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Compêndio de História da Filosofia

Thonnard : Leibniz

samedi 11 septembre 2021

Excerto de « Compêndio de História da Filosofia »

CARÁTER GERAL.

358. — A obra de Leibniz?, complexa como o seu autor, parece ao mesmo tempo? travar e impelir o espírito? moderno? ; aparece primeiro como uma forte reação?, em nome? da doutrina tradicional, contra o individualismo? e a crítica? destrutiva de Descartes?. Leibniz respeita e utiliza os antigos : o seu desejo? é reencontrar o que ele chama a “Philosophia perennis?“, constituída pelos elementos? verdadeiros de todos os sistemas. O espírito geral? parece, pois, anticartesiano, e poder-se-iam recolher nos seus escritos muitas ideias? tomistas. Assim Barbedette (Hist. de la phil., p. 403-407) põe em relevo uma série? de afirmações de Leibniz, respeitando a lógica?, o estudo? de Deus?, do mundo?, do homem?, da moral? que retomam as doutrinas de Aristóteles? e de Santo? Tomás, como a definição? do movimento? pela passagem da potência? ao ato?, a distinção? entre substância? e acidente?, a alma?, forma? substancial? do corpo?, etc.

Na realidade?, contudo, o princípio? que é a alma desta filosofia?, não? é de forma alguma tomista, mas cartesiano. É um? esforço? para reconstruir o mundo, fora da experiência?, determinando-lhe os elementos primordiais simples? e combinando-os depois segundo o método? rigoroso das matemáticas. É um novo ensaio de aplicação do método da ideia? clara ; mas, para evitar o panteísmo?, Leibniz esforça-se por precisar essa ideia, estabelecendo a sua “ teoria? fundamental. “ que depois desenvolve, quer na ordem? lógica, quer na ordem real?, para explicar? o universo? : tais são os três pontos a desenvolver.

I. — TEORIA FUNDAMENTAL.

359. — A doutrina metafísica?, da qual a monadologia? é a síntese?, é apenas uma parte? do vasto sistema? que preocupava a imaginação? de Leibniz ; para disso fazermos uma ideia justa, convém mostrar o seu pensamento? unificador do ponto? de vista lógico? ou metodológico, antes de encararmos o ponto de vista metafísico.

A) Síntese lógica. — A ideia directriz de Leibniz pode exprimir-se na proposição? seguinte :

” Existe uma ciência? universal? de tipo? matemático capaz de dar a razão?, a priori, de tudo o que existe “.

Assim, Leibniz continua visivelmente o método da ideia clara, ainda que contradizendo e criticando Descartes em vários pontos importantes (por exemplo?, condena a método da dúvida? universal e começa a filosofia pela afirmação? evidente dos primeiros princípios? : rejeita a identidade? de substância e da de extensão?, etc.). O seu ideal? é também resolver todos os problemas que o espírito humano põe a si próprio? com a mesma clareza que em matemática? onde a prova? exclui as controvérsias tão frequentes em outros assuntos. Teria mesmo desejado substituir o raciocínio? pelo cálculo?, a exemplo da álgebra? ; e para isso trabalhou longo tempo na constituição? duma “ característica? universal” onde todas as ideias nas diversas disciplinas seriam substituídas por sinais (como as letras em álgebra) de modo? que fosse possível? resolver qualquer problema? por uma espécie? de cálculo lógico.

Mas dispunha para isso, não só do cálculo ordinário, mas também dos recurso ? do cálculo infinitesimal? e integral que acabava de inventar. Assim, conquanto admitisse o princípio de Spinoza? : “ Toda substância é infinita “, evitava o panteísmo porque, segundo ele, pode haver vários infinitos : por exemplo a série dos números que ligam 1 a 2, sejam : 1 + ½ + ¼ + etc., é infinita, quer se trate dum comprimento, dum peso?, duma superfície, etc. Da mesma forma, cada uma das substâncias? criadas contém em si mesma a série infinita dos acontecimentos do mundo, mas cada uma do seu ponto de vista ; são infinitos “sob um certo aspecto? “. Por seu turno poderá ser? constituído por uma série infinita de substâncias, comparável à série infinita das quantidades que ligam 1 a 2, concebendo-se Deus como o limite?, a perfeição? suprema na qual toda a série encontra a sua razão de ser. Assim se constitui uma ciência de tipo matemático.

