão.

A abordagem em História - historia e theoria era comum na instrução catequética. O importante é a hermenêutica que elucida toda uma simbologia como por exemplo: "o sexo feminino como símbolo do mundo sensível e das paixões"; "a virtude como a ‘via real’ que conduz o homem espiritual à montanha santa"; a ascensão da montanha é uma "mistagogia" onde Moisés é iniciado nos mistério do Sacerdócio. NO curso de sua ascensão, Moisés penetra nas Trevas, quer dizer na transcendência da Essência divina em relação a todo espírito criado: a alma, em busca de Deus, crê então o alcançar nas luzes que dele recebe, até que, de desafio em desafio, acaba por compreender que ver Deus consiste em não ver e é nesta demanda ela mesma que reside o conhecimento daquele que supera todo conhecimento.

O Abade Stephane considera que seria insuficiente ficar nesta exegese puramente espiritual, de inspiração platônica, e justamente Gregório vai além a "cristianizando" ou "batizando" por meio de outra exegese já incipiente no NT e nos primeiros Padres da Igreja. Tudo deve ser considerado como centrado em Cristo. A serpente de bronze, o maná, o Cordeiro pascal  , a coluna luminosa, a fonte borbulhante são aplicados ao Cristo, tendo por fundamento texto decisivo de Paulo Apóstolo  :
"Pois não quero, irmãos, que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar; e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés, e todos comeram do mesmo alimento espiritual; e beberam todos da mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os acompanhava; e a pedra era Cristo. Mas Deus não se agradou da maior parte deles; pelo que foram prostrados no deserto. Ora, estas coisas nos foram feitas para exemplo, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. (1Cor 10:1-6)

Assim Gregório de Nissa em conformidade com a tradição comum da Igreja, segue o mesmo método de interpretação do Êxodo. A travessia do Mar Vermelho é a figura do Batismo e o Rochedo é o Cristo. Na interpretação do Tabernáculo, Gregório se refere diretamente à Epístola dos Hebreus:
Dizemos portanto, nos valendo de Paulo Apóstolo   que tratou deste mistério em parte e nas palavras de quem encontramos um ponto de partida, que Moisés foi instruído de antemão, em figura, do mistério do verdadeiro tabernáculo que contém todas as coisas, quer dizer o Cristo, Virtude e Sabedoria de Deus" (alusão a Hb IX, 11ss).

A seguir excertos da tradução em português oferecida em S. Gregório de Nissa: A Vida de Moisés, incluindo seleções segundo alguns termos e noções chaves.


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