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Pureza de Coração

terça-feira 29 de março de 2022

Cristologia
Ysabel de Andia: MYSTIQUES D’ORIENT ET D’OCCIDENT

É mais fácil purificar o vaso ou o prato que o coração. O vaso ou o prato que se vê, mas que é o coração? Esta emoção súbita ou este desejo, que sobem de meu coração, me revelam as profundezas do coração?

De pronto se coloca a questão do conhecimento do coração, de sua verdade em oposição às ilusões da sensibilidade, de suas profundezas que não alcançam os desejos superficiais, do amor ao mesmo tempo invisível em sua fonte e visível em seus signos. As oposições «profundeza-superfície», «verdade-ilusão», «visível-invisível» correspondem à distinção bíblica do homem interior e do homem exterior.

O coração está no interior, secreto, profundo e o homem jamais parou de explorar os espaços de seu próprio coração. O coração é isto que está «no coração», quer dizer no centro. É daí que nascem não somente os pensamentos e as vontades, mas a vida ela mesma:

Guarda teu coração, dizem os Provérbios, pois dele brotam as fontes da vida.

O coração ele mesmo é fonte posto que dele provém os pensamentos e as intenções que subentendem os atos. Origem e centro, é ao mesmo tempo o lugar da interioridade — onde as metáforas do centro, abismo ou cume, coincidem —, e aquele da unidade — onde o homem é apreendido em seu centro, antes ou além das distinções das faculdades ou dos poderes da alma.

O conhecimento do coração está ligado a este duplo movimento de interiorização e de unificação: voltar-se ao coração, é unificar a inteligência e o coração ou «fazer descer a inteligência no coração», como diriam certos Padres da Igreja oriental; e este retorno ao coração é um retorno a Deus: não é o homem, mas Deus que é o centro do homem e se o pecado fecha o homem sobre sua própria autonomia, a graça o abre a Deus que é seu princípio e seu fim.

É Deus que fez o coração do homem a sua imagem e a sua semelhança (Imagem e Semelhança). Isto que significa que «algo» do coração do homem nos fez conhecer o coração de Deus. Mas a impureza tornou o coração opaco a Deus e a ele mesmo e só o coração puro ou o coração dos santos manifesta o amor de Deus que o fez e para quem é feito.

É Deus que conhece o coração do homem. Desde o canto do salmista até as afirmações repetidas do Evangelho de João, parece que só Deus conhece o coração do homem pois «nada está oculto a seus olhos».

O coração do homem é segredo e não pode ser conhecido senão pela mediação dos atos e das palavras. É semelhante a uma árvore que é reconhecida por seus frutos: uma boa árvore produz bons frutos e uma má árvore produz de maus frutos.

Há outras imagens evangélicas do coração: aquela do tesouro de que se tira boas ou más coisas e aquela do campo. A comparação do campo e do coração se refere a duas parábolas: aquela do semeador que semeia em uma boa terra onde a semente produz fruto em abundância ou em uma má terra onde «o Maligno se ampara do que foi semeado no coração do homem» e o cardo sufoca a semente, e aquela do campo onde o diabo vai semear o joio. O coração é uma terra que recebe a semente da Palavra de vida — e a imagem desta «boa terra» é Maria «Terra virgo», mas o diabo semeia também sementes de morte. E é preciso «limpar» o coração, como se limpa o campo arrancando o joio ou o cardo que o invadem.

Mas o coração é também o lugar onde se afrontam as trevas e a luz e sua purificação e então uma iluminação: a vinda à luz de que fala Jesus à Samaritana em João 4 e a iluminação batismal ou penitencial. A imagem da passagem das trevas à luz apreende o reconhecimento do pecado no ato de conversão do pecador. O conhecimento das «trevas» do coração humano exige a irrupção da luz nas «profundezas» do coração e a «mentira» do coração do homem não pode ser conhecida senão «fora de si».

Não é senão no estado de êxtase que, segundo Gregório de Nissa comentando o texto grego da Septuaginta do Salmo   115, David   pôde dizer: «Omnis homem mendax est». Esta descoberta da «mentira» radical do coração do homem, que não cessa de se desviar de Deus, ou de sua impureza profunda corresponde à experiência simétrica da impossibilidade de um ato totalmente puro: todos os atos e as palavras do homem são manchadas de impureza e de mentira, pois o homem não é senão mentira e seu coração é impuro.

Donde o clamor do salmista: «Ó Deus, cria para mim um coração puro, restaura em peito um espírito firme...» (Salmo   51,12).

Quem poderá purificar o coração do homem? Quem poderá lhe dá um «coração novo», senão o Espírito De Deus que ressuscita os mortos. Pois a purificação do coração não é somente uma passagem das trevas à luz, mas também da morte à vida. Quem poderá desvelar no coração do homem os germe - germes de morte senão este mesmo Espírito de Deus? Mas o que é o puro e o impuro?