Este ideal supõe que toda afirmação verdadeira se reduz como na matemática à identidade de dois termos : “ Toda a proposição verdadeira é analítica? “. Tal é bem? a tese? de Leibniz. Segundo ele, é sempre possível encontrar, na análise? do sujeito?, a razão a priori do predicado?, não somente nas proposições universais? e necessárias onde se deduzem as propriedades da essência?, como “ Todo? triângulo tem os seus três ângulos iguais a dois retos “ ; mas também nas afirmações de fato?, como “ César venceu Pompeu em Farsália “.

É neste sentido? que ele põe na base de toda a especulação? dois grandes princípios : o da identidade : ” Todo o ser é o que é “ ; e o da razão suficiente : “ Nada? existe sem razão suficiente ” (“De qualquer coisa? há uma razão pela qual ela é assim antes que de outra forma “, ou ainda “Toda a proposição verdadeira, que de si não é conhecida, recebe uma prova a priori “ ; fórmulas de Leibniz, citadas por Bréhier?, Hist. de la phil., II, p. 241). Porque se o princípio de identidade reina como senhor nas ciências matemáticas, onde a prova se desenvolve por substituição? perfeita, o princípio de razão suficiente é destinado a estender esta evidência? matemática a todas as outras matérias, tanto históricas, morais e religiosas como físicas e metafísicas ; em tudo, graças à razão suficiente, a demonstração? revestirá o rigor dum cálculo, seja do cálculo ordinário, seja pelo menos do cálculo integral e infinitesimal.

Mas esta concepção duma ciência universal não apagará a distinção entre proposições necessárias e contingentes e não arrastará consigo o determinismo? absoluto?, como no panteísmo spinozista ? De forma alguma, diz Leibniz ; porque estas duas espécies de proposições não correspondem em Deus ao mesmo atributo?. As proposições necessárias dependem unicamente da Inteligência? divina e constituem o mundo dos possíveis ; as proposições contingentes dependem da vontade? divina : exprimem os fatos do mundo real que Deus escolheu livremente criar entre os mundos possíveis (vê-se que o princípio de razão suficiente regula especialmente o mundo real, enquanto o principio de identidade basta ao mundo dos possíveis). Mas esta criação?, conquanto livre, foi determinada por uma razão suficiente a qual, a quem a penetrar, fornece a explicação? a priori.

Daí, relativamente a nós, uma outra distinção entre estas duas espécies de proposições. Se, com efeito?, podemos por análise, descobrir a evidência das proposições necessárias, somos incapazes de formar um conceito? suficientemente adequado? das coisas? reais ou contingentes para nele descobrir a explicação de todas as propriedades ou circunstâncias que lhes correspondem. Só Deus o pode fazer porque os criou. Quanto a nós, apenas podemos aproximar-nos cada vez mais, procurando as explicações a priori mais prováveis ; a ciência universal é um ideal inacessível de fato, mas para o qual tendemos por uma espécie de cálculo das probabilidades.

O princípio da razão suficiente no sentido de Leibniz é uma extensão aos seres contingentes do princípio da ideia clara : afirma que tudo o que acontece de fato é inteligível? a priori, para aquele que plenamente conhecesse a definição do sujeito concreto?. Assim compreendido está longe de ser evidente ; é um postulado?, fruto do racionalismo? ; e Leibniz está muito mais perto de Spinoza do que o desejaria.

É necessário?, pelo contrário, dizermos que o princípio de razão suficiente é imediatamente evidente, mas mantendo inteiramente a liberdade? divina, a contingência? do mundo, a sua distinção radical de Deus. “ Tudo tem sua razão de ser ”, isto é, “ Tudo é inteligível ”, mas de duas maneiras : Todo ser tem em si a. razão do que lhe convém essencialmente, ou por si (razão suficiente intrínseca, outra forma da identidade) ; e “ Todo o ser tem num outro? a razão do que lhe convém, mas não por si (razão suficiente extrínseca, fórmula?, a mais geral do princípio de causalidade?). Assim, o quadrado tem em si a razão pela qual tem quatro lados ; mas o ser ele branco ou vermelho, tem em outro a razão que explica esta particularidade. Ora, só Deus tem em si a razão da sua existência?, porque só Ele é o Ser necessário. Quanto aos seres contingentes e aos acontecimentos históricos, têm, sem dúvida, uma razão de ser, mas não a priori, na sua essência ou própria definição ; dependem em última análise da vontade livre do Criador ou do homem, e não são acessíveis ao nosso conhecimento? senão a posteriori.

Leibniz esforçou-se em realizar o seu ideal em todos os domínios. Em religião?, dele concluía a possibilidade? dum acordo? de todas as confissões a partir de dados comuns e, com este fim?, se dirigiu a Bossuet? ; mas o vírus racionalista que viciava a sua tentativa a fez abortar (Bossuet pedia que se reconhecesse a autoridade? dogmática da Igreja, como regra? de fé?, enquanto Leibniz sonhava com um acordo sobre “ dogmas” demonstrados todos pela razão). Aplicando-o ao domínio metafísico, construiu um sistema filosófico original e bem unificado.

B) Síntese metafísica. — 330. — A ideia directriz de Leibniz pode exprimir-se assim : “Tudo se explica no universo pela mônada?, substância simples e ativa “.

A mônada é uma energia? ou uma força? que constitui elemento? primordial de todo ser, que lhe dá a sua unidade? perfeita (“Por mônada, diz Leibniz, entendo a substância verdadeiramente una, a saber?, a que não é um agregado? de substâncias”. — Correspondance com Bernouilli, II, p. 398) e substancial e o torna simples em si mesmo e distinto de qualquer outro. É a divisibilidade? indefinida da matéria? e da extensão que parece ter? levado Leibniz a admitir, como primeiro princípio de tudo, um elemento simples. Parece-lhe com efeito evidente que “ o composto? outra coisa não é senão um montão ou aggregatum de simples “ (Monadologie, n° 2 ; col. Hatier, p. 14) ; na sua opinião?, uma multiplicidade? de partes não se compreende senão pelos elementos simples que a compõem, como convém, por exemplo, reduzir a linha a uma série infinita de unidades para a tornar inteligível submetendo-a ao cálculo.

Por outro lado, estes elementos, “ verdadeiros átomos da natureza?” (Ibid., n° 3) são essencialmente ativos, dotados de energia, pelo menos, virtual?. Isso é evidente para os seres vivos e sobretudo para aqueles que têm consciência? de si próprios, como a nossa alma ; mas entre os próprios corpos, não se encontra nenhum absolutamente inerte. Leibniz prova-o por este fato : que é mais difícil mover uma grande massa? que uma pequena, sinal? de resistência ativa ; da mesma forma, se um bloco de pedra fosse completamente inerte, uma bala lançada contra ele impeli-lo-ia sem dificuldade em vez de ricochetear. Portanto, o elemento primordial de todo ser é uma substância ao mesmo tempo simples e ativa : é a mônada (Teoria do Atomismo? dinâmico?).

Graças a este princípio, Leibniz explica o nosso universo, considerando primeiro o mundo das mônadas? na ordem possível, e depois como Deus o fez, passado a ordem real.

II. — A ORDEM DOS POSSÍVEIS.

361. — É possível, para Leibniz, tudo aquilo cujo conceito não implica contradição?. Deste ponto de vista, mesmo antes de existir?, o mundo das mônadas deve satisfazer ao duplo princípio de identidade e de razão suficiente e isso quanto ao seu número?, à sua natureza e às suas relações mútuas.

A) Número de mônadas.

Leibniz é resolutamente pluralista (o pluralismo? é a “ doutrina segundo a qual os seres que compõem o mundo sao múltiplos, individuais, independentes e não devem ser considerados como simples modos ou fenômenos de uma realidade única e absoluta “. — Definiç. do Vocab. techn. de la phil., de Lalande) e rejeita com horror o monismo? de Spinoza. Mas para justificar a sua posição? (que toma, sem dúvida, do senso? comum e da sua educação?), o seu sistema proíbe-lhe apelar para a evidência directa da experiência ; contenta-se com uma prova indirecta, inspirada do método da ideia clara, e que, de mais, fica implícita. Pode esta resumir-se assim : “ O pluralismo é verdadeiro?, porque pode entrar num sistema científico coerente, sob condição? de interpretar o real pelo duplo princípio de identidade e de razão suficiente “.

Admitindo como postulado inicial a possibilidade de substâncias realmente distintas, é preciso dizer que o seu número será necessariamente infinito?. Isso se prova, ou a priori : porque não há razão alguma suficiente para nos determos numa soma? preferivelmente a outra ; quer a posteriori : porque a extensão mostra-se divisível ao infinito e deve, pois, ser composta de um número infinito de elementos simples.

De mais, a) as mônadas são todas diferentes em perfeição (princípio dos indiscerníveis?) ; de outra forma tornar-se-ia impossível? distingui-las ; identificar-se-iam pois e o postulado da sua pluralidade? tornar-se-ia absurdo? ; b) escalonam-se do menos ao mais perfeito?, por degraus insensíveis, sem qualquer vácuo? entre si (princípio da continuidade da natureza), porque se a sua sucessão? fosse irregular, não se lhe poderia atribuir qualquer razão suficiente.

B) Natureza das mônadas.

362. — Toda a mônada, sendo simples, não pode ter extensão, nem figura?, nem divisibilidade. Não se pode realizar senão por criação e é de si incorruptível ; mas também “ as mônadas não têm janelas por onde qualquer coisa nelas possa entrar nem delas possa sair “ (Monadologie, n° 7, col. Hatier, p. 15), porque num ser simples não há partes susceptíveis de ser movidas ou deslocadas por uma influência externa. Contudo, se se trata de mônadas finitas, devem mover-se e mesmo continuamente : Leibniz afirma-o com o senso comum, e sem dúvida também como sequência? evidente do seu pluralismo inicial (Uma substancia ativa imutável, seria o Acto puro?, infinito e único?). Por consequência?, se cada mônada apenas pode ter movimentos imanentes, tem-nos necessariamente : é um vivo e leva a sua vida? própria como se estivesse absolutamente só.

Ora, podemos fazer ideia das suas operações por analogia? com a nossa alma que não é. ela própria, senão uma mônada mais perfeita. Distinguimos assim três grupos de atividades :

a) As percepções surdas ou pequenas percepções, pelas quais cada mônada é como um espelho onde se reflectem todos os acontecimentos do universo, tornando-se assim um como reservatório imenso onde está contida virtualmente a ciência universal. Estas percepções são em grande parte inconscientes mas prova-se-lhes a existência, quer por certos fatos, como as lembranças sem prévia percepção? quer pelo princípio de razão suficiente : porque a ausência? desta vida inconsciente? tornaria ininteligível? o desenvolvimento? da vida consciente?,

b) As percepções claras ou apercepções, pelas quais tomamos distintamente consciência de certos objetos e, em primeiro lugar?, das mônadas mais próximas ; são o fruto de um trabalho? de reflexão? e de análise sobre os dados complexos e confusos das percepções surdas.

c) A apetência? (ou desejo) pela qual passamos de uma percepção a outra ; é uma força de expansão que provém da própria essência da mônada ; tende para o perfeito e leva-nos a alargar, cada vez mais, o campo? das percepções claras.

Graças a estas operações, podemos distinguir na série contínua das mônadas, três ordens principais :

1) A ordem inferior, compreendendo os vegetais e até os minerais, que gozam da vida e de percepções surdas, mas sem consciência alguma.

2) A ordem intermediária dos animais que já gozam de percepções distintas e que, graças às leis de associação? das imagens, podem imitar a razão.

3) A ordem superior? dos seres racionais, os únicos que atingem as verdades necessárias. Eis também porque só eles conseguem, aplicando os grandes princípios de identidade e de razão suficiente, formar uma consciência clara do seu eu?, dos outros e especialmente de Deus. E, conquanto todas as mônadas tenham afinal a mesma natureza, o privilégio de conhecer Deus parece exigir para a mônada racional? uma perfeição superior que Leibniz, contudo, não consegue explicar claramente (para Leibniz toda a mônada é eterna e imortal, mas considera como um “ preconceito escolástico “ a existência de “ almas inteiramente separadas “ do seu corpo — Cf. Monad., n° 14, col. Hatier, p. 17).

Resume a sua teoria no adágio de Aristóteles, mas com uma correcção : “ Nihil est in intellectu quin prius fuerit in sensu, nisi ipse intellectus “ ; em outros termos, as nossas ciências são apenas a explicação do mundo inconsciente que toda mônada traz em sua natureza sob forma de percepções surdas ; mas esta explicação ainda exige a mais na razão a preexistência virtual dos primeiros princípios, fontes das ideias universais e necessárias. O sentido da fórmula fica assim transformado : de realista, tornou-se idealista.

C) Relações mútuas das mônadas.

363. — A consequência desta teoria é que a substância corpórea não é constituída pela extensão, como dizia Descartes ; não pode ser senão um agregado de princípios inextensos, dotados de vida e de consciência latente?, e cujo conjunto apenas é inteligível, por uma ligação psicológica, uma correspondência? de percepções. É para explicar estes “ agregados de mônadas “ e assim tornar possível a ordem do universo, que cada mônada deve ser o resumo de todas as outras, com tendência? a conhecer em primeiro lugar as suas vizinhas.

O corpo humano é apenas um caso particular? da lei? geral. O que constitui os vivos é a presença?, no centro do composto, de uma mônada superior, a alma, que domina as outras pelas suas percepções mais claras cujo objeto? é, em primeiro lugar, o seu próprio corpo. Assim, cada variação no corpo reflecte-se nas variações da vida psicológica da alma. O corpo e a alma são como “ relógios bem regulados, batendo sempre a hora ao mesmo tempo “ (não há, nem influência mútua, nem assistência de Deus “ para pôr? os relógios de acordo a todo momento?” ; Leibniz não apreendeu a tese profunda de premoção? divina — Cf. cot. Hatier, Monad., apend., p. 53-54). Esta correspondência, decorrendo da natureza das mônadas, explica também a sua interação? aparente? e especialmente a união? da alma e do corpo (Teoria da harmonia? preestabelecida).

Todo este mundo possível, entes de existir em si, vive na inteligência divina. Resta examinar como dela saiu para se realizar.

III. A ORDEM DO REAL.

364. — Temos aqui a aplicação especial do princípio de razão suficiente para demonstrar a existência de Deus, explicar a criação e a liberdade humana.

A) Existência de Deus.

A razão suficiente fornece uma dupla prova.

1) A posteriori. Existe, com efeito, ao lado das verdades necessárias, inteligíveis de per si, verdades contingentes ou de fato (por exemplo, o ato de escrever) que exigem uma causa? exterior?. Mas na ordem criada, a série das causas é infinita, isto é, sempre incompleta. Não pode pois dar a razão suficiente perfeita e acabada que satisfaça plenamente as exigências racionais ; esta razão deve ser procurada fora da série numa Substância única, universal e necessária que tem em si a plena razão suficiente do que é.

2) A priori. Esta ideia de Deus pode servir para demonstrar a sua existência a priori, emendando um tanto a prova cartesiana. Deus existe, se é possível, porque sendo a possibilidade de Deus a de uma “ necessidade? de existir “, arrasta, evidentemente, a existência necessária (”O ser em si, diz Leibniz, é o Ser que deve existir porque é possível, sendo por definição o Ser necessário : negar a sua existência é negar a sua possibilidade “. Mas se o Ser por si é impossível, “ todos os seres por outro o são também, posto que, afinal apenas o são pelo Ser em si ; assim nada poderia existir “. Extraído de uma carta : cf. Marechal, Point de départ..., III, P- 31-32). Esta consequência ainda se torna mais evidente se notarmos que todo o possível é uma “ tendência a ser “, a realizar o que ele significa, porque esta tendência é a única razão explicativa da existência de certos possíveis à exclusão dos outros. Ora em Deus, a perfeição possível é infinita ; envolve pois uma tendência infinita e irresistível para existir, de modo que Deus existe necessariamente.

B) A criação.

365. — Na inteligência divina que conhece tudo o que não implica contradição, existe um número infinito de universos possíveis. Cada um deles, tomado à parte, não tem uma exigência necessária para existir, pois é puro possível ; eis porque a Potência divina, tomada em si, não é necessitada e permanece livre de criar um ou outro mundo. Mas se os compararmos entre si em função? da Sabedoria? divina, há certamente um que sobrepassa todos os outros em bondade? e portanto em exigência para existir. Ora o ato divino, sob pena? de ser imperfeito, deve ter uma razão suficiente e esta razão não pode deixar de ser o maior bem : é pois necessário dizer que o mundo atual é o melhor possível (Tese do Optimismo).

C) Liberdade humana.

886. — A nossa atividade? racional, como a de Deus, deve ter uma razão suficiente ; se a liberdade fosse uma potência de agir? sem razão, seria irracional?, absurda e má. É pois necessário concebê-la, por um lado, como uma energia espontânea que, pela sua operação? satisfaz uma tendência natural?, não imposta, e com isso manifesta a sua independência ; mas por outro lado, o seu ato é infalivelmente determinado a escolher o objeto que, em dada circunstância psicológica, se impõe como melhor e com isso encontra também uma razão suficiente (Teoria do Determinismo psicológico?).

Conclusão. — 367. — A imprecisão inicial sobre o sentido do princípio de razão suficiente devia necessariamente trazer aos pormenores do sistema outras imprecisões. Assim, Leibniz nega praticamente a liberdade divina e humana porque não sabe reconhecer, numa causa eficiente perfeita (o agente? livre), uma razão suficiente extrínseca, plenamente explicativa do ato, mas francamente distinta da razão intrínseca, essencial?. Esta reintroduz-se na explicação leibniziana, sob a forma de elo necessário entre toda a causa e o seu efeito. O mundo o melhor possível tende a tornar-se um efeito formal? indispensável à perfeição divina que é a sua causa formal e assemelha-se, muito mais do que o desejaria Leibniz, às séries de modos constituindo o mundo para Spinoza.

Sob este aspecto, o sistema pluralista das mônadas é muito menos coerente e menos sólido que o monismo de Spinoza, pois a sua unidade assenta o mais das vezes sobre o duplo sentido do princípio de razão suficiente, isto é, sobre um equívoco?.

De um outro ponto de vista, Leibniz entra, muito mais que Descartes e Spinosa, no caminho do idealismo?. Se a harmonia preestabelecida, como um “ deus ex machina “, salva ainda a realidade objetiva do mundo e da sua ordem, fica de resto que a nossa mônada-alma apenas conhece as suas modificações subjetivas ou as suas ideias, o que é exatamente a fórmula do idealismo : de mais, a teoria das mônadas simples priva já as ideias de extensão e de espaço? de qualquer valor? objetivo?.

Assim, Leibniz, apesar de um ensaio de reação em favor da filosofia tradicional, desenvolve de fato os germes idealistas do cartesianismo?, realizando a unidade em favor do “ pensamento “, com detrimento da extensão.

O seu discípulo Wolf (1679-1754) conduzirá esta influência idealista até Kant?. Vulgarizador de Leibniz, muito tempo professor em Halle, autor de obras numerosas, teve, pela sua clareza e o seu método, uma considerável influência. Também não se dava como discípulo absolutamente fiel de Leibniz. “ Em geral, nivelou o pensamento do mestre? e amputou-lhe as partes mais originais, por exemplo, a teoria das mônadas “. Mas guardou o seu racionalismo idealista, e até o agravou, tentando reduzir o princípio de razão suficiente ao princípio de identidade, fazendo da filosofia o estudo dos possíveis